Preparei o texto como um artigo que mistura história da Restauração, escrituras, explicação doutrinária e situações do cotidiano, sem ficar com aquela linguagem de manual de aula. A ideia é que alguém que conhece pouco o assunto consiga entender, mas que um membro da Igreja também encontre profundidade.
Sacerdócio Aarônico: muito mais do que passar o sacramento
Por Abilio Machado
Quando alguém ouve falar em Sacerdócio Aarônico dentro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, talvez a primeira imagem que venha à cabeça seja a de um rapaz de camisa branca passando o sacramento.
E, de certa maneira, está certo.
Mas somente de certa maneira.
Porque existe uma história muito maior por trás daquele jovem que, aos domingos, caminha silenciosamente pelos bancos da capela levando o pão e a água.
Ali não está simplesmente um rapaz cumprindo uma tarefa.
Ali está alguém que recebeu autoridade para participar de uma das ordenanças mais importantes da Igreja.
E essa história começa muito antes dele nascer.
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Antes de existir o diácono, existiu Aarão
Aarão aparece no Velho Testamento como irmão de Moisés e membro da tribo de Levi. Ele foi separado para o serviço sacerdotal entre os filhos de Israel.
O sacerdócio aarônico, portanto, não recebeu esse nome por acaso.
Na tradição das escrituras, Aarão representa um sacerdócio ligado ao serviço, às ordenanças e à preparação do povo para aproximar-se de Deus.
Séculos depois, durante a Restauração do evangelho, esse mesmo sacerdócio voltaria à Terra.
E aqui começa uma das histórias mais extraordinárias da história da Igreja.
Em 15 de maio de 1829, Joseph Smith e Oliver Cowdery estavam traduzindo o Livro de Mórmon quando se retiraram para orar a respeito do batismo e da autoridade necessária para realizá-lo.
Segundo o relato de Joseph Smith, João Batista apareceu como um ser ressuscitado e conferiu sobre eles o Sacerdócio de Aarão pela imposição das mãos.
As palavras registradas em Doutrina e Convênios 13:1 são impressionantes:
«“A vós, meus conservos, em nome do Messias, eu confiro o Sacerdócio de Aarão...”»
E João Batista explicou que esse sacerdócio possuía as chaves do ministério de anjos, do evangelho do arrependimento e do batismo por imersão para remissão de pecados.
Perceba a dimensão disso.
O primeiro sacerdócio restaurado nesta dispensação não foi apresentado como um prêmio para alguém importante.
Foi entregue para que homens comuns pudessem servir no trabalho de Deus.
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Mas afinal, o que é o Sacerdócio Aarônico?
A Igreja ensina que sacerdócio é o poder e a autoridade de Deus dados aos Seus filhos para agir em Seu nome e ajudar no trabalho de salvação e exaltação.
O Sacerdócio Aarônico é chamado de sacerdócio “preparatório” ou “menor”, em relação ao Sacerdócio de Melquisedeque.
Mas “menor” não significa “sem importância”.
Essa talvez seja uma das primeiras coisas que precisamos entender.
Uma criança pode começar aprendendo a tabuada e, anos depois, estudar matemática avançada. O fato de a primeira operação ser simples não significa que ela seja inútil.
Ela é preparação.
O Sacerdócio Aarônico tem justamente essa característica: preparar, ensinar, servir e conduzir para Cristo.
Doutrina e Convênios 84:26–27 ensina que ele contém a chave do ministério de anjos e do evangelho preparatório, relacionado ao arrependimento, ao batismo e à remissão dos pecados.
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E aqui existe algo interessante: ele não começa com poder, começa com serviço
Na Igreja, os ofícios do Sacerdócio Aarônico são:
Diácono, Mestre, Sacerdote e Bispo.
Atualmente, rapazes dignos podem receber o Sacerdócio Aarônico a partir de janeiro do ano em que completam 12 anos.
E veja que interessante a sequência.
O menino começa aprendendo a servir.
Depois aprende a cuidar.
Depois passa a ter responsabilidades maiores nas ordenanças.
É quase como uma escola prática de discipulado.
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O diácono: alguém que aprende que a Igreja não gira em torno dele
O diácono possui responsabilidades como distribuir o sacramento e auxiliar o bispo em questões temporais, incluindo a coleta das ofertas de jejum.
Parece simples.
Mas imagine um rapaz de 12 anos aprendendo uma coisa que muitos adultos ainda não aprenderam:
“Eu não estou aqui para ser servido. Estou aqui para servir.”
Essa talvez seja uma das primeiras grandes lições do sacerdócio.
Quando ele passa o sacramento, não deveria estar pensando:
“Olhem para mim.”
Deveria pensar:
“Como posso ajudar essas pessoas a se lembrarem de Cristo?”
É uma mudança enorme de perspectiva.
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O Mestre: cuidar antes que alguém precise pedir
Depois vem o ofício de mestre.
Além das responsabilidades do diácono, o mestre tem responsabilidades relacionadas à preparação do sacramento e à ministração aos membros. As escrituras falam também sobre fortalecer a Igreja e cuidar das famílias.
Aqui aparece uma palavra que, para mim, resume muito bem esse ofício:
cuidado.
Imagine um jovem chegando à casa de uma família e perguntando:
“Está tudo bem?”
Às vezes a resposta será:
“Está tudo.”
Mas o rosto da pessoa estará dizendo:
“Não está.”
O ministério começa justamente quando aprendemos a perceber aquilo que as palavras não dizem.
Por isso, o Sacerdócio Aarônico não deveria formar apenas rapazes que sabem realizar tarefas.
Deveria formar homens capazes de perceber pessoas.
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O Sacerdote: autoridade para agir em ordenanças sagradas
Quando chega ao ofício de sacerdote, o jovem recebe responsabilidades maiores.
Entre elas está a autoridade para batizar, quando autorizado, e para abençoar e administrar o sacramento, sob a direção apropriada. Doutrina e Convênios 20 descreve essas responsabilidades.
E aqui existe algo que merece nossa atenção.
O jovem que abençoa o sacramento está pronunciando palavras que milhões de Santos dos Últimos Dias ouviram repetidamente durante suas vidas.
Mas a repetição nunca deveria transformar o sagrado em automático.
Porque o sacramento não é simplesmente:
“pão e água passando pelos bancos”.
É uma oportunidade semanal de lembrar o Salvador, renovar convênios e buscar novamente Sua companhia.
O Élder Dallin H. Oaks ensinou que os portadores do Sacerdócio Aarônico, ao prepararem, abençoarem e distribuírem o sacramento, participam de uma ordenança que ajuda os membros a receber a companhia do Espírito.
Portanto, aquele jovem que está diante da congregação talvez esteja realizando algo muito maior do que imagina.
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O curioso é que Jesus também serviu
Existe uma imagem que considero poderosa.
Jesus Cristo, pouco antes de Sua crucificação, instituiu o sacramento entre Seus discípulos.
Ele tomou o pão.
Abençoou.
Partiu.
E ofereceu.
Depois fez o mesmo com o vinho.
Séculos depois, um adolescente entra em uma capela, ajoelha-se, recebe autorização para realizar a ordenança e ajuda a distribuir os emblemas do corpo e sangue de Cristo.
É claro que ele não está substituindo Jesus.
Mas está participando de uma ordenança instituída pelo próprio Salvador.
Um ensinamento da Igreja chegou a destacar exatamente essa ligação: quando os sacerdotes do Sacerdócio Aarônico administram o sacramento, estão participando de uma ordenança que o próprio Cristo realizou.
Isso muda completamente a maneira de olhar para aquele rapaz.
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“Mas é só um menino...”
Talvez alguém pense:
“Ele tem apenas 12 anos.”
Sim.
E talvez justamente por isso seja tão bonito.
Deus não espera que ele tenha 40 anos para aprender a servir.
Ele começa cedo.
Começa colocando cadeiras.
Ajuda a preparar a capela.
Passa o sacramento.
Ajuda alguém.
Visita uma família.
Aprende a orar.
Aprende a falar de Cristo.
Aprende que autoridade não é privilégio.
Autoridade é responsabilidade.
Essa é uma distinção fundamental.
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E o bispo? Ele também está no Sacerdócio Aarônico
Aqui aparece uma curiosidade que muita gente desconhece.
O ofício de bispo pertence ao Sacerdócio Aarônico.
Doutrina e Convênios 107 ensina sobre essa função, e a Igreja explica que o bispo é o presidente do Sacerdócio Aarônico na ala, embora também seja o sumo sacerdote presidente.
Isso cria uma imagem interessante.
Na mesma estrutura do Sacerdócio Aarônico encontramos:
o menino que começa como diácono,
o adolescente que aprende como mestre,
o jovem sacerdote,
e o bispo que preside o quórum de sacerdotes.
É quase como se a Igreja dissesse:
“Aprenda a servir antes de aprender a presidir.”
E talvez essa seja uma das grandes pedagogias espirituais do sacerdócio.
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O sacerdócio não é um crachá
Existe um perigo quando começamos a confundir ofício com identidade.
“Sou diácono.”
“Sou sacerdote.”
“Sou élder.”
“Sou bispo.”
Tudo isso pode ser verdadeiro.
Mas o sacerdócio não deveria ser usado como um crachá espiritual.
Não é:
“Eu tenho autoridade, portanto sou superior a você.”
É exatamente o contrário.
A autoridade do sacerdócio deveria produzir:
mais humildade,
mais serviço,
mais responsabilidade,
mais amor,
mais disposição para ajudar.
A própria revelação moderna ensina que o poder do sacerdócio não pode ser exercido por meio de domínio, coerção ou controle. Em Doutrina e Convênios 121, o Senhor estabelece princípios como persuasão, longanimidade, mansidão, brandura e amor não fingido.
Ou seja:
quanto mais autoridade recebemos, mais aprendemos que não podemos usar essa autoridade para esmagar ninguém.
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Uma cena muito simples pode explicar tudo
Imagine um sacerdote preparando o sacramento.
Ele está cansado.
Talvez tenha brigado com alguém em casa.
Talvez esteja preocupado com uma prova.
Talvez esteja passando por uma fase difícil.
Talvez ninguém saiba disso.
Ele entra na capela.
Ajoelha-se.
Prepara o pão.
Depois a água.
A congregação se aquieta.
Ele se levanta.
E começa:
“Ó Deus, Pai Eterno...”
Naquele momento, o garoto que talvez esteja cheio de problemas pessoais está ajudando centenas de pessoas a se voltarem para Cristo.
Isso é sacerdócio.
Não é porque ele é perfeito.
É porque está aprendendo a servir apesar de ainda estar aprendendo a viver.
E talvez essa seja uma das maiores belezas do Sacerdócio Aarônico.
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O sacerdócio é uma escola de Cristo
Quando entendemos dessa maneira, percebemos que o Sacerdócio Aarônico não é apenas uma organização para ocupar os rapazes.
É uma escola.
Uma escola onde o currículo não é feito apenas de escrituras.
É feito de experiências.
Você aprende paciência quando alguém não aparece.
Aprende responsabilidade quando esquece uma designação.
Aprende humildade quando precisa pedir desculpas.
Aprende compaixão quando percebe que alguém está sofrendo.
Aprende liderança quando precisa organizar os companheiros.
Aprende fé quando ora por alguém.
E aprende sobre Cristo quando entende que servir é mais importante do que ser visto.
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O verdadeiro teste do sacerdócio
Talvez o verdadeiro teste de um portador do sacerdócio não aconteça quando ele está vestido de camisa branca e gravata.
Talvez aconteça na segunda-feira.
Quando ninguém está olhando.
Quando ele encontra alguém precisando de ajuda.
Quando alguém o provoca.
Quando precisa escolher entre orgulho e humildade.
Quando pode usar sua força para impor ou sua autoridade para servir.
Porque sacerdócio não deveria ser uma roupa que colocamos no domingo e tiramos na segunda-feira.
O sacerdócio precisa transformar o homem que o porta.
Como ensinou a Igreja em materiais sobre o Sacerdócio Aarônico, o sacerdócio é, em muitos aspectos, um sacerdócio de aprendizado: o jovem recebe experiência, cresce em responsabilidade e aprende progressivamente a servir.
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E talvez seja por isso que João Batista voltou
Pense nisso.
Quando o céu decidiu restaurar a autoridade sacerdotal em 1829, não começou com uma cerimônia grandiosa.
Começou com dois homens.
Uma oração.
Uma aparição celestial.
E uma imposição de mãos.
João Batista trouxe novamente à Terra a autoridade que permitia realizar o batismo e participar do evangelho preparatório.
Depois, a Restauração continuou.
Mas tudo começou com serviço.
E talvez exista aqui uma mensagem para todos nós, tenhamos ou não um ofício no sacerdócio:
Deus não mede nossa grandeza pelo tamanho do cargo que ocupamos, mas pela disposição que temos de servir.
Um diácono pode ensinar isso.
Um sacerdote pode ensinar isso.
Um bispo pode ensinar isso.
E, sinceramente, qualquer discípulo de Cristo pode aprender isso.
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No final das contas...
Quando você vir um rapaz de 12 anos passando o sacramento na capela, talvez valha a pena olhar um pouco além do uniforme, da camisa branca ou da gravata.
Ali existe uma história que começou com Aarão.
Passou pelos antigos israelitas.
Foi cumprida e elevada por Jesus Cristo.
Foi perdida durante a apostasia.
E, segundo o testemunho da Restauração, voltou à Terra em 15 de maio de 1829 pelas mãos de João Batista.
E agora continua sendo ensinada de uma geração para outra.
Um rapaz aprende a servir.
Depois aprende a cuidar.
Depois aprende a realizar ordenanças.
E, enquanto aprende tudo isso, talvez esteja descobrindo uma das maiores verdades do evangelho:
o sacerdócio não foi dado para fazer alguém parecer importante.
Foi dado para ajudá-lo a se tornar mais parecido com Cristo.
E isso muda tudo.
Porque, no evangelho de Jesus Cristo, quem aprende a servir nunca está começando por baixo.
Está começando pelo próprio exemplo do Salvador.
«“E o que for o maior dentre vós será vosso servo.”
— Mateus 23:11»As referências principais usadas no artigo são as escrituras e materiais oficiais de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, especialmente Doutrina e Convênios 13, 20, 84 e 107, além dos ensinamentos do Élder Dallin H. Oaks sobre o Sacerdócio Aarônico e o sacramento.






