terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Quando o silêncio também é cúmplice



 O HOMEM SENTADO NO BANCO DA IGREJA

Quando o silêncio também é cúmplice

Hoje eu não vim rezar.

Vim pensar.

Sentei-me no banco da igreja como quem se senta no banco dos réus. Não para julgar, mas para ser julgado pelo próprio pensamento. A notícia ainda ecoava dentro de mim: uma menina de 12 anos. Um homem de 35. Uma absolvição. Uma investigação posterior do Conselho Nacional de Justiça sobre decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E, no meio de tudo isso, algo que me inquietava ainda mais: a suspeita de que os pais teriam consentido.

Consentido.

Há palavras que pesam mais do que o chumbo.

Do ponto de vista jurídico, pouco importa qualquer autorização familiar. A legislação brasileira é clara: menor de 14 anos é considerada vulnerável. Não há consentimento possível. A lei protege exatamente porque entende que a infância não tem maturidade para escolher aquilo que pode destruí-la.

Mas eu não estava ali pensando só na lei.

Eu estava pensando nos pais.

E aqui começa a parte que dói.

É fácil apontar o dedo quando se olha de fora. É confortável erguer a bandeira da indignação quando se está protegido pela estabilidade, pela informação, pelo acesso à Justiça.

Mas e quando a casa é de madeira fina?

E quando a geladeira faz eco?

E quando o bairro tem dono?

E quando o “conhecido traficante” não é apenas um criminoso, mas o homem que manda na rua, que impõe silêncio, que resolve conflitos, que distribui favores?

Não estou justificando. Estou tentando compreender.

Em territórios dominados pelo medo, o consentimento às vezes é apenas outro nome para sobrevivência. Há famílias que vivem sob uma pedagogia da ameaça. O “sim” pode ser uma tentativa desesperada de evitar algo pior. Pode ser cálculo de risco. Pode ser submissão aprendida.

A violência estrutural não grita — ela ensina a sussurrar.

Como psicoterapeuta, já vi mecanismos parecidos em escala íntima. A negação é uma defesa poderosa. O cérebro prefere acreditar que “não é tão grave” do que admitir que falhou em proteger quem mais precisava.

Há também ciclos intergeracionais. Pais que não foram protegidos têm dificuldade em reconhecer fronteiras. Se a violência foi naturalizada na própria infância, ela deixa de soar como alarme.

Isso não absolve.

Mas explica.

E explicar não é inocentar — é compreender o terreno onde o erro germinou.

Existe ainda uma dimensão mais sutil: o poder simbólico. Em comunidades fragilizadas, figuras associadas ao crime podem ocupar o lugar paradoxal de proteção e ameaça ao mesmo tempo. São temidos e, ao mesmo tempo, vistos como provedores.

Quando o Estado é ausente, o poder paralelo ocupa o altar.

E então, o que deveria ser escândalo vira rotina. O que deveria ser denúncia vira silêncio. O que deveria ser proteção vira negociação.

A infância, nesse cenário, torna-se moeda.

E isso é devastador.

Mas há algo que me inquieta ainda mais do que o erro humano: o pacto coletivo de normalização. Quando vizinhos sabem. Quando parentes suspeitam. Quando a comunidade comenta em voz baixa. Quando todos “percebem”, mas ninguém intervém.

A omissão social é um tipo de anestesia moral.

Não é apenas uma família que falha. É uma rede inteira que se rompe.

Sentado aqui, penso que talvez a pergunta não seja apenas “onde estavam os pais?”, mas também:

Onde estava a escola?

Onde estava o posto de saúde?

Onde estava a assistência social?

Onde estava o Estado antes do processo judicial?

Porque quando a Justiça chega, muitas vezes já é tarde. Ela julga o fato consumado. Mas a proteção deveria ter começado muito antes.

A infância não deveria depender da coragem isolada de uma mãe acuada ou de um pai intimidado.

Ainda assim, não podemos diluir responsabilidades até que ninguém seja responsável por nada. Pais têm dever. Adultos têm dever. A sociedade tem dever. O Estado tem dever.

A criança não tem.

Ela tem direito.

Talvez o que mais fira seja perceber que, em alguns contextos, a vulnerabilidade não é apenas da menina de 12 anos. É também da família inteira. Vulnerabilidade econômica. Vulnerabilidade social. Vulnerabilidade moral construída pela exclusão.

Mas existe uma diferença essencial:

O adulto pode ser vulnerável.

A criança é absolutamente dependente.

E é por isso que a lei é rígida. Porque a ética precisa ser ainda mais.

Saio da igreja com uma sensação ambígua. Não consigo abraçar a simplificação. Não consigo abraçar o relativismo.

Entre o julgamento e a compreensão, escolho a responsabilidade lúcida.

Proteger crianças não é pauta ideológica. É fundamento civilizatório.

Quando a infância se torna negociável, algo profundo se rompe na alma coletiva.

E talvez o maior escândalo não seja apenas a decisão judicial ou a investigação que se seguiu.

Talvez o maior escândalo seja o silêncio que antecedeu tudo isso.

E silêncio, quando envolve criança, nunca é neutro.

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Um caso muito estranho em Minas Gerais

 


O caso ocorrido em Minas Gerais, envolvendo a absolvição de um homem de 35 anos acusado de manter relação com uma menina de 12 anos, reacendeu um debate profundo no cenário jurídico e social brasileiro. Após a repercussão, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou a abertura de investigação para apurar a atuação do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ/MG) no julgamento do caso.

No ordenamento jurídico brasileiro, o crime de estupro de vulnerável está previsto no artigo 217-A do Código Penal e estabelece que qualquer ato de natureza sexual com menor de 14 anos configura crime, independentemente de consentimento. A lei parte do princípio da proteção integral da criança e do adolescente, reconhecendo que menores de 14 anos não possuem maturidade jurídica para consentir.

Quando uma decisão judicial absolve em um contexto como esse, a sociedade reage porque não se trata apenas de um processo individual, mas de um símbolo coletivo: a forma como o Estado protege — ou falha em proteger — suas crianças. A investigação aberta pelo CNJ não significa condenação automática de magistrados, mas representa um mecanismo institucional de controle e fiscalização, essencial em um Estado Democrático de Direito.

Do ponto de vista psicológico e social, casos assim provocam indignação porque tocam em camadas profundas da ética coletiva. A infância é, cultural e juridicamente, um território de cuidado. Quando há percepção de relativização dessa proteção, instala-se um sentimento de insegurança social.

É importante, contudo, distinguir alguns pontos:

A investigação do CNJ visa avaliar a correção técnica e disciplinar da decisão.

O processo judicial pode envolver questões probatórias complexas.

A proteção da vítima deve permanecer prioridade, inclusive evitando exposição indevida.

O debate que emerge desse episódio ultrapassa o caso concreto. Ele convoca a reflexão sobre:

A interpretação da lei nos tribunais.

A responsabilidade institucional do Judiciário.

A proteção efetiva de crianças e adolescentes.

O impacto social das decisões judiciais.

Independentemente do desfecho da investigação, o episódio reforça a necessidade de constante vigilância institucional, formação qualificada de magistrados e compromisso inegociável com os direitos da infância.

Pare de dizer “Se precisar de alguma coisa, é só falar”! Exceto em uma ocasião…



Pare de dizer “Se precisar de alguma coisa, é só falar”! Exceto em uma ocasião…

Para refletir

Há alguns anos, durante uma conferência geral muitas pessoas acharam engraçado quando o élder Dieter F. Uchdorf descreveu o amor duradouro e constante de Deus e disse que “não é um amor do tipo ‘se precisar de alguma coisa, é só falar’”.


Nós rimos porque reconhecemos essa velha frase que nunca resulta em serviço. Ouvimos essa frase quando “estamos atolados na lama” e não há ninguém para nos ajudar.


Nós dizemos essa mesma frase quando nos preocupamos com as dificuldades de outra pessoa, mas não nos esforçamos para descobrir como podemos realmente ajudar. E as pessoas com dificuldade pedem ajuda? Não. Elas não pedem.


Todos nós sabemos que para uma frase tão geral (o que na verdade é uma tarefa para uma pessoa que já está com um problema, e agora precisa pensar em como podemos ajudar) é muito difícil de obter alguma resposta.


A maioria das pessoas evita pedir ajuda e a melhor maneira de realmente confortar e apoiá-las é dizer: “Busco a Ana na escola a semana toda – posso buscar seus filhos também”.


Ou “estou fazendo duas lasanhas – vou levar uma às 18h para você”. Ou “posso fazer suas compras para você. Eu vou lá, de qualquer maneira, então risque isso de sua lista”.



Sim, esperar que a pessoa fale se há algo que podemos fazer é basicamente inútil. Eu estava pensando sobre isso pouco antes de orar e percebi que há uma exceção, um único lugar, onde essa é uma ótima frase para se usar.


É quando falamos com nosso Pai Celestial. Este é o único momento em que podemos realmente obter uma resposta para essa pergunta.


Provavelmente a melhor maneira é dizer: “O que me falta ainda?” ou “O que estou fazendo de errado?”


Outra maneira de dizermos a mesma coisa é como o Presidente Russell M. Nelson fez quando nos disse: “Orem para saber o que devem parar de fazer e o que devem começar a fazer”.


E, é claro, devemos estar prontos e dispostos a aceitar a correção de nosso amoroso Pai Celestial. Precisamos reconhecer que nenhum de nós é perfeito. Todos nós precisamos melhorar.


Porém, quando pedimos a Deus, obtemos uma resposta amorosa. E Ele destacará os aspectos em que realmente precisamos trabalhar mais e que teremos sucesso, ou Deus não nos pediria.


Agora, é claro que você pode perguntar a um cônjuge ou amigo no que você precisa melhorar, mas você receberá uma lista!


Então, eu não recomendo isso. Além disso, essa pessoa não conhece o seu coração como Deus e pode não receber inspiração em seu nome. O melhor apoio é aquele que Deus nos oferece.


se precisar de algo

Deus sabe exatamente de quais características você precisa agora, para que possa estar preparado para as provações que você enfrentará.


Ele sabe com que sinceridade você trabalhará nisso. Ele conhece suas capacidades. Ele sabe exatamente quantas dificuldades e desafios você pode enfrentar.


E, o melhor de tudo, Ele lhe dirá de uma forma que você não se sentirá rejeitado, mas animado e amado, mesmo quando Suas orientações forem difíceis de aceitar.


Temos fé em Deus, mas você já parou para pensar que Ele tem fé em você? Ele sabe que você pode crescer e melhorar muito além de onde está hoje. Ele também sabe como conduzir você para que tenha sucesso e não desanime.


Ele pode responder com apenas uma palavra. Quando alguém querido para mim fez essa pergunta a Deus, a resposta foi “mansidão”. E isto é algo que todos nós precisamos mais, não é?


E quando Deus fala conosco, nós ouvimos. Não argumentamos ou ficamos na defensiva, como fazemos com um membro de nossa família. Em vez disso, reconhecemos nossa fraqueza e fazemos um plano – com a ajuda de Deus – para vencê-la.


Às vezes, estudamos as coisas em nossa mente e depois apresentamos um plano a nosso Pai Celestial. Isso é o que o irmão de Jarede fez no Livro de Mórmon, e temos sido diversas vezes aconselhados pelos nossos líderes a fazer o mesmo.


se precisar de algo

Contudo, ocasionalmente, apesar de nossos melhores esforços, às vezes sabemos que acabamos esquecendo de algo.


Ou não pensamos fora da caixa o suficiente – existe outro plano de ação que seria ainda melhor do que o que imaginamos?


Ou será que nosso orgulho, nossa teimosia, nossa incapacidade de aceitar qualquer resultado que não seja o que esperamos está nos impedindo de considerar o único caminho correto?


Isso já aconteceu comigo mais vezes do que posso contar. Já orei por todos os tipos de coisas ao Pai Celestial, geralmente por meus filhos adultos.


Deus nunca agiu de acordo com minhas sugestões. Então pensei: “por que você está dando ideias a Deus? Como se Ele não pudesse ter Suas próprias ideias? E ainda melhores?”


Sim, precisamos orar a Ele pelos nossos desejos justos, mas não precisamos dar a Ele uma lista de coisas a fazer!


Às vezes, nossa quantidade de pânico é tão grande que caímos na ansiedade e no desespero. Esses são os momentos em que, se fizermos a pergunta certa, ouviremos o que ouvi uma vez: “tenha fé”.


Em uma outra ocasião, quando minha natureza impaciente veio à tona, ouvi: “dê um passo de cada vez”.


se precisar de algo

Em ambos os casos, senti em meu coração que estava ouvindo uma verdade, envolta em amor e na crença de que eu poderia lidar com aquelas situações. Aquelas palavras devolveram a calma e a paz à minha alma, me enchendo de esperança e otimismo.


Nem sempre ouvimos palavras, às vezes é um pensamento ou uma impressão. Mas todos podem receber respostas.


Às vezes, em vez de orar para que a provação desapareça, Deus deseja que oremos por sua ajuda para superar aquela dificuldade. Isso pode envolver o desenvolvimento de atributos mais semelhantes aos de Cristo, confiar na ajuda de Deus e pensar nos outros antes de nós.


Uma coisa é certa, se pedirmos a Deus que nos diga se há algo que possamos fazer, sempre receberemos uma resposta. Todos nós estamos em processo de desenvolvimento.


Você não está curioso para saber o que Ele vai te dizer? E seja o que for, Ele estará bem ao seu lado enquanto você age de acordo com Seu conselho absolutamente perfeito.


Você concorda que  nuitas vezes a pessoa fala isso sem querer comprometimento. Isso me irrita completamente mesmo partindo de um ministrador ou autoridade da igreja porque não é ele quem vai ajudar e sim recorrer à igreja para fazê-lo.


Fonte: Meridian Magazine

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A mulher que impediu o fim da linhagem de Davi

 


Quando o trono ficou vazio, o medo tomou conta do palácio. Em 2 Reis 11, Atalia vê o filho morrer e decide que ninguém mais governará além dela. Para garantir isso, manda matar toda a descendência real. Não era apenas uma disputa de poder. Era uma tentativa de apagar a promessa que Deus havia feito a Davi de que sua linhagem permaneceria. Crianças foram exterminadas. Herdeiros foram caçados. A casa real estava sendo destruída diante dos olhos da nação. E, humanamente falando, parecia o fim. Mas no meio do massacre havia um bebê. Joás. E enquanto o sangue corria nos corredores do palácio, uma mulher se move em silêncio. 

Jeoseba não tinha trono, não tinha exército, não tinha autoridade pública. Ela tinha discernimento. Ela sabia que não estava apenas protegendo uma criança, estava preservando uma promessa. Ela entra, pega o menino entre os filhos do rei que estavam sendo mortos, tira-o dali às escondidas e o leva para o templo do Senhor. Seis anos ele ficou oculto. Seis anos enquanto Atalia se sentava no trono achando que tinha vencido. Seis anos sustentando um segredo que carregava o futuro. A usurpadora governava, mas não controlava o plano de Deus. 

No tempo certo, o menino foi revelado, coroado rei, e a linhagem continuou. Séculos depois, dessa mesma linhagem viria o Messias. Jeoseba não escreveu livros, não foi celebrada em praça pública, mas impediu o fim. Porque às vezes Deus não usa quem aparece, usa quem preserva. Enquanto alguns lutam por poder, outros lutam por promessa. E são esses que mantêm a história viva.

O que aconteceu na tenda de Noé?

VELHO TESTAMENTO COMENTADO



O que aconteceu na tenda de Noé?


Após o fim do dilúvio, lemos o seguinte relato: "E começou Noé a ser lavrador da terra, e plantou uma vinha; e bebeu do vinho, e embebedou-se; e descobriu-se no meio de sua tenda. E viu Cão, o pai de Canaã, a nudez do seu pai, e fê-lo saber, fora, a ambos seus irmãos. Então tomaram Sem e Jafé uma capa, e puseram-na sobre ambos os seus ombros, e indo virados para trás, cobriram a nudez do seu pai, e os seus rostos estavam virados, de maneira que não viram a nudez do seu pai. E despertou Noé do seu vinho e soube o que seu filho menor lhe fizera. E disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos" (Gênesis 9:20-25). O acontecimento registrado nesses versículos tem intrigado estudiosos da Bíblia. Embora o relato em Gênesis não seja muito claro, considerar o ocorrido à luz do simbolismo do templo revela perspectivas surpreendentes.


A "tenda de Noé", citada em Gênesis 9:21, talvez não fosse apenas um abrigo comum, mas um local de profundo simbolismo sagrado, comparável ao Tabernáculo e a outros templos do antigo Israel. Segundo Bradshaw, algumas tradições judaicas, como o 𝘡𝘰𝘩𝘢𝘳, consideram que tal tenda seria a "Tenda da Shekhinah" — a presença divina de Jeová. É possível traçar um paralelo entre a tenda de Noé, localizada ao pé do monte onde a arca repousou, e a "tenda da congregação" ao pé do Monte Sinai, na época de Moisés.¹


O relato da embriaguez de Noé pode ser compreendido sob a premissa de que profetas não são infalíveis. Contudo, de acordo com uma declaração atribuída a Joseph Smith, Noé “não estava bêbado, mas em uma visão”.² Nesse contexto, Noé prefigura o sumo sacerdote da dispensação mosaica, sendo aquele que pode colocar-se diante da presença do Senhor; a tenda sobre o cume do monte serviria, então, como um "Santo dos Santos". O vinho pode ser visto num contexto ritual ou sacramental, similar ao que Melquisedeque faria mais tarde com Abraão (ver Gênesis 14:18-19). A tradição judaica diz que uma jarra de vinho permanecia ao lado dos doze pães sobre a Mesa da Proposição do tabernáculo.³


Mas se uma teofania estava ocorrendo dentro da tenda, o que explicaria o fato de Noé estar “descoberto”? Bradshaw sugere que o profeta pode ter retirado suas vestes externas para estar na presença divina. Algo parecido é visto em João 21:7 ao afirmar que Pedro “estava nu” enquanto pescava. Ele provavelmente usava apenas uma roupa interior.⁴ Hugh Nibley argumentou que o termo hebraico 𝘦𝘳𝘸𝘢𝘵, traduzido como “nudez” em Gênesis 9:22, seria melhor compreendido como “peles”.⁵ O 𝘔𝘪𝘥𝘳𝘢𝘴𝘩 𝘙𝘢𝘣𝘣𝘢𝘩 afirma que a túnica de pele de animal que Adão recebeu do Senhor após a Queda foi transmitida a Noé, que a utilizava ao oferecer sacrifícios.⁶


Sob esta ótica, o erro de Cão foi ultrapassar sem autorização o "véu" (as cortinas da tenda) para observar Noé enquanto este estava num estado de revelação na presença de Deus. O resultado da atitude de Cão serve como lembrete sobre a importância da preparação para ser admitido na presença do Senhor.


Texto por Gustavo M. Rodrigues


 Notas:


1. Jeffrey M. Bradshaw (2021) "The Ark and the Tent: Temple Symbolism in the Story of Noah," Interpreter: A Journal of Latter-day Saint Faith and Scholarship: Vol. 44, Article 5. Acessado em scholarsarchive.byu.edu/interpreter/vol44/iss1/5.


2. Joseph Smith, Jr., conforme relatado por William Allen to Charles Lowell Walker (C. L. Walker, Diário, 12 de maio de 1881, 2:554).

 

3. Daniel Smith, “The Tabernacle and the Messiah”, 2018, acessado em redeemerofisrael.org/2018/04/the-tabernacle-and-messiah.html.


4. Harold W. Attridge e outros editores, The HarperCollins Study Bible: New Revised Standard Version, Including the Apocryphal/Deuterocanonical Books, 2006, p. 1853, nota para João 21:7.


5. Hugh W. Nibley, “A Twilight World”, em Lehi in the Desert, The World of the Jaredites, There Were Jaredites, editado por John W. Welch, Darrell L. Matthews e Stephen R. Callister. The Collected Works of Hugh Nibley 5, p. 169-170. Salt Lake City, UT: Deseret Book, 1988.


6. H. Freedman et al., Midrash, 4:8 (Numbers 3:45), p. 101-102.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Quando a Plateia Riu - Crônica de O Homem Sentado no Banco da Igreja





 Quando a Plateia Riu

Sentei-me no banco da igreja numa tarde qualquer, dessas em que o silêncio parece ter peso. Não havia culto, não havia cântico, não havia ninguém além de mim e de um feixe de luz atravessando o vitral azul.

Eu estava ali para descansar a alma — mas a alma não descansa quando encontra perguntas.

Mais cedo eu tinha visto um vídeo antigo. Um recorte da televisão britânica. O comediante Tommy Cooper em plena apresentação, transmitida pela ITV. Ele fazia o que sempre fez: truques que davam errado, silêncios calculados, falhas coreografadas.

Então ele caiu.

E a plateia riu.

Riu porque era isso que ele ensinara que fizessem.

Riu porque o erro fazia parte do número.

Riu porque ninguém queria ser o primeiro a suspeitar que a vida havia escapado do roteiro.

Ali, no banco da igreja, eu pensei: talvez essa seja uma das imagens mais fiéis do nosso tempo.

O riso como defesa

Como terapeuta, sei que o riso nem sempre é alegria. Às vezes é contenção. Às vezes é fuga. Às vezes é a tentativa desesperada de não encarar o abismo.

Freud falava do humor como economia psíquica. Rir pode ser uma maneira de sobreviver ao choque. Se eu rio, eu domino. Se eu transformo em piada, eu reduzo a ameaça.

Mas há um ponto em que o mecanismo de defesa se transforma em cegueira moral.

Aquela plateia não era cruel. Era condicionada. Confiava no artista. Confiava que tudo era encenação. Confiava que o palco nunca seria lugar de morte.

E eu me perguntei quantas vezes fazemos o mesmo na vida cotidiana.

Quantas quedas emocionais chamamos de drama.

Quantos gritos silenciosos interpretamos como exagero.

Quantas depressões são tratadas como falta de fé.

O altar do espetáculo

O palco é um altar moderno.

As luzes substituíram as velas.

A audiência tornou-se assembleia.

E o artista, sacerdote do entretenimento.

Tommy Cooper fez da falha sua assinatura. Seus truques fracassavam de propósito. Ele encenava o erro como genialidade. Quando seu corpo tombou, parecia apenas mais um ato perfeito.

Talvez o mais perturbador não seja que riram.

Talvez seja que ninguém percebeu imediatamente que era real.

Vivemos numa cultura que transformou tudo em conteúdo. A dor vira viral. A queda vira meme. A morte vira hashtag.

Psicologicamente, isso gera dissociação coletiva.

Teologicamente, endurecimento do coração.

E coração endurecido não discerne.

A teologia da interrupção

Enquanto eu observava o crucifixo à minha frente, pensei no contraste: ali, naquele símbolo, a dor não foi entretenimento. Foi escândalo. Foi ruptura. Foi silêncio.

O sagrado interrompe o espetáculo.

A cruz não permite risos fáceis.

Talvez o que falte ao nosso tempo seja a capacidade de interromper. De suspender a performance. De perguntar: “Isso é real? Alguém precisa de ajuda?”

Eu mesmo já ri de situações que, depois, percebi serem pedidos de socorro disfarçados. A clínica me ensinou que muitas máscaras são tentativas de sobreviver. O humor pode ser escudo. Pode ser espada. Pode ser ponte.

Mas quando a plateia só ri, sem escutar, algo se perde.

Herói ou espelho?

Dizem que ele partiu como herói, fazendo o que amava. Há uma beleza nisso. Morreu no exercício do dom.

Mas sentado ali, no banco de madeira antiga, percebi que a história não fala apenas sobre ele.

Fala sobre nós.

Sobre nossa dificuldade de distinguir encenação de sofrimento.

Sobre nossa pressa em transformar tudo em consumo.

Sobre a incapacidade de perceber quando a cena acabou e a realidade começou.

Talvez a pergunta mais honesta não seja “por que riram?”, mas:

Se alguém cair diante de mim — emocionalmente, espiritualmente, fisicamente — eu saberei reconhecer?

Ou vou supor que é teatro?

Naquela tarde, levantei-me devagar. Passei a mão sobre o banco como quem agradece a escuta silenciosa da madeira. Lá fora, o mundo seguia ruidoso, distraído, ávido por mais um vídeo, mais um riso, mais um instante viral.

Mas ali dentro, eu aprendi algo simples e inquietante:

Nem toda queda é espetáculo.

Nem todo riso é alegria.

E nem toda plateia percebe quando a vida deixa o palco.

Saí da igreja com uma oração breve, quase sussurrada:

“Que eu nunca ria quando alguém estiver morrendo por dentro.”

📍Momento da Crônica

Escrevi estas linhas sentado no banco frio da igreja vazia, com o eco distante dos meus próprios pensamentos batendo nas paredes como passos que não sabem para onde ir.

#OHomemSentadoNoBancoDaIgreja #Psicoteologia #TommyCooper #ReflexãoHumana #SociedadeDoEspetáculo #SaúdeEmocional #Espiritualidade #CrônicaContemporânea

O Homem que Saiu de Montecchio Maggiore - L’Òmo che l’è Partìo da Montecchio Magiore

 

Eis uma crônica e uma carta imaginária de como meu bisavô se despediu de Montecchio Maggiore — escritas primeiro na língua que hoje me habita, e depois no dialeto que um dia habitou a alma dele.

(Montecchio Maggiore – Vicenza – Veneto – Itália)

O Homem que Saiu de Montecchio Maggiore

Meu bisavô saiu de Montecchio Maggiore.

Não saiu apenas de uma cidade. Saiu de colinas verdes, de vinhedos silenciosos, de um céu europeu que parecia definitivo. Saiu do sino da igreja que marcava as horas e do horizonte onde se erguem os antigos castelos que a tradição associa a Romeu e Julieta. Saiu de um lugar onde a história era feita de pedra — e decidiu apostar a própria vida na terra.

Imagino-o jovem. Talvez com as mãos já calejadas. Talvez com medo. Talvez sem saber explicar por que partir era menos doloroso do que ficar. A Itália que ele deixou enfrentava pobreza, promessas quebradas, campos que já não sustentavam todos os filhos. Então ele fez o gesto mais radical que um homem simples pode fazer: atravessou o oceano.

Não trouxe ouro. Trouxe sotaque. Trouxe fé. Trouxe o hábito de trabalhar em silêncio. Trouxe o jeito de sentar à mesa como quem celebra o pouco. Trouxe palavras em dialeto vêneto que, misturadas ao português, virariam herança invisível.

Quando penso nele, não penso apenas em um imigrante. Penso em um fundador. Um homem que trocou muralhas medievais por plantações brasileiras. Que deixou para trás os castelos de pedra e ajudou a erguer, com as próprias mãos, um castelo de carne e osso: sua descendência.

Eu sou parte dessa travessia.

Meu nome carrega o eco de um navio.

Minha história carrega o sal do Atlântico.

Há algo profundamente simbólico nisso tudo: de uma cidade marcada por torres antigas saiu um homem comum que decidiu construir futuro onde não havia nada garantido. Ele não sabia que estava fazendo história. Ele só queria sobreviver. Mas, ao sobreviver, plantou identidade.

Esta homenagem não é apenas memória. É gratidão.

Porque se ele não tivesse partido de Montecchio Maggiore, eu não estaria aqui escrevendo.

E toda vez que olho para minha própria história — com suas cicatrizes, seus desafios, suas reconstruções — percebo que talvez eu também carregue essa herança: a capacidade de atravessar mares internos e continuar.

Meu bisavô saiu de Montecchio Maggiore.

E em mim, ele ainda chega.

Carta antes do embarque

Montecchio Maggiore,

na véspera da partida.

À minha terra,

Escrevo olhando as colinas que me ensinaram a ser quem sou. O vento passa pelos vinhedos como sempre passou, indiferente ao fato de que amanhã não estarei mais aqui para senti-lo. As pedras das ruas guardam meus passos de menino, e o sino da igreja ainda marca as horas como se o tempo não soubesse que estou prestes a rompê-lo.

Não parto por falta de amor.

Parto justamente porque amo.

A terra que me criou já não sustenta todos os seus filhos. Os campos são pequenos, o trabalho é duro e o pão, às vezes, insuficiente. Meu coração se divide: metade quer ficar e envelhecer sob o mesmo céu; a outra metade sabe que, se eu ficar, meus sonhos murcharão como vinha sem água.

Dizem que do outro lado do oceano há um país chamado Brasil. Dizem que lá a terra é vasta e vermelha, que o café cresce forte, que há espaço para plantar futuro. Não sei se é verdade. Mas sei que preciso acreditar.

Levarei comigo o cheiro da uva esmagada, o gosto da polenta fumegante, o som do dialeto falado na mesa. Levarei o nome da família, a fé ensinada por minha mãe e o silêncio firme de meu pai. Levarei Montecchio dentro do peito, mesmo quando meus pés pisarem outra terra.

Não sei o que me espera. Talvez dificuldades, talvez saudade demais. Mas também levo esperança — essa semente invisível que só cresce quando alguém tem coragem de plantá-la longe de casa.

Se um dia meus filhos perguntarem de onde vieram, direi com orgulho: viemos de colinas antigas, de castelos que vigiam a cidade, de um povo que não se rende à miséria. Direi que deixei minha terra não para esquecê-la, mas para honrá-la.

Parto com lágrimas nos olhos e fé no coração.

Que Deus proteja meus passos sobre o mar.

Que esta despedida seja também começo.

Com amor eterno,

um filho de Montecchio.

...

E assim, entre duas línguas e dois continentes, a despedida já não é apenas memória — é herança viva.

O que um dia foi silêncio sob o céu de Montecchio Maggiore, hoje é palavra escrita.

O que era partida tornou-se raiz.

Do Vêneto ao Brasil, o oceano não nos separa — ele nos costura.

E nós somos gente de coração e alma aberta.

Nosso intimismo não é ficar escondido — é partilhar.

Enquanto houver alguém que conte esta história, meu bisavô continuará atravessando o mar…

mas desta vez, rumo a casa.

 Ecco na cronaca e na letara imaginaria de come el me bisnono el se ga despedìo da Montecchio Maggiore — scrite prima nela lengua che ancöi la me abita, e dopo nel dialeto che un dì l’abitava l’anima soa.

(Montecchio Maggiore – Vicenza – Veneto – Italia)

L’Òmo che l’è Partìo da Montecchio Magiore

El me bisnono l’è partìo da Montecchio Magiore.

No l’è partìo solo da na cità.

L’è partìo da coline verdi, da vigne silensiose, da un cel che pareva eterno.

L’è partìo dal sonar dele campane che segnava le ore, e da quel orizonte dove se vede i castèi antighi che conta storie d’amor.

Me lo imagino zóvene.

Co le man za dure dal lavor.

Forse co paura.

Forse sensa saver spiegare perché partir el fasse manco mal che restar.

La tera no bastava più par tuti i so fioi. I campi i era streti, el pan pocheto, el futuro incerto. E cussì el ga fato el gesto pì grande che un òmo semplice pol far: traversar l’oceano.

No l’ha portà oro.

L’ha portà el so parlar, la fede, el modo de star a tola, el silensio de chi lavora sensa lamenti.

Parole in dialeto che, mesedà co el portoghese, le xe diventà memoria.

Mi son parte de quella traversada.

El me nome el sa de mar.

La me storia la ga sal.

Da na cità de piera antiga l’è nassù un futuro in tera rossa.

El no saveva de far storia.

El voleva solo viver.

Ma vivendo, el ga fondà na radise.

El me bisnono l’è partìo da Montecchio Magiore.

E dentro de mi, el rivà ancora.

Letara prima de imbarcarse

Montecchio Magiore,

la sera prima de partir.

A la me tera,

Te scrivo vardando le to coline par l’ultima volta. El vento el passa tra le vigne come sempre, come se gnente stesse cambiando. Le piere dele strade le conosse i me passi de puteo, e le campane le sona come se el tempo no sapesse che doman mi no sarò più qua.

No parto par mancanza d’amor.

Parto proprio perché amo.

La tera che me ga cresesto no pol più tegnir tuti i so fioi. I campi xe pìcoli, el lavor duro, el pan no basta sempre. El me cuor el se spaca in do: na parte la vol restar soto sto cel; l’altra la sa che restando i sogni i se seca.

Dixe che oltre el mar ghe xe un paese ciamà Brasile. Dixe che la tera là xe granda e rossa, che ghe xe posto par plantar futuro. No so se xe tuto vero. Ma go bisogno de crederghe.

Porterò con mi el profumo de l’uva, el savor de la polenta calda, el parlar de casa. Porterò el nome de la fameja, la fede de me mare, la dignità de me pare. Porterò Montecchio nel peto.

Forse vegnirà nostalgia. Forse vegnirà fadiga.

Ma vegnirà anca speranza — e la speranza xe na semente che cresse solo se qualchedun ga corajo de seminarla lontan da casa.

Se un dì i me fioi i domandarà da dove che semo, dirò con orgoglio: semo fioi de coline antighe e de zente che no se rassegna.

Parto co lagrime nei oci e fede nel cuor.

Che Dio me acompagni sora el mar.

Che sto addio el sia anca un principio.

Con amor eterno,

un fiol de Montecchio.

....

E cussì, tra do lengue e do continenti, l’addio no l’è più solo memoria — l’è eredità viva.

Quel che un dì l’era silensio soto el cel de Montecchio Maggiore, ancöi l’è parola scrita.

Quel che l’era partenza, l’è diventà radise.

Dal Veneto al Brasile, l’oceano no ne separa — el ne cusisse.

E nu semo zente de cuor e de anima verta.

El nostro intimismo no l’è star sconti — l’è spartir.

Fin che ghe sarà qualchedun che conta sta storia, el me bisnono el continuerà a traversar el mar…

ma stavolta, verso casa.

... Por Abilio Machado 🎅