Vou tentar me expressar, sim — sobre algo observado, conversado e agora vou nesta crônica falar um pouco mais profundo do que uma questão de falso acolhimento.
O drama do retornado não é somente: “não estão me acolhendo”. É também:
“Eu voltei para reencontrar aquilo que um dia me fez amar este lugar, mas aquilo que eu procuro já não existe da mesma maneira.”
Ele não retorna apenas para uma igreja. Ele retorna à sua memória afetiva daquele lugar. Volta procurando pessoas, gestos, músicas, amizades, formas de culto, simplicidade, vínculos, talvez até uma versão de si mesmo que existia ali. Mesmo sabendo que ele mesmo passou por transformações ao longo dos anos, mesmo tendo a consciência de que é fruto de uma construção sociopolítica e espiritual de tudo que o compôs em estudos, afiliações, relacionamentos, amores, ganhos e perdas... Ele sabe que como retornado não precisa apenas se readaptar à comunidade; precisa elaborar o luto pela comunidade que deixou para trás.
E então acontece algo devastador: o lugar está lá, mas o lugar que ele guardava dentro de si desapareceu.
É quase um luto.
Ele olha para o banco onde sentava.
A música mudou.
As pessoas mudaram.
Os amigos foram embora.
A maneira de receber mudou.
Os antigos costumes desapareceram.
Até a linguagem parece outra.
E ele pensa:
*_OS RETORNADOS — VOLTAR PARA ONDE?*_
Talvez ninguém conte ao retornado sobre uma das maiores dores de voltar:
às vezes, aquilo que ele voltou para encontrar já não está mais lá.
Ele retorna carregando saudade.
De necessidade de pertencimento.
Não apenas de pessoas.
Mas de um tempo.
De uma música.
De um abraço.
De uma maneira de conversar.
De uma simplicidade que ficou guardada na memória.
Ele não voltou apenas para frequentar novamente uma igreja.
Voltou para reencontrar uma experiência.
E então entra.
Olha ao redor.
O prédio está lá.
Os bancos estão lá.
O púlpito está lá.
As Escrituras estão lá.
Mas alguma coisa não está.
Aquilo que sua memória dizia que estaria esperando por ele.
E surge uma pergunta silenciosa:
“Eu voltei... mas para onde?”
O estranho sentimento de voltar para casa e não reconhecê-la... Parece ter nova cor, novo cheiro...
Existe uma espécie de luto que acontece quando retornamos a um lugar que amávamos e descobrimos que ele mudou.
Não necessariamente para pior.
Apenas mudou.
As pessoas cresceram.
Algumas partiram.
Outras chegaram.
Os costumes foram modificados.
A linguagem mudou.
A liderança mudou.
As relações mudaram.
A própria pessoa que retorna também mudou.
E talvez seja esse o grande paradoxo:
ele deseja encontrar a igreja que deixou, mas aquela igreja também ficou no passado. Agora parece uma ilusão de um desejo.
O retornado pode ter idealizado aquele lugar durante os anos de afastamento.
Sua memória guardou os melhores momentos.
Guardou os abraços.
As amizades.
As orações.
As conversas depois do culto.
As pessoas que o fizeram sentir-se pertencente ao grupo, só algo sócio religioso.
Enquanto isso, a vida continuou.
E agora ele descobre que estava tentando voltar não apenas para um lugar.
Estava tentando voltar para um tempo.
E tempo nenhum aceita ser visitado duas vezes da mesma maneira.
A ferida do retorno
Por isso, nem todo retornado consegue explicar o que sente.
Ele talvez diga:
— “A igreja mudou.”
Mas talvez exista algo muito maior por trás dessa frase:
“Eu não encontrei aquilo que me fazia sentir em casa.”
E isso pode ser profundamente doloroso.
Porque ele esperava encontrar acolhimento e encontrou formalidade. Só o cumprimento porque está ali, porque todo o tempo afastado não buscaram saber o por quê...
Esperava encontrar velhos amigos e encontrou desconhecidos.
Esperava sentir familiaridade e encontrou estranhamento e pequenas panelinhas.
Esperava recuperar pertencimento e descobriu que precisará construí-lo novamente, mas agora tem o seu constructo antigo num sistema mudado.
É como voltar à casa da infância depois de muitos anos.
A casa continua no mesmo endereço.
Mas já não é a mesma casa.
Porque, na verdade, quem mudou não foi apenas a casa.
Foi ele....
E existe ainda outro paradoxo:
Talvez a comunidade também olhe para o retornado e pense:
“Ele mudou.”
E provavelmente mudou mesmo.
Mas o retornado também olha para a comunidade e pensa:
“Vocês mudaram.”
E ambos podem estar certos.
Não existe necessariamente um culpado.
Existe o tempo.
Existe a vida.
Existem escolhas.
Existem perdas.
Existem transformações.
Existem medos...
Será que ele pode ser uma maçã estragada no cesto tão arrumadinho ?
O problema começa quando um espera encontrar no outro a fotografia congelada do passado.
Psicologicamente, isso é um reencontro com a memória
A memória afetiva não guarda apenas fatos.
Guarda sensações.
Cheiros.
Vozes.
Músicas.
Rostos.
Rituais.
Sentimentos.
Por isso, quando retornamos a um lugar significativo, esperamos inconscientemente que o ambiente devolva aquilo que sentimos um dia.
Mas nenhum lugar consegue fazer isso sozinho.
O passado não mora mais naquele lugar.
Ele mora dentro de nós.
E talvez essa seja uma das tarefas mais difíceis do retornado:
aceitar que não poderá recuperar exatamente o que perdeu.
Precisará descobrir se consegue construir algo novo.
E aqui está o grande desafio espiritual
Talvez Deus não esteja convidando o retornado a recuperar a igreja que existia antes.
Talvez esteja convidando-o a descobrir o que pode nascer agora.
Não voltar para repetir.
Voltar para reconstruir.
Não exigir que tudo seja como antes.
Mas perguntar:
“O que podemos construir a partir daqui?”
"O que eu vou fazer com isso que descobri?"
Porque uma fé madura também precisa aprender a conviver com as mudanças.
O retornado precisa de acolhimento.
Mas a comunidade também precisa de compreensão.
Ela não recebe apenas alguém que voltou.
Recebe alguém cuja história continuou longe dali e isso assusta.
E ele não reencontra apenas uma congregação.
Reencontra pessoas que também viveram suas próprias histórias e que batem no peito sobre terem permanecido, e cada vez que isso é falado soa como uma chicotada de "eu sou melhor que você porque eu permaneci".
Teria talvez o verdadeiro acolhimento seja este
Não dizer:
“Aqui está tudo igual.”
Porque não está.
Mas dizer:
“Nós mudamos. Você mudou. Algumas coisas ficaram para trás. E eis a dificuldade: Mas existe espaço para construirmos novamente.”
Isso é muito mais honesto.
Porque talvez o retornado não precise recuperar o passado.
Precise apenas descobrir que o presente ainda pode oferecer pertencimento.
Ele voltou ferido.
Mas não quer um espaço que o queira sangrando, e deverá saber ter o equilíbrio emocional para os dedos que o usarão como exemplo.
Talvez tenha esperado encontrar a velha gaze.
Mas descobriu que até a farmácia mudou de lugar e não há antisséptico.
Então talvez seja preciso parar.
Sentar.
Escutar.
Reconhecer as perdas.
Chorar algumas ausências.
Dar nome à saudade.
Equilibrar o luto...
E somente depois começar novamente.
Porque há retornos que não são simplesmente uma volta.
São um novo nascimento dentro de um lugar que já foi conhecido.
Pois, talvez o maior erro que uma comunidade possa cometer seja exigir que alguém que acabou de voltar corra antes de aprender novamente a caminhar.
Acolher o retornado é compreender que algumas pessoas precisam de tempo.
Precisam ser ouvidas.
Precisam perceber que não serão julgadas pela história que carregam.
Precisam descobrir que podem fazer perguntas.
Precisam saber que podem discordar, o que para muitos se torna ameaça e não uma oportunidade de te ensinar os dogmas e as novas regras.
Precisam sentir que sua presença não depende de desempenho.
Porque talvez o verdadeiro milagre não seja alguém voltar para a igreja.
Talvez seja alguém voltar e, pela primeira vez depois de muito tempo, sentir que pode permanecer.
E talvez essa seja uma das maiores tarefas da igreja:
não apenas abrir suas portas para quem retorna,
mas abrir também o coração daqueles que permaneceram.
Porque voltar para Deus pode acontecer em um instante.
Voltar a confiar nas pessoas pode levar muito mais tempo.
Talvez a pergunta mais importante para quem retorna não seja:
“A igreja ainda é como antes?”
Mas:
“Existe aqui um lugar onde eu possa ser quem me tornei? Me aceitarão?”
E talvez a pergunta para a comunidade seja ainda mais difícil:
“Somos capazes de acolher não apenas quem está voltando, mas a pessoa que ela se tornou?”
Porque o retornado não voltou para encontrar o passado.
Voltou procurando um lugar no presente.
E talvez seja justamente aí que começa o verdadeiro reencontro.
— Abilio Machado
Psicoteologia: para além das paredes e para dentro da alma.
Você 🫵 não leu "Os ded8grejados" leia tocando no link https://ensinamentosdopapainoel.blogspot.com/2026/08/os-desigrejados-quando-fe-sai-pela.html
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