Hermann Göring já estava preso em Nuremberg e aguardava seu julgamento quando fez uma das declarações mais perturbadoras do pós-guerra. Não foi diante dos juízes nem das câmeras, mas durante uma conversa privada, em 18 de abril de 1946, com o psicólogo americano Gustave M. Gilbert. O diálogo seria publicado mais tarde no livro Nuremberg Diary, de 1947.
Longe da formalidade do tribunal, Göring descreveu, com frieza, como acreditava que governos conseguiam levar povos inteiros à guerra.
Segundo ele, as pessoas comuns raramente desejam um conflito. O que muda esse cenário, afirmou, é a capacidade dos líderes de convencê-las de que existe uma ameaça da qual precisam se defender. Basta despertar o medo, dizer que o país está sob ataque e acusar aqueles que defendem a paz de falta de patriotismo ou de traição.
Gilbert contestou esse raciocínio. Argumentou que, em uma democracia, a população possui voz por meio de seus representantes e pode influenciar as decisões do governo.
Göring respondeu que, para ele, isso fazia pouca diferença.
Na sua visão, qualquer sistema político poderia ser conduzido ao mesmo resultado se o medo fosse utilizado de forma eficaz.
Essas palavras não possuem importância por terem sido ditas por Göring, nem devem ser interpretadas como uma verdade absoluta sobre todos os conflitos. Vindas de um dos principais dirigentes do regime n*zista, elas oferecem um raro retrato de como alguém que participou da construção daquele sistema enxergava o uso da propaganda e da manipulação da opinião pública.
Por isso, esse trecho costuma ser lembrado não como uma lição moral de quem o pronunciou, mas como um alerta sobre um mecanismo que a história registra em diferentes épocas: o uso do medo, da propaganda e da criação de inimigos para mobilizar sociedades.
Em 15 de outubro de 1946, poucas horas antes de ser executado pelos crimes pelos quais havia sido condenado no Tribunal de Nuremberg, Göring suicidou-se com uma cápsula de cianeto.
Sua vida terminou naquela cela.
Mas aquela conversa continua sendo citada por historiadores e estudiosos justamente porque lembra que guerras não começam apenas quando o primeiro tiro é disparado.
Muitas vezes, elas começam antes.
Começam nas palavras, nos discursos, na construção do medo e na forma como uma sociedade passa a enxergar aqueles que considera seus inimigos.
Créditos: História Perdida
Fontes:
Nuremberg Diary — Gustave M. Gilbert
The Anatomy of the Nuremberg Trials — Telford Taylor






