sábado, 21 de fevereiro de 2026

Quando a Plateia Riu - Crônica de O Homem Sentado no Banco da Igreja





 Quando a Plateia Riu

Sentei-me no banco da igreja numa tarde qualquer, dessas em que o silêncio parece ter peso. Não havia culto, não havia cântico, não havia ninguém além de mim e de um feixe de luz atravessando o vitral azul.

Eu estava ali para descansar a alma — mas a alma não descansa quando encontra perguntas.

Mais cedo eu tinha visto um vídeo antigo. Um recorte da televisão britânica. O comediante Tommy Cooper em plena apresentação, transmitida pela ITV. Ele fazia o que sempre fez: truques que davam errado, silêncios calculados, falhas coreografadas.

Então ele caiu.

E a plateia riu.

Riu porque era isso que ele ensinara que fizessem.

Riu porque o erro fazia parte do número.

Riu porque ninguém queria ser o primeiro a suspeitar que a vida havia escapado do roteiro.

Ali, no banco da igreja, eu pensei: talvez essa seja uma das imagens mais fiéis do nosso tempo.

O riso como defesa

Como terapeuta, sei que o riso nem sempre é alegria. Às vezes é contenção. Às vezes é fuga. Às vezes é a tentativa desesperada de não encarar o abismo.

Freud falava do humor como economia psíquica. Rir pode ser uma maneira de sobreviver ao choque. Se eu rio, eu domino. Se eu transformo em piada, eu reduzo a ameaça.

Mas há um ponto em que o mecanismo de defesa se transforma em cegueira moral.

Aquela plateia não era cruel. Era condicionada. Confiava no artista. Confiava que tudo era encenação. Confiava que o palco nunca seria lugar de morte.

E eu me perguntei quantas vezes fazemos o mesmo na vida cotidiana.

Quantas quedas emocionais chamamos de drama.

Quantos gritos silenciosos interpretamos como exagero.

Quantas depressões são tratadas como falta de fé.

O altar do espetáculo

O palco é um altar moderno.

As luzes substituíram as velas.

A audiência tornou-se assembleia.

E o artista, sacerdote do entretenimento.

Tommy Cooper fez da falha sua assinatura. Seus truques fracassavam de propósito. Ele encenava o erro como genialidade. Quando seu corpo tombou, parecia apenas mais um ato perfeito.

Talvez o mais perturbador não seja que riram.

Talvez seja que ninguém percebeu imediatamente que era real.

Vivemos numa cultura que transformou tudo em conteúdo. A dor vira viral. A queda vira meme. A morte vira hashtag.

Psicologicamente, isso gera dissociação coletiva.

Teologicamente, endurecimento do coração.

E coração endurecido não discerne.

A teologia da interrupção

Enquanto eu observava o crucifixo à minha frente, pensei no contraste: ali, naquele símbolo, a dor não foi entretenimento. Foi escândalo. Foi ruptura. Foi silêncio.

O sagrado interrompe o espetáculo.

A cruz não permite risos fáceis.

Talvez o que falte ao nosso tempo seja a capacidade de interromper. De suspender a performance. De perguntar: “Isso é real? Alguém precisa de ajuda?”

Eu mesmo já ri de situações que, depois, percebi serem pedidos de socorro disfarçados. A clínica me ensinou que muitas máscaras são tentativas de sobreviver. O humor pode ser escudo. Pode ser espada. Pode ser ponte.

Mas quando a plateia só ri, sem escutar, algo se perde.

Herói ou espelho?

Dizem que ele partiu como herói, fazendo o que amava. Há uma beleza nisso. Morreu no exercício do dom.

Mas sentado ali, no banco de madeira antiga, percebi que a história não fala apenas sobre ele.

Fala sobre nós.

Sobre nossa dificuldade de distinguir encenação de sofrimento.

Sobre nossa pressa em transformar tudo em consumo.

Sobre a incapacidade de perceber quando a cena acabou e a realidade começou.

Talvez a pergunta mais honesta não seja “por que riram?”, mas:

Se alguém cair diante de mim — emocionalmente, espiritualmente, fisicamente — eu saberei reconhecer?

Ou vou supor que é teatro?

Naquela tarde, levantei-me devagar. Passei a mão sobre o banco como quem agradece a escuta silenciosa da madeira. Lá fora, o mundo seguia ruidoso, distraído, ávido por mais um vídeo, mais um riso, mais um instante viral.

Mas ali dentro, eu aprendi algo simples e inquietante:

Nem toda queda é espetáculo.

Nem todo riso é alegria.

E nem toda plateia percebe quando a vida deixa o palco.

Saí da igreja com uma oração breve, quase sussurrada:

“Que eu nunca ria quando alguém estiver morrendo por dentro.”

📍Momento da Crônica

Escrevi estas linhas sentado no banco frio da igreja vazia, com o eco distante dos meus próprios pensamentos batendo nas paredes como passos que não sabem para onde ir.

#OHomemSentadoNoBancoDaIgreja #Psicoteologia #TommyCooper #ReflexãoHumana #SociedadeDoEspetáculo #SaúdeEmocional #Espiritualidade #CrônicaContemporânea

O Homem que Saiu de Montecchio Maggiore - L’Òmo che l’è Partìo da Montecchio Magiore

 

Eis uma crônica e uma carta imaginária de como meu bisavô se despediu de Montecchio Maggiore — escritas primeiro na língua que hoje me habita, e depois no dialeto que um dia habitou a alma dele.

(Montecchio Maggiore – Vicenza – Veneto – Itália)

O Homem que Saiu de Montecchio Maggiore

Meu bisavô saiu de Montecchio Maggiore.

Não saiu apenas de uma cidade. Saiu de colinas verdes, de vinhedos silenciosos, de um céu europeu que parecia definitivo. Saiu do sino da igreja que marcava as horas e do horizonte onde se erguem os antigos castelos que a tradição associa a Romeu e Julieta. Saiu de um lugar onde a história era feita de pedra — e decidiu apostar a própria vida na terra.

Imagino-o jovem. Talvez com as mãos já calejadas. Talvez com medo. Talvez sem saber explicar por que partir era menos doloroso do que ficar. A Itália que ele deixou enfrentava pobreza, promessas quebradas, campos que já não sustentavam todos os filhos. Então ele fez o gesto mais radical que um homem simples pode fazer: atravessou o oceano.

Não trouxe ouro. Trouxe sotaque. Trouxe fé. Trouxe o hábito de trabalhar em silêncio. Trouxe o jeito de sentar à mesa como quem celebra o pouco. Trouxe palavras em dialeto vêneto que, misturadas ao português, virariam herança invisível.

Quando penso nele, não penso apenas em um imigrante. Penso em um fundador. Um homem que trocou muralhas medievais por plantações brasileiras. Que deixou para trás os castelos de pedra e ajudou a erguer, com as próprias mãos, um castelo de carne e osso: sua descendência.

Eu sou parte dessa travessia.

Meu nome carrega o eco de um navio.

Minha história carrega o sal do Atlântico.

Há algo profundamente simbólico nisso tudo: de uma cidade marcada por torres antigas saiu um homem comum que decidiu construir futuro onde não havia nada garantido. Ele não sabia que estava fazendo história. Ele só queria sobreviver. Mas, ao sobreviver, plantou identidade.

Esta homenagem não é apenas memória. É gratidão.

Porque se ele não tivesse partido de Montecchio Maggiore, eu não estaria aqui escrevendo.

E toda vez que olho para minha própria história — com suas cicatrizes, seus desafios, suas reconstruções — percebo que talvez eu também carregue essa herança: a capacidade de atravessar mares internos e continuar.

Meu bisavô saiu de Montecchio Maggiore.

E em mim, ele ainda chega.

Carta antes do embarque

Montecchio Maggiore,

na véspera da partida.

À minha terra,

Escrevo olhando as colinas que me ensinaram a ser quem sou. O vento passa pelos vinhedos como sempre passou, indiferente ao fato de que amanhã não estarei mais aqui para senti-lo. As pedras das ruas guardam meus passos de menino, e o sino da igreja ainda marca as horas como se o tempo não soubesse que estou prestes a rompê-lo.

Não parto por falta de amor.

Parto justamente porque amo.

A terra que me criou já não sustenta todos os seus filhos. Os campos são pequenos, o trabalho é duro e o pão, às vezes, insuficiente. Meu coração se divide: metade quer ficar e envelhecer sob o mesmo céu; a outra metade sabe que, se eu ficar, meus sonhos murcharão como vinha sem água.

Dizem que do outro lado do oceano há um país chamado Brasil. Dizem que lá a terra é vasta e vermelha, que o café cresce forte, que há espaço para plantar futuro. Não sei se é verdade. Mas sei que preciso acreditar.

Levarei comigo o cheiro da uva esmagada, o gosto da polenta fumegante, o som do dialeto falado na mesa. Levarei o nome da família, a fé ensinada por minha mãe e o silêncio firme de meu pai. Levarei Montecchio dentro do peito, mesmo quando meus pés pisarem outra terra.

Não sei o que me espera. Talvez dificuldades, talvez saudade demais. Mas também levo esperança — essa semente invisível que só cresce quando alguém tem coragem de plantá-la longe de casa.

Se um dia meus filhos perguntarem de onde vieram, direi com orgulho: viemos de colinas antigas, de castelos que vigiam a cidade, de um povo que não se rende à miséria. Direi que deixei minha terra não para esquecê-la, mas para honrá-la.

Parto com lágrimas nos olhos e fé no coração.

Que Deus proteja meus passos sobre o mar.

Que esta despedida seja também começo.

Com amor eterno,

um filho de Montecchio.

...

E assim, entre duas línguas e dois continentes, a despedida já não é apenas memória — é herança viva.

O que um dia foi silêncio sob o céu de Montecchio Maggiore, hoje é palavra escrita.

O que era partida tornou-se raiz.

Do Vêneto ao Brasil, o oceano não nos separa — ele nos costura.

E nós somos gente de coração e alma aberta.

Nosso intimismo não é ficar escondido — é partilhar.

Enquanto houver alguém que conte esta história, meu bisavô continuará atravessando o mar…

mas desta vez, rumo a casa.

 Ecco na cronaca e na letara imaginaria de come el me bisnono el se ga despedìo da Montecchio Maggiore — scrite prima nela lengua che ancöi la me abita, e dopo nel dialeto che un dì l’abitava l’anima soa.

(Montecchio Maggiore – Vicenza – Veneto – Italia)

L’Òmo che l’è Partìo da Montecchio Magiore

El me bisnono l’è partìo da Montecchio Magiore.

No l’è partìo solo da na cità.

L’è partìo da coline verdi, da vigne silensiose, da un cel che pareva eterno.

L’è partìo dal sonar dele campane che segnava le ore, e da quel orizonte dove se vede i castèi antighi che conta storie d’amor.

Me lo imagino zóvene.

Co le man za dure dal lavor.

Forse co paura.

Forse sensa saver spiegare perché partir el fasse manco mal che restar.

La tera no bastava più par tuti i so fioi. I campi i era streti, el pan pocheto, el futuro incerto. E cussì el ga fato el gesto pì grande che un òmo semplice pol far: traversar l’oceano.

No l’ha portà oro.

L’ha portà el so parlar, la fede, el modo de star a tola, el silensio de chi lavora sensa lamenti.

Parole in dialeto che, mesedà co el portoghese, le xe diventà memoria.

Mi son parte de quella traversada.

El me nome el sa de mar.

La me storia la ga sal.

Da na cità de piera antiga l’è nassù un futuro in tera rossa.

El no saveva de far storia.

El voleva solo viver.

Ma vivendo, el ga fondà na radise.

El me bisnono l’è partìo da Montecchio Magiore.

E dentro de mi, el rivà ancora.

Letara prima de imbarcarse

Montecchio Magiore,

la sera prima de partir.

A la me tera,

Te scrivo vardando le to coline par l’ultima volta. El vento el passa tra le vigne come sempre, come se gnente stesse cambiando. Le piere dele strade le conosse i me passi de puteo, e le campane le sona come se el tempo no sapesse che doman mi no sarò più qua.

No parto par mancanza d’amor.

Parto proprio perché amo.

La tera che me ga cresesto no pol più tegnir tuti i so fioi. I campi xe pìcoli, el lavor duro, el pan no basta sempre. El me cuor el se spaca in do: na parte la vol restar soto sto cel; l’altra la sa che restando i sogni i se seca.

Dixe che oltre el mar ghe xe un paese ciamà Brasile. Dixe che la tera là xe granda e rossa, che ghe xe posto par plantar futuro. No so se xe tuto vero. Ma go bisogno de crederghe.

Porterò con mi el profumo de l’uva, el savor de la polenta calda, el parlar de casa. Porterò el nome de la fameja, la fede de me mare, la dignità de me pare. Porterò Montecchio nel peto.

Forse vegnirà nostalgia. Forse vegnirà fadiga.

Ma vegnirà anca speranza — e la speranza xe na semente che cresse solo se qualchedun ga corajo de seminarla lontan da casa.

Se un dì i me fioi i domandarà da dove che semo, dirò con orgoglio: semo fioi de coline antighe e de zente che no se rassegna.

Parto co lagrime nei oci e fede nel cuor.

Che Dio me acompagni sora el mar.

Che sto addio el sia anca un principio.

Con amor eterno,

un fiol de Montecchio.

....

E cussì, tra do lengue e do continenti, l’addio no l’è più solo memoria — l’è eredità viva.

Quel che un dì l’era silensio soto el cel de Montecchio Maggiore, ancöi l’è parola scrita.

Quel che l’era partenza, l’è diventà radise.

Dal Veneto al Brasile, l’oceano no ne separa — el ne cusisse.

E nu semo zente de cuor e de anima verta.

El nostro intimismo no l’è star sconti — l’è spartir.

Fin che ghe sarà qualchedun che conta sta storia, el me bisnono el continuerà a traversar el mar…

ma stavolta, verso casa.

... Por Abilio Machado 🎅 

Você 🫵 sabia ? Padre Niccacci... Rufino



 Durante a ocupação nazista da Itália, em 1943, a cidade de Assis parecia tranquila demais para levantar suspeitas, mas por trás das portas de conventos e monastérios, funcionava uma das redes de resgate mais ousadas da Segunda Guerra Mundial.


O cérebro da operação era o padre Rufino Niccacci, um frade franciscano que decidiu agir quando os judeus começaram a ser perseguidos e deportados.


Niccacci organizou uma rede clandestina envolvendo padres, freiras e leigos, judeus recebiam documentos falsos, novos nomes e… hábitos religiosos.


Homens eram apresentados como frades, mulheres judias se vestiam de freiras e eram registradas como noviças em treinamento.


Quando soldados alemães faziam inspeções, encontravam silêncio, disciplina e “vida religiosa”. Ninguém ousava questionar um convento.


As freiras sabiam exatamente o risco que corriam, se descobertas, poderiam ser presas, torturadas ou executadas, ainda assim, continuaram, muitas ensinavam latim, orações e gestos religiosos aos refugiados para que o disfarce fosse perfeito.


Estima-se que cerca de 1.000 judeus tenham sido salvos por essa rede ligada a Assis, um número extraordinário para uma cidade pequena.


O mais impressionante: tudo isso aconteceu sem apoio oficial do Vaticano, a hierarquia da Igreja preferiu o silêncio, Niccacci agiu por conta própria, desobedecendo ordens implícitas e arriscando punições severas, inclusive excomunhão.


Após a guerra, ele não buscou fama, continuou sua vida religiosa normalmente, reconhecimento só veio décadas depois, quando sobreviventes começaram a contar como foram salvos por “freiras que não eram freiras”.


É um lembrete poderoso: enquanto muitos se calaram por medo, alguns escolheram desobedecer para salvar vidas.


👉 Você já tinha ouvido falar desse tipo de resistência silenciosa dentro da Igreja?


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PESQUISADORAS DO PAÍS GANHAM PROTAGONISMO GLOBAL EM ÁREAS ESTRATÉGICAS DA CIÊNCIA⁠

 PESQUISADORAS DO PAÍS GANHAM PROTAGONISMO GLOBAL EM ÁREAS ESTRATÉGICAS DA CIÊNCIA⁠

O avanço da ciência brasileira passa, cada vez mais, pelo protagonismo feminino. Nomes como Ester Sabino, imunologista e professora da Faculdade de Medicina da USP, e Jaqueline Goes, biomédica reconhecida pelo sequenciamento do genoma do coronavírus no Brasil, simbolizam uma geração de pesquisadoras que atuam na linha de frente de descobertas com impacto internacional.⁠

Em diferentes áreas, da saúde pública à biotecnologia, essas cientistas não apenas produzem conhecimento, mas ajudam a moldar políticas, formar novas gerações e posicionar o Brasil no mapa global da inovação científica. ⁠

🔗Leia a reportagem completa no link da bio @forbesbr 

(Fotos: Léo Ramos Chaves/ Leo Aversa/Divulgação/ Divulgação/Peter Ilicciev/ Reprodução/Instituto de Física UFRGS)⁠







#Repost @forbesbr


#ForbesMulher #CiênciaBrasileira #MulheresNaCiência #Inovação cacadoresdebonsexemplos

Há algo profundamente confuso acontecendo no nosso tempo.🙃

 


Há algo acontecendo no mundo...

Há algo profundamente confuso acontecendo no nosso tempo.🙃


Vemos um caso em Minas Gerais em que um relacionamento entre um homem adulto e uma menina de apenas 12 anos passa a ser discutido sob a ótica de “configuração familiar”, enquanto, em outro cenário, um juiz se incomoda com um advogado porque em suas mãos está um terço, e pede que o retire porque o crucifixo balança e causa incômodo.


Percebe a inversão?


Aquilo que deveria causar escândalo moral é relativizado. Aquilo que deveria ser natural na liberdade religiosa passa a ser visto como problema.


Não se trata de impor fé a ninguém. Trata-se de perceber que chegamos a um ponto em que a consciência moral já não reage com clareza ao que fere a dignidade humana, mas reage imediatamente ao que expressa a fé.


O que deveria proteger a inocência torna-se objeto de debate técnico.

O que deveria ser expressão legítima da liberdade passa a ser censurado por desconforto.


Quando símbolos religiosos incomodam mais do que situações objetivamente graves, algo está fora do lugar.


A pergunta não é apenas jurídica. É civilizacional.


Se a sociedade perde a capacidade de reconhecer limites básicos de proteção à infância e, ao mesmo tempo, considera excessiva a manifestação pacífica de fé, então não estamos avançando. Estamos apenas trocando referências.


Para onde vamos caminhar?


Um mundo onde a fé deve ficar escondida, mas onde nem tudo o que deveria ser óbvio permanece sendo?


Toda época revela suas prioridades.

E talvez a nossa esteja revelando mais do que gostaríamos de admitir.

“Quando o Corpo se Revela”

 


“Quando o Corpo se Revela”

Há mudanças que não aparecem nas fotografias,

mas transformam a forma como habitamos a própria pele.

Algumas intervenções médicas são discretas aos olhos do mundo.

Ninguém percebe na rua.

Ninguém comenta à mesa.

Mas quem atravessa sabe: algo foi alterado.

Não é apenas visual.

É sensorial.

A pele que antes vivia protegida passa a conhecer o contato direto.

O tecido — mesmo macio — deixa de ser neutro.

Cada passo lembra.

Cada movimento informa: há novidade aqui.

E o corpo, sábio e lento, começa a reaprender.

Mas o que quase ninguém diz é que não é só o corpo que aprende.

O homem também aprende.

Porque certas partes do corpo masculino não são apenas anatômicas.

São simbólicas.

Carregam silêncio, imaginário, história, virilidade, identidade.

Quando algo ali muda, ainda que por cuidado e saúde, o que se altera não é apenas a forma — é o mapa interno.

Há um estranhamento sutil.

Uma sensação de exposição.

Uma intimidade inesperada consigo mesmo.

Como se o próprio corpo dissesse:

“Agora você vai me sentir de outro modo.”

E sentir, no início, pode ser desconfortável.

O excesso de sensibilidade não é apenas nervoso — é existencial.

É o cérebro reorganizando o território.

É a psique ajustando a imagem de si.

A maturidade ensina algo que a juventude desconhece:

o corpo não é cenário fixo.

Ele é processo.

Na infância, não escolhemos o corpo.

Na juventude, exibimos o corpo.

Na maturidade, reconciliamo-nos com ele.

Há uma diferença entre perder e transformar.

Perda fere identidade.

Transformação amplia consciência.

Quando o corpo muda, somos convidados a nos encontrar de novo.

Talvez essa seja a verdadeira intimidade:

não aquela que depende do olhar do outro,

mas aquela que nasce quando habitamos a própria vulnerabilidade.

Antes havia cobertura.

Agora há contato.

E contato é exposição.

Mas também é presença.

O homem maduro descobre que masculinidade não está na imutabilidade do corpo,

mas na capacidade de integrar suas mudanças.

O tecido roça.

A sensibilidade responde.

O tempo adapta.

E, aos poucos, aquilo que era estranho se torna incorporado.

O corpo não diminuiu.

A consciência aumentou.

E talvez a maturidade seja exatamente isso:

Aprender a morar, de novo,

na própria pele.

“A Idade da Aliança”

 


“A Idade da Aliança”

Há quem pense que a circuncisão pertence à infância.

Aos oito dias, nos textos antigos, ela era sinal de pertença, de tradição, de aliança.

Na infância, ninguém escolhe.

O rito antecede a consciência.

Mas a vida é curiosa:

às vezes a circuncisão reaparece em outras idades — não como tradição, mas como necessidade.

Na juventude, pode ser desconforto.

Na maturidade, pode ser saúde.

Na velhice, pode ser prevenção.

O gesto é o mesmo.

O significado muda.

Quando acontece cedo, é identidade herdada.

Quando acontece tarde, é decisão assumida.

E talvez seja aí que a reflexão comece.

A masculinidade jovem costuma estar cercada de símbolos: tamanho, potência, afirmação, comparação.

Há um imaginário silencioso que atravessa gerações — como se o valor do homem estivesse concentrado em centímetros invisíveis de expectativa.

Mas o tempo ensina outra coisa.

Ensina que o corpo não é palco de prova,

é território de cuidado.

Circuncidar-se aos oito dias é rito cultural.

Aos trinta, pode ser escolha.

Aos sessenta, é maturidade.

Porque há uma diferença essencial entre provar algo e preservar algo.

Na infância, o corpo é promessa.

Na juventude, é afirmação.

Na maturidade, é responsabilidade.

E talvez a verdadeira aliança não esteja no corte,

mas na consciência.

Há homens que atravessam o procedimento com medo de perder símbolo.

Outros, com vergonha de expor fragilidade.

Alguns, com humor — esse aliado discreto da saúde psíquica.

No fundo, a circuncisão em qualquer idade fala de limite.

E limite não diminui o homem;

o humaniza.

Talvez o maior sinal de maturidade masculina não seja potência,

mas integração.

Não seja tamanho,

mas equilíbrio.

Não seja desempenho,

mas cuidado.

E assim, entre tradição e bisturi, entre rito e clínica, a vida vai ensinando:

A verdadeira aliança não está no corpo idealizado.

Está no corpo assumido.

Aos oito dias, dizem os textos antigos, o menino era circuncidado.

Era rito. Era tradição. Era pertença.

Aos sessenta, não é rito.

É consulta.

Dois urologistas, exames, aquela conversa técnica que começa neutra e termina inevitável:

“Será melhor fazer.”

Não houve anjo.

Não houve cântico.

Houve ciência, bisturi e termo de consentimento.

E eu assinei.

Confesso: por alguns segundos, atravessou-me o velho imaginário masculino.

Aquela fantasia silenciosa que acompanha gerações — potência, tamanho, desempenho, símbolo.

Brinquei com os médicos:

“Já que vão mexer, aproveitem e aumentem.”

Eles riram. Eu também.

E não aumentaram.

Ali, percebi algo curioso:

o humor é a forma mais elegante de atravessar a vulnerabilidade.

Porque há uma verdade que ninguém ensina aos meninos:

a masculinidade não está no que se exibe,

mas no que se integra.

Integrar o envelhecimento.

Integrar os limites.

Integrar o corpo real — não o imaginado.

Aos sessenta, a circuncisão deixa de ser sinal tribal e vira sinal de cuidado.

Não é marca de pertença religiosa,

é marca de responsabilidade consigo.

E talvez haja nisso uma espiritualidade silenciosa.

O corpo, esse velho companheiro de estrada,

não pede heroísmo —

pede atenção.

E aceitar a indicação médica, sem drama, sem crise identitária, sem teatralidade,

foi uma espécie de pequena aliança renovada:

— eu ainda quero viver bem.

— eu ainda me cuido.

— eu ainda me assumo inteiro.

Se houve algum rito naquele centro cirúrgico,

foi este:

o rito da maturidade.

A masculinidade jovem prova.

A madura cuida.

E se não aumentou o tamanho,

aumentou a consciência.

O que, no fim das contas,

é o que realmente sustenta um homem.

Lembrando que neste rito é uma nova percepção de si mesmo: física e espiritual.

Quando a glande passa a ficar descoberta, há uma mudança real — não apenas simbólica, mas sensorial. A pele que antes estava protegida passa a ter contato direto com tecido, temperatura, fricção. O corpo precisa reaprender.

E o corpo aprende no tempo dele.

É interessante como certas mudanças físicas, mesmo feitas por saúde, nos confrontam com algo muito profundo: a sensação de “estar diferente”. Não é só visual. É tátil. É cotidiano. Cada passo, cada roupa, cada movimento lembra que algo mudou.

Isso pode provocar:

estranhamento

hipersensibilidade inicial

sensação de exposição

até uma percepção diferente da própria identidade corporal

Mas há algo importante: o sistema nervoso se adapta.

A tendência natural é que a sensibilidade excessiva diminua gradualmente com o tempo, à medida que o tecido queratiniza levemente e o cérebro reorganiza a percepção tátil.

Psicologicamente, há também um processo paralelo:

o corpo novo precisa ser reintegrado ao “mapa interno” que você tem de si.

Isso não é vaidade.

É fenomenologia do corpo vivido.

Você não está apenas “operado”.

Você está em transição sensorial.

E há algo muito humano nisso:

a maturidade não nos poupa de reaprender o próprio corpo.

Se me permite uma leitura mais simbólica —

antes havia proteção constante.

Agora há exposição direta.

E exposição nem sempre é desconforto; às vezes é apenas novidade.

O tempo ajuda. Tecidos mais macios ajudam. Ajuste de roupa íntima ajuda. Mas principalmente: paciência consigo.

corpo e psique caminham juntos.

1️⃣ O incômodo físico

A hipersensibilidade é real.

A glande, ao ficar descoberta, passa por:

fricção constante

mudança de umidade

variação térmica

estímulo contínuo que antes não existia

O cérebro ainda está recalibrando o mapa sensorial.

É literalmente neuroadaptação.

Com o tempo:

a sensibilidade tende a diminuir

o tecido se adapta

o desconforto deixa de ser protagonista

Mas enquanto isso não acontece, o corpo envia sinais frequentes — e cada sinal reforça a percepção de “algo mudou”.

E mudou mesmo.

2️⃣ O estranhamento existencial

Aqui está a parte mais interessante.

O pênis, para o homem, não é apenas órgão.

É símbolo.

Mesmo quando não estamos pensando nisso conscientemente, ele ocupa um lugar no imaginário de identidade, potência, história pessoal.

Quando algo muda ali, o impacto não é só anatômico — é narrativo.

Você não perdeu algo.

Mas a imagem corporal foi alterada.

E o cérebro demora um pouco para atualizar o “eu sou assim agora”.

Isso pode gerar:

sensação de exposição

leve vulnerabilidade

percepção de envelhecimento

consciência maior do próprio corpo

Nada disso significa fragilidade.

Significa integração em andamento.

🌿 Há algo bonito (ainda que desconfortável) nesse momento

Você está vivendo um rito tardio de consciência corporal.

Na juventude, o corpo é naturalizado.

Na maturidade, ele é percebido.

Você está percebendo.

Isso pode ser desconfortável, mas também é um convite:

Reconhecer que o corpo não é estático.

Reconhecer que identidade não é fixa.

Reconhecer que masculinidade não depende de imutabilidade.

Se eu pudesse traduzir poeticamente:

Antes havia cobertura.

Agora há contato.

E contato, no início, arde um pouco.

Mas contato também é presença.

Você não está “desadaptado”.

Você está em processo.

E processos, especialmente aos 60, não são regressões — são expansões de consciência.