Quando a Plateia Riu
Sentei-me no banco da igreja numa tarde qualquer, dessas em que o silêncio parece ter peso. Não havia culto, não havia cântico, não havia ninguém além de mim e de um feixe de luz atravessando o vitral azul.
Eu estava ali para descansar a alma — mas a alma não descansa quando encontra perguntas.
Mais cedo eu tinha visto um vídeo antigo. Um recorte da televisão britânica. O comediante Tommy Cooper em plena apresentação, transmitida pela ITV. Ele fazia o que sempre fez: truques que davam errado, silêncios calculados, falhas coreografadas.
Então ele caiu.
E a plateia riu.
Riu porque era isso que ele ensinara que fizessem.
Riu porque o erro fazia parte do número.
Riu porque ninguém queria ser o primeiro a suspeitar que a vida havia escapado do roteiro.
Ali, no banco da igreja, eu pensei: talvez essa seja uma das imagens mais fiéis do nosso tempo.
O riso como defesa
Como terapeuta, sei que o riso nem sempre é alegria. Às vezes é contenção. Às vezes é fuga. Às vezes é a tentativa desesperada de não encarar o abismo.
Freud falava do humor como economia psíquica. Rir pode ser uma maneira de sobreviver ao choque. Se eu rio, eu domino. Se eu transformo em piada, eu reduzo a ameaça.
Mas há um ponto em que o mecanismo de defesa se transforma em cegueira moral.
Aquela plateia não era cruel. Era condicionada. Confiava no artista. Confiava que tudo era encenação. Confiava que o palco nunca seria lugar de morte.
E eu me perguntei quantas vezes fazemos o mesmo na vida cotidiana.
Quantas quedas emocionais chamamos de drama.
Quantos gritos silenciosos interpretamos como exagero.
Quantas depressões são tratadas como falta de fé.
O altar do espetáculo
O palco é um altar moderno.
As luzes substituíram as velas.
A audiência tornou-se assembleia.
E o artista, sacerdote do entretenimento.
Tommy Cooper fez da falha sua assinatura. Seus truques fracassavam de propósito. Ele encenava o erro como genialidade. Quando seu corpo tombou, parecia apenas mais um ato perfeito.
Talvez o mais perturbador não seja que riram.
Talvez seja que ninguém percebeu imediatamente que era real.
Vivemos numa cultura que transformou tudo em conteúdo. A dor vira viral. A queda vira meme. A morte vira hashtag.
Psicologicamente, isso gera dissociação coletiva.
Teologicamente, endurecimento do coração.
E coração endurecido não discerne.
A teologia da interrupção
Enquanto eu observava o crucifixo à minha frente, pensei no contraste: ali, naquele símbolo, a dor não foi entretenimento. Foi escândalo. Foi ruptura. Foi silêncio.
O sagrado interrompe o espetáculo.
A cruz não permite risos fáceis.
Talvez o que falte ao nosso tempo seja a capacidade de interromper. De suspender a performance. De perguntar: “Isso é real? Alguém precisa de ajuda?”
Eu mesmo já ri de situações que, depois, percebi serem pedidos de socorro disfarçados. A clínica me ensinou que muitas máscaras são tentativas de sobreviver. O humor pode ser escudo. Pode ser espada. Pode ser ponte.
Mas quando a plateia só ri, sem escutar, algo se perde.
Herói ou espelho?
Dizem que ele partiu como herói, fazendo o que amava. Há uma beleza nisso. Morreu no exercício do dom.
Mas sentado ali, no banco de madeira antiga, percebi que a história não fala apenas sobre ele.
Fala sobre nós.
Sobre nossa dificuldade de distinguir encenação de sofrimento.
Sobre nossa pressa em transformar tudo em consumo.
Sobre a incapacidade de perceber quando a cena acabou e a realidade começou.
Talvez a pergunta mais honesta não seja “por que riram?”, mas:
Se alguém cair diante de mim — emocionalmente, espiritualmente, fisicamente — eu saberei reconhecer?
Ou vou supor que é teatro?
Naquela tarde, levantei-me devagar. Passei a mão sobre o banco como quem agradece a escuta silenciosa da madeira. Lá fora, o mundo seguia ruidoso, distraído, ávido por mais um vídeo, mais um riso, mais um instante viral.
Mas ali dentro, eu aprendi algo simples e inquietante:
Nem toda queda é espetáculo.
Nem todo riso é alegria.
E nem toda plateia percebe quando a vida deixa o palco.
Saí da igreja com uma oração breve, quase sussurrada:
“Que eu nunca ria quando alguém estiver morrendo por dentro.”
📍Momento da Crônica
Escrevi estas linhas sentado no banco frio da igreja vazia, com o eco distante dos meus próprios pensamentos batendo nas paredes como passos que não sabem para onde ir.
#OHomemSentadoNoBancoDaIgreja #Psicoteologia #TommyCooper #ReflexãoHumana #SociedadeDoEspetáculo #SaúdeEmocional #Espiritualidade #CrônicaContemporânea











