segunda-feira, 6 de abril de 2026

Há uma ironia silenciosa na palavra “paciente”.

   

 

Estava conversando com minha amiga Katia e falávamos sobre espera para exames, morosidade principalmente na área da saúde, falei a ela: Por isso nos chamam de pacientes. E assim surge esta crônica.

Há uma ironia silenciosa na palavra “paciente”. 

Ela nasce do latim patiens, aquele que sofre, aquele que suporta. Não se refere, originalmente, à virtude da calma, mas à condição de quem atravessa algo — uma dor, um processo, uma espera. Ainda assim, no cotidiano dos serviços de saúde, o termo parece ganhar uma camada quase cruel de sentido: o paciente não apenas sofre, ele também precisa aprender a esperar.

Filas longas, diagnósticos adiados, retornos distantes… o sistema, muitas vezes, ensina à força uma paciência que não foi escolhida, mas imposta. Como se, além da dor física ou emocional, houvesse um rito silencioso de resistência: suportar o tempo lento das instituições.

Mas talvez seja justamente aí que a palavra revele sua ambiguidade mais profunda. O paciente não é apenas alguém que espera — é alguém que atravessa. E, nesse atravessar, há algo de humano, de vulnerável, mas também de potência. Porque mesmo na espera, há vida acontecendo, há sentido sendo construído.

No fim, ser paciente não deveria significar resignar-se à demora, mas reconhecer a dignidade de quem está em processo. A saúde, afinal, não deveria exigir paciência — deveria oferecer cuidado.

domingo, 5 de abril de 2026

Eu e a páscoa...

 


Nesta Páscoa, meu coração se volta não apenas para um sentimento de recomeço, mas para a profundidade daquilo que sustenta a minha fé.


A celebração que hoje vivo como cristão tem raízes antigas, na Pessach, quando Deus libertou o povo de Israel da escravidão no Egito. Ali, o sangue do cordeiro marcou portas — e marcou também o início de uma história de redenção, cuidado e promessa.


Para mim, como cristão, essa história não termina ali — ela encontra seu cumprimento em Jesus Cristo.


Ele é o Cordeiro que tira o pecado do mundo.

Ele é a libertação que vai além do físico — alcança a alma.

Ele é a prova de que Deus não apenas liberta… Ele transforma, restaura e dá vida eterna.


Entre estudos, ensaios e o som do meu violoncelo preenchendo o silêncio, percebo que cada recomeço que vivo carrega esse significado mais profundo: não é apenas sobre tentar de novo — é sobre viver a nova vida que me foi dada em Cristo.


Mesmo longe do Brasil, construindo meu caminho aqui, minha fé me lembra todos os dias de onde vem minha verdadeira identidade e esperança.


A Páscoa me ensina que Deus sempre esteve escrevendo uma única história — da libertação no Egito à cruz, da promessa ao cumprimento.


E essa história continua em nós.

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Feliz Páscoa! ✝️✨




sábado, 4 de abril de 2026

Evolução do paciente de 33 anos.

 


Paciente masculino, aproximadamente 33 anos, submetido previamente a flagelação severa, compatível com múltiplas lesões lacerocontusas dorsais e perda sanguínea significativa, membros superiores e inferiores fixados a estrutura de madeira por meio de perfuração transfixante.

Hipovolemia secundária à hemorragia prévia (flagelação e perfurações);

Dor intensa e estresse fisiológico extremo;

Comprometimento ventilatório progressivo, devido à posição forçada de abdução e elevação dos membros superiores, dificultando a expansão torácica;

Evolução para insuficiência respiratória;

Possível acidose metabólica e respiratória combinadas; apresenta saída de sangue e líquido seroso nas perfuração torácica que se associam a derrame pleural e/ou pericárdio,

Choque hipovolêmico e/ou distributivo, 

Evoluiu l para colapso cardiorrespiratório.

C4 no local.

 Provável causa morte; insuficiência respiratória aguda associada a choque hipovolêmico traumático, culminando em PCR.

Aos olhos humanos, o quadro era irreversível. A vida esvaía-se em meio à perda de sangue, ao colapso das forças e ao silêncio que precede a morte. Após longa agonia, foi declarado morto. Seu corpo foi colocado no sepulcro. A pedra foi selada. A esperança de muitos parecia ter sido enterrada junto com Ele.


Contudo, ao terceiro dia, algo extraordinário aconteceu.


O túmulo estava vazio.


Relatos começaram a surgir: Ele foi visto vivo. Não como antes, mas glorificado. Aquele que havia sido ferido estava de pé. Aquele que fora humilhado agora manifestava vitória. A morte, que parecia definitiva, fora vencida.


Seu nome: Jesus Cristo de Nazaré.

Sábado Santo: o silêncio que também testemunha

 


Sábado Santo: o silêncio que também testemunha

Há um dia que não grita.

Não há cruz erguida, nem pedra removida.

Não há multidão, nem milagre aparente.

Há apenas o silêncio.

Um sábado de vigília...

Onde os discípulos ficam vigilantes ao Senhor Jesus.

O Sábado Santo é o dia mais difícil para a alma apressada.

Porque nele, Deus parece ausente.

Parece que todo o ser se recondiciona.

Ontem houve dor pública.

A cruz foi vista, o sangue foi exposto, o amor foi rasgado diante de todos.

“Jesus morreu por você em público” — e isso não foi escondido, não foi íntimo, não foi discreto. Foi escancarado.

Mas hoje…

Hoje é o dia em que tudo parece enterrado.

E é justamente aqui que mora o maior conflito humano:

continuar crendo quando não há espetáculo.

O sábado de aleluia não é barulhento — ele é profundo.

É o intervalo entre a promessa e o cumprimento.

É o espaço onde a fé deixa de ser emoção e se torna decisão.

Muitos querem o domingo da ressurreição,

mas poucos suportam o sábado do silêncio.

Porque viver para Cristo em público exige mais do que palavras —

exige coerência quando ninguém aplaude,

exige firmeza quando nada acontece,

exige fé quando Deus não responde imediatamente.

O sábado nos confronta.

Ele pergunta:

— Você só vive para Deus quando Ele aparece… ou também quando Ele se cala?

Há uma espiritualidade confortável que se esconde no privado:

orações silenciosas, fé discreta, crença sem exposição.

Mas o Cristo que morreu às vistas do mundo não chamou seguidores invisíveis.

Ele não se escondeu na dor.

Então por que nos esconderíamos na fé?

O Sábado Santo nos ensina que até o silêncio de Deus trabalha.

Enquanto o mundo achava que era o fim,

o céu preparava o recomeço.

A pedra ainda está no lugar…

mas já não tem a última palavra.

Por isso, este dia não é vazio — é gestação.

Não é ausência — é preparação.

Não é derrota — é pausa divina.

E talvez, na sua vida, hoje também seja sábado.

Nada acontece.

Nada muda.

Nada responde.

Mas o convite permanece:

não viva para Ele apenas no privado.

Viva sua fé quando ela for questionada,

quando ela for testada,

quando ela não fizer sentido.

Porque quem permanece no sábado…

testemunhará o domingo.

E quando a pedra rolar,

não será apenas a história de Cristo que se revelará —

será também a sua.



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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Não há amor maior!

 

A Sexta-feira Santa chega sem alarde, mas com peso. Não é um dia de respostas fáceis — é um dia de silêncio que fala.

O card sussurra: “Foi por mim… foi por você. Não há maior amor.”

E talvez o mais difícil não seja entender essa frase… mas suportá-la.

Porque ela nos confronta.

A imagem dos cravos, da madeira áspera, da coroa que fere — tudo aponta para uma verdade que a alma muitas vezes evita: o amor, quando é verdadeiro, não é confortável. Ele atravessa. Ele sangra. Ele permanece.

Na perspectiva psicoteológica, a cruz não é apenas um símbolo religioso — ela é o espelho mais radical da condição humana. Nela se encontram nossas culpas projetadas, nossas dores não elaboradas, nossos abandonos mais primitivos. A cruz é, em certo sentido, o lugar onde o inconsciente humano grita… e Deus responde não com explicações, mas com presença.

Ali, o Cristo não foge.

Ele não racionaliza a dor, não a nega, não a espiritualiza de forma vazia. Ele a encarna. Ele a atravessa. E, ao fazer isso, legitima cada lágrima humana que um dia já foi escondida por vergonha ou endurecida por sobrevivência.

Sexta-feira Santa é o dia em que Deus não se apresenta como força invencível, mas como vulnerabilidade absoluta.

E isso desconcerta.

Porque fomos ensinados a fugir da dor, a anestesiar o sofrimento, a esconder as feridas. Mas a cruz nos convida ao contrário: a olhar. A permanecer. A não fugir de si mesmo.

Há algo profundamente terapêutico na cruz.

Ela diz: “a sua dor não é ignorada.”

Ela diz: “o seu sofrimento não é inútil.”

Ela diz: “você não está sozinho — nem no seu pior momento.”

E talvez seja por isso que tantos evitam esse dia. Porque ele desmonta defesas. Ele quebra narrativas de controle. Ele nos coloca diante daquilo que tentamos organizar demais: o mistério de existir, de sofrer e, ainda assim… ser amado.

Na linguagem da alma, a cruz não é o fim.

Mas ela também não é apressada para o domingo.

Há um tempo necessário entre a dor e a ressurreição.

Um tempo de luto.

Um tempo de silêncio.

Um tempo de descer dentro de si.

Sexta-feira Santa é esse intervalo sagrado.

Hoje não se canta vitória.

Hoje se contempla o amor que ficou… mesmo quando tudo parecia perdido.

E talvez, no fundo, a pergunta que ecoa não seja “por que Ele fez isso?”

Mas sim: o que fazemos nós com um amor assim?

Porque ser amado dessa forma não é leve.

É transformador.

É desconcertante.

É exigente.

E, ainda assim… é o único caminho que cura.


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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Quinta-feira Santa: o amor que se ajoelha

 


Quinta-feira Santa: o amor que se ajoelha

A Quinta-feira Santa não chega com silêncio apenas — ela chega com gestos.

Gestos que falam mais alto que qualquer sermão.

Gestos que desmontam o orgulho, confrontam o ego e revelam, de forma quase desconcertante, o verdadeiro significado do amor.

É o dia em que a tradição cristã recorda a Última Ceia. O momento em que Jesus, sabendo de tudo o que estava por vir, escolhe não se defender, não se justificar… mas amar.

Amar até o fim.

Nesse dia, as igrejas se enchem de símbolos profundos: o altar preparado, o pão e o vinho consagrados, o rito do lava-pés sendo celebrado. Não é apenas uma encenação litúrgica — é um convite existencial.

Porque ali, quando Jesus se ajoelha para lavar os pés dos discípulos, Ele rompe com toda lógica humana de poder.

O Mestre se faz servo.

E talvez seja justamente isso que mais nos desconcerta.

Vivemos tentando subir, conquistar, aparecer… enquanto o Cristo nos ensina a descer, servir e desaparecer no amor.



E foi em uma Quinta-feira Santa que eu entendi algo que nunca tinha realmente compreendido.

A igreja estava cheia, mas o ambiente era diferente. Havia uma reverência no ar, um peso sagrado em cada gesto. Quando começou o rito do lava-pés, confesso que observei com certa distância — como quem já conhece a cena, mas não se deixa afetar.

Até que algo mudou.

Um senhor simples, de mãos calejadas, teve seus pés lavados. Ele chorava em silêncio. Não era constrangimento… era entrega.

E naquele momento, algo quebrou dentro de mim.

Eu sempre tive dificuldade em receber cuidado. Sempre fui aquele que ajuda, que orienta, que sustenta. Mas ali, vendo aquele homem permitir-se ser servido, percebi o quanto eu também resistia ao amor quando ele vinha em forma de humildade.



Foi então que lembrei de uma passagem que, naquele instante, deixou de ser apenas texto e se tornou espelho:

"Se eu, sendo Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros."

— Bíblia

A Última Ceia não foi apenas uma despedida. Foi uma declaração de princípios.

Ali nasce o serviço como expressão máxima da fé.

Ali se revela que amar não é sentir — é agir.

Ali se estabelece que o verdadeiro poder está em se inclinar, não em se impor.

E como se não bastasse, a noite ainda guarda outro momento: o Getsêmani.

Após a ceia, Jesus vai orar. Não como quem recita palavras, mas como quem trava uma batalha interna. Angústia, entrega, obediência.

A Quinta-feira Santa também é isso: o confronto entre a vontade humana e o propósito divino.

Saí daquela celebração diferente.

Não transformado de forma mágica… mas tocado de forma real.

Entendi que servir não é se diminuir — é se alinhar.

Que amar exige coragem — não sentimento passageiro.

E que fé, de verdade, se revela nos pequenos gestos que ninguém aplaude.

A Quinta-feira Santa nos ensina que o amor verdadeiro se ajoelha.

Que a grandeza se manifesta na simplicidade.

E que, antes da cruz… existe um coração disposto a servir.

Porque, no fim, não é sobre o que dizemos crer.

É sobre o quanto estamos dispostos a viver.

Quarta-feira Santa: o silêncio que prepara o milagre

 




Quarta-feira Santa: o silêncio que prepara o milagre

Há dias em que o céu parece falar alto.

Mas há outros — como a Quarta-feira Santa — em que Deus escolhe o silêncio.

E é justamente nesse silêncio que algo profundo começa a acontecer dentro de nós.

A Quarta-feira Santa não é marcada por grandes celebrações festivas. Ela carrega um tom mais introspectivo, quase como uma pausa sagrada entre o anúncio do sofrimento e o desfecho da redenção. É o dia em que a tradição cristã nos convida a olhar para dentro, a refletir sobre a fragilidade humana, a traição, a dor… mas também sobre a fidelidade que resiste mesmo quando tudo parece desmoronar.

Em muitas comunidades, é comum a celebração de missas mais sóbrias, momentos de confissão, procissões silenciosas e vigílias. Os cânticos diminuem, os gestos se tornam mais contidos. Não é um vazio — é preparação. É como se a alma estivesse sendo lentamente afinada para compreender o que virá.

Há quem diga que esse é o dia em que lembramos a conspiração silenciosa contra Jesus. O momento em que a sombra da traição começa a ganhar forma. E talvez por isso, essa data nos confronte tanto: porque nos lembra que nem sempre o mal grita — às vezes ele sussurra dentro de nós.

E foi justamente em uma Quarta-feira Santa que eu senti algo diferente.

Eu estava sentado no banco da igreja, não por devoção intensa, mas por um cansaço que já não sabia nomear. A vida parecia pesada, os pensamentos embaralhados, e a fé… quase esquecida em algum canto da alma.

Não havia música que me emocionasse, nem palavras que me tocassem. Apenas silêncio.

E foi ali, nesse silêncio, que uma frase ecoou dentro de mim — não como um som, mas como uma certeza:

"Vigiai e orai, para que não entreis em tentação."

— Bíblia

Naquele instante, percebi que minha maior batalha não era contra o mundo, mas contra a distração da minha própria essência. Eu havia me afastado de mim mesmo, daquilo que acredito, daquilo que sustenta minha existência.

A Quarta-feira Santa me ensinou que nem todo encontro com Deus vem acompanhado de emoção. Às vezes, Ele se apresenta no silêncio que incomoda… porque é nele que a verdade encontra espaço para falar.

Saí dali sem respostas grandiosas. Mas com algo mais valioso: consciência.

Consciência de que a fé não é um espetáculo, é um caminho.

Consciência de que o silêncio não é ausência — é convite.

E, sobretudo, consciência de que antes da cruz… existe uma decisão interna de permanecer.

A Quarta-feira Santa nos chama a isso:

permanecer, mesmo quando não sentimos.

acreditar, mesmo quando não vemos.

e silenciar… para finalmente ouvir.

Porque, no fim, o milagre não começa na ressurreição.

Ele começa no coração que aprende a escutar.