O microfone está aberto ao testemunho, estamos realmente ouvindo?!
Por Abilio Machado
Para quem não conhece minha igreja ela funciona por testemunho, discursos e aulas/temas dirigidos e como atividade anual temos o Vem E Segue-Me.
Vou falar sobre o testemunho que acontece sempre na primeira sacramental do mês.
Respeite a fala do outro.
O púlpito é, sim, lugar de história. E a história também presta testemunho do evangelho — porque revela caminhos, lutas, escolhas, dúvidas, fé e transformação.
Em outros tempos, o testemunho do irmão não era medido pelo relógio, mas pela verdade que atravessava o peito.
Hoje, muitas vezes, o microfone está aberto, o púlpito organizado, o tempo cronometrado — mas a escuta tem hora marcada.
Nem todos os irmãos e irmãs têm eloquência, boa oratória ou palavras bonitas. Ainda assim, testemunham como sabem, com o que têm, com sinceridade. E isso basta.
Fé não se mede pela retórica.
Não precisamos — e não queremos — robôs repetindo falas engessadas, limitadas e quase sem alma.
Testemunho não é fórmula.
Não é texto decorado.
Não é performance.
Testemunho é experiência viva.
Como a própria liderança afirma: “o púlpito está livre para prestar testemunhos”.
Livre para falar com verdade, com consciência, com humanidade.
Mas um púlpito verdadeiramente livre não se define apenas por quem pode falar — e sim por quem está disposto a ouvir.
Respeitar o testemunho do outro é respeitar a diversidade de vivências dentro da fé. É compreender que Deus também fala por meio das histórias — inclusive aquelas que não cabem em respostas prontas, nem se encaixam em discursos perfeitamente ajustados ao tempo.
Quem viveu a igreja nos anos 80, por exemplo, lembra bem: os testemunhos eram simples, singelos, vivos.
Como dizem os evangélicos, era “fogo do céu puro”.
Relatos que nos enchiam de alívio, força e poder.
Os mais simples — por assim dizer — narravam lutas incríveis do dia a dia dos santos.
Sem técnica.
Sem roteiro.
Sem medo.
E isso era assombroso e maravilhoso.
Com o passar dos anos, surgiram treinamentos de liderança que enfatizaram a importância de focar o testemunho diretamente em nosso Salvador Jesus Cristo. Aprendemos que experiências pessoais e histórias deveriam ser contadas em discursos, conversas individuais ou em outros contextos; e que, no púlpito, deveríamos nos ater ao que cremos acerca do Salvador.
Entendo esse cuidado.
Mas preciso dizer: o testemunho vivido fortalece.
Fortalece quem não é da igreja.
Fortalece o irmão que está firme.
E fortalece, sobretudo, aquele que está “capengando” por dentro.
Quando a fé é apresentada apenas como certeza perfeita, corre-se o risco de transformar o púlpito em vitrine — e não em espaço de encontro.
Parece que só se pode mostrar que está tudo bem.
Que o “lado B” da fé deve ser escondido, silenciado, esquecido.
E isso empobrece a experiência espiritual.
Claro, sempre haverá quem diga que ouvir o testemunho de vida do outro é perda de tempo. Geralmente são os que não aprenderam a ouvir — apenas a responder.
São aqueles que mal você começa a falar e já o interrompem com um conceito pronto, baseado no que ouviram, leram ou decidiram tomar como verdade absoluta.
Eles escutam para corrigir, não para compreender.
E é justamente aqui que o Livro de Mórmon nos ensina algo essencial:
o testemunho verdadeiro não nasce da eloquência, mas do Espírito.
É Ele quem faz a palavra simples atravessar corações atentos.
Há testemunhos que não impressionam pela forma, mas queimam por dentro.
Porque não vêm para convencer — vêm para tocar.
Quando um irmão compartilha sua história com sinceridade, ainda que com voz trêmula, ainda que sem técnica, algo sagrado acontece:
o Espírito confirma a verdade não apenas do que é dito, mas do que foi vivido.
Testemunhar é declarar fé em Jesus Cristo, sim —
mas também é revelar como Ele tem caminhado conosco no meio das quedas, das dúvidas, das lutas e das reconstruções.
O próprio Livro de Mórmon nos lembra que o Senhor opera “segundo a linguagem do povo, para que possa compreender”.
E isso inclui histórias simples, experiências imperfeitas e palavras que não cabem em moldes rígidos.
Quando reduzimos o testemunho a uma fórmula, corremos o risco de silenciar aquilo que o Espírito deseja confirmar.
Porque Deus não fala apenas pelo conteúdo correto —
Ele fala pelo coração quebrantado.
Respeitar o testemunho do próximo é reconhecer que o Espírito Santo continua a agir entre nós,
inclusive quando a fala não é bonita,
quando a história é difícil,
quando a fé ainda está em processo.
Talvez o verdadeiro desafio do nosso tempo não seja aprender a falar melhor no púlpito,
mas voltar a escutar com o coração.
Sustentar o silêncio.
Dar tempo ao que não cabe no cronômetro.
Lembrar que, antes de sermos organizados, fomos tocados.
E que, muitas vezes, Deus fala exatamente ali:
na história simples,
na voz trêmula,
no testemunho imperfeito —
mas verdadeiro.