O HOMEM SENTADO NO BANCO DA IGREJA
Quando o silêncio também é cúmplice
Hoje eu não vim rezar.
Vim pensar.
Sentei-me no banco da igreja como quem se senta no banco dos réus. Não para julgar, mas para ser julgado pelo próprio pensamento. A notícia ainda ecoava dentro de mim: uma menina de 12 anos. Um homem de 35. Uma absolvição. Uma investigação posterior do Conselho Nacional de Justiça sobre decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E, no meio de tudo isso, algo que me inquietava ainda mais: a suspeita de que os pais teriam consentido.
Consentido.
Há palavras que pesam mais do que o chumbo.
Do ponto de vista jurídico, pouco importa qualquer autorização familiar. A legislação brasileira é clara: menor de 14 anos é considerada vulnerável. Não há consentimento possível. A lei protege exatamente porque entende que a infância não tem maturidade para escolher aquilo que pode destruí-la.
Mas eu não estava ali pensando só na lei.
Eu estava pensando nos pais.
E aqui começa a parte que dói.
É fácil apontar o dedo quando se olha de fora. É confortável erguer a bandeira da indignação quando se está protegido pela estabilidade, pela informação, pelo acesso à Justiça.
Mas e quando a casa é de madeira fina?
E quando a geladeira faz eco?
E quando o bairro tem dono?
E quando o “conhecido traficante” não é apenas um criminoso, mas o homem que manda na rua, que impõe silêncio, que resolve conflitos, que distribui favores?
Não estou justificando. Estou tentando compreender.
Em territórios dominados pelo medo, o consentimento às vezes é apenas outro nome para sobrevivência. Há famílias que vivem sob uma pedagogia da ameaça. O “sim” pode ser uma tentativa desesperada de evitar algo pior. Pode ser cálculo de risco. Pode ser submissão aprendida.
A violência estrutural não grita — ela ensina a sussurrar.
Como psicoterapeuta, já vi mecanismos parecidos em escala íntima. A negação é uma defesa poderosa. O cérebro prefere acreditar que “não é tão grave” do que admitir que falhou em proteger quem mais precisava.
Há também ciclos intergeracionais. Pais que não foram protegidos têm dificuldade em reconhecer fronteiras. Se a violência foi naturalizada na própria infância, ela deixa de soar como alarme.
Isso não absolve.
Mas explica.
E explicar não é inocentar — é compreender o terreno onde o erro germinou.
Existe ainda uma dimensão mais sutil: o poder simbólico. Em comunidades fragilizadas, figuras associadas ao crime podem ocupar o lugar paradoxal de proteção e ameaça ao mesmo tempo. São temidos e, ao mesmo tempo, vistos como provedores.
Quando o Estado é ausente, o poder paralelo ocupa o altar.
E então, o que deveria ser escândalo vira rotina. O que deveria ser denúncia vira silêncio. O que deveria ser proteção vira negociação.
A infância, nesse cenário, torna-se moeda.
E isso é devastador.
Mas há algo que me inquieta ainda mais do que o erro humano: o pacto coletivo de normalização. Quando vizinhos sabem. Quando parentes suspeitam. Quando a comunidade comenta em voz baixa. Quando todos “percebem”, mas ninguém intervém.
A omissão social é um tipo de anestesia moral.
Não é apenas uma família que falha. É uma rede inteira que se rompe.
Sentado aqui, penso que talvez a pergunta não seja apenas “onde estavam os pais?”, mas também:
Onde estava a escola?
Onde estava o posto de saúde?
Onde estava a assistência social?
Onde estava o Estado antes do processo judicial?
Porque quando a Justiça chega, muitas vezes já é tarde. Ela julga o fato consumado. Mas a proteção deveria ter começado muito antes.
A infância não deveria depender da coragem isolada de uma mãe acuada ou de um pai intimidado.
Ainda assim, não podemos diluir responsabilidades até que ninguém seja responsável por nada. Pais têm dever. Adultos têm dever. A sociedade tem dever. O Estado tem dever.
A criança não tem.
Ela tem direito.
Talvez o que mais fira seja perceber que, em alguns contextos, a vulnerabilidade não é apenas da menina de 12 anos. É também da família inteira. Vulnerabilidade econômica. Vulnerabilidade social. Vulnerabilidade moral construída pela exclusão.
Mas existe uma diferença essencial:
O adulto pode ser vulnerável.
A criança é absolutamente dependente.
E é por isso que a lei é rígida. Porque a ética precisa ser ainda mais.
Saio da igreja com uma sensação ambígua. Não consigo abraçar a simplificação. Não consigo abraçar o relativismo.
Entre o julgamento e a compreensão, escolho a responsabilidade lúcida.
Proteger crianças não é pauta ideológica. É fundamento civilizatório.
Quando a infância se torna negociável, algo profundo se rompe na alma coletiva.
E talvez o maior escândalo não seja apenas a decisão judicial ou a investigação que se seguiu.
Talvez o maior escândalo seja o silêncio que antecedeu tudo isso.
E silêncio, quando envolve criança, nunca é neutro.
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