🌹 A Jornada do Eremita 🌹
Segunda parte...
O silêncio do discípulo
A noite transcorreu em um profundo silêncio.
Após a longa viagem, o Eremita descansou em um quarto simples situado ao lado do grande templo. Não sabia o que o esperava ao amanhecer, mas uma paz desconhecida começava a se instalar lentamente em seu coração.
Com os primeiros raios de sol, o Ancião Guardião chegou até sua porta.
— Venha — disse-lhe com serenidade.
Caminharam por longos corredores de pedra até pararem diante de uma pequena porta de madeira. O Guardião a abriu lentamente e ambos entraram em um recinto completamente vazio.
Não havia móveis.
Não havia janelas.
Não havia adornos.
Apenas o silêncio.
O Ancião permaneceu alguns instantes observando-o.
Depois falou:
— Você se encontra no limiar do caminho que algum dia o conduzirá ao Templo, onde receberá ensinamentos que não podem ser expressos apenas com palavras. Mas, antes de aspirar a conhecer os grandes mistérios da existência, deve preparar-se para compreendê-los.
Aproximou-se alguns passos.
— O primeiro aprendizado consiste em esvaziar-se.
Ninguém pode encher um recipiente que já se crê cheio.
Você deve desprender-se de seus preconceitos, das ideias que limitam sua compreensão e, sobretudo, da necessidade constante do ego de querer dominar, julgar e controlar todas as coisas.
O Eremita escutava atentamente.
Depois perguntou:
— Devo lutar contra meu ego para vencê-lo?
O Guardião sorriu com bondade.
— Não.
Aquilo contra o que você luta termina se fortalecendo.
O ego não precisa ser destruído.
Precisa ser educado.
Deve converter-se em um servidor da Luz e não em seu dono.
O jovem permaneceu pensativo.
— E como posso começar esse trabalho?
O Ancião respondeu com uma única frase:
— Aprenda a guardar silêncio.
Não somente com os lábios.
Também com a mente.
Quando o ruído de seus pensamentos diminuir, começará a escutar aquilo que sempre permaneceu dentro de você.
Sem acrescentar mais uma palavra, saiu do quarto e fechou lentamente a porta.
Então começou a verdadeira prova.
A princípio, o Eremita acreditou que aquele quarto estava completamente silencioso.
Mas, pouco a pouco, começou a escutar sua própria respiração.
Depois, as batidas de seu coração.
Mais tarde, descobriu um ruído muito mais intenso.
O incessante murmúrio de sua própria mente.
Pensamentos.
Lembranças.
Temores.
Desejos.
Preocupações.
Tudo aparecia sem descanso.
Jamais havia imaginado quanto ruído podia existir dentro de uma pessoa.
O medo começou a apoderar-se dele.
Quis levantar-se.
Quis bater na porta.
Quis pedir ao Guardião que o tirasse dali.
Mas compreendeu que ninguém podia percorrer aquele trecho do caminho em seu lugar.
Os dias passaram lentamente.
O Guardião apenas abria a porta para deixar-lhe alimento e água.
Nunca pronunciava uma palavra.
O resto do tempo, o Eremita permanecia sozinho... consigo mesmo.
Até que aconteceu algo inesperado.
Deixou de lutar.
Deixou de fugir.
Deixou de resistir.
Simplesmente aceitou o silêncio.
E foi então que o silêncio começou a falar.
Uma paz desconhecida desceu sobre ele.
Os pensamentos começaram a se espaçar como nuvens que o vento afasta lentamente do céu.
Naquela imensa quietude, escutou, pela primeira vez, uma voz.
Era suave.
Serena.
Mais que uma voz, parecia uma presença.
Não provinha do exterior.
Nascia do mais profundo de seu próprio ser.
Com assombro, perguntou:
— Quem é você?
Após alguns instantes, a voz respondeu docemente:
— Sou a parte de você que nunca deixou de caminhar ao seu lado.
Permaneço em silêncio esperando o dia em que você aprendesse a escutar.
Conheço suas alegrias e suas tristezas.
Suas quedas e suas vitórias.
Contemplei cada um de seus passos desde o princípio de sua viagem.
O Eremita sentiu que as lágrimas desciam por seu rosto.
Toda a sua vida havia buscado respostas no mundo exterior...
Sem imaginar que a primeira delas habitava dentro de si mesmo.
A voz continuou:
— Você anseia conhecer os grandes mistérios da vida.
E chegará a compreendê-los.
Mas, antes, deverá cultivar seu próprio jardim.
Somente quem aprende a cuidar do terreno de sua alma pode receber as sementes da verdadeira sabedoria.
Nesse mesmo instante, um delicado raio de luz desceu do alto e iluminou o recinto.
A porta se abriu lentamente.
O Ancião Guardião esperava em silêncio.
Ao vê-lo, sorriu.
Não precisou fazer nenhuma pergunta.
Sabia que o primeiro mestre do Eremita acabava de se revelar.
E que a verdadeira viagem mal começava.
Continua...
Paz Profunda. 🌹
L.C.R.C.






