segunda-feira, 12 de outubro de 2026

A DOR: QUANDO A ALMA ENCONTRA DEUS NO DESERTO

 


A DOR: QUANDO A ALMA ENCONTRA DEUS NO DESERTO


Uma reflexão psicoteológica sobre o sofrimento, a consciência e a intimidade com Cristo.


Cada ser humano carrega dores que nem sempre consegue nomear. Há cruzes que pesam sobre os ombros, gigantes que habitam a mente, desertos que ressecam a esperança e tempestades que parecem não encontrar fim. Algumas dessas experiências, vistas pelos olhos humanos, parecem impossíveis de suportar. Mas será que, em meio a elas, também pode existir a possibilidade de transformação?


Sob a perspectiva psicoteológica, precisamos compreender que a dor não é necessariamente uma punição divina, nem todo sofrimento deve ser romantizado como uma vontade de Deus. Existem dores que precisam de acolhimento, feridas que exigem cuidado e experiências que demandam tempo, elaboração emocional e, muitas vezes, ajuda profissional. A fé não anula a psicologia, assim como a psicologia não precisa excluir a espiritualidade.


Entretanto, quando o sofrimento chega e não podemos mudar imediatamente as circunstâncias, talvez possamos começar por uma pergunta diferente: o que essa experiência está revelando sobre mim, sobre minhas fragilidades, sobre minha maneira de enxergar a vida e sobre a minha relação com Deus?


A dor, quando acolhida e elaborada, pode tornar-se um caminho de autoconhecimento. E a fé, quando vivenciada com consciência, pode oferecer sentido, esperança e sustentação para atravessarmos aquilo que ainda não conseguimos compreender.


Afinal, Deus não precisa nos ferir para nos ensinar, mas pode nos encontrar até mesmo naquilo que nos feriu.


O deserto exterior e os conflitos da alma


Às vezes, pedimos a Deus que transforme a realidade, quando também precisamos de forças para transformar a maneira como nos relacionamos com ela. Isso não significa aceitar passivamente a injustiça, abandonar o tratamento de uma doença ou permanecer em situações que nos destroem. Significa reconhecer que, entre o acontecimento e a nossa resposta, existe um espaço precioso: o da consciência, da escolha e da possibilidade de reconstrução.


Em Gênesis, lemos:


“Acaso, para o SENHOR há coisa demasiadamente difícil?” (Gênesis 18:14).


E Jesus declara:


“Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível.” (Mateus 19:26).


Essas palavras não são uma garantia de que receberemos tudo aquilo que pedimos, exatamente quando desejamos. São um convite a não transformar os limites da nossa compreensão em limites para a esperança.


Psicologicamente, quando somos dominados pelo medo, nossa percepção tende a estreitar-se. Enxergamos a dor como se ela fosse toda a nossa existência, o fracasso como se definisse nossa identidade e o presente como se fosse uma sentença definitiva. A espiritualidade pode ajudar-nos a ampliar essa perspectiva, desde que não seja usada para negar emoções, silenciar questionamentos ou produzir culpa por estarmos sofrendo.


Ter fé não significa não sentir medo. Significa não permitir que o medo seja a única voz a interpretar a nossa história.


Deus também nos encontra na fragilidade


As Escrituras apresentam personagens cujas experiências de sofrimento, espera e solidão se tornaram parte fundamental de suas jornadas.


José conheceu a rejeição e a injustiça antes de ocupar uma posição de responsabilidade no Egito. Moisés atravessou o deserto antes de conduzir seu povo. Elias, exausto e ameaçado, experimentou o silêncio depois de uma profunda crise. Jó questionou, lamentou e enfrentou o mistério de um sofrimento que não compreendia. Paulo aprendeu a reconhecer a suficiência da graça em meio às próprias limitações.


Maria permaneceu diante da cruz, confrontada pela dor de ver seu filho sofrer. E os discípulos, abalados pela morte de Jesus, precisaram reconstruir sua compreensão dos acontecimentos à luz da Ressurreição.


Essas histórias não nos autorizam a afirmar que toda tragédia esconde uma recompensa ou que toda perda será compensada da maneira que esperamos. Elas nos lembram, porém, que a fragilidade humana não impede a experiência da fé e que o sofrimento não precisa ter a última palavra sobre o significado de uma vida.


Na perspectiva psicoteológica, o encontro com Deus pode acontecer justamente quando abandonamos a obrigação de parecer fortes. A oração deixa de ser uma tentativa de convencer Deus de que merecemos ajuda e torna-se também um espaço de verdade: onde podemos confessar o medo, expressar a raiva, chorar a perda e admitir que não sabemos como continuar.


A intimidade espiritual não nasce necessariamente da ausência de conflitos. Muitas vezes, ela se aprofunda quando deixamos de esconder nossos conflitos diante de Deus.


Quando a dor não explica tudo, mas pode transformar algo


Paulo escreveu:


“E sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Romanos 8:28).


Essa passagem merece ser compreendida com sensibilidade. Ela não afirma que todas as coisas são boas. A violência não é boa. A doença não é boa simplesmente porque alguém aprende com ela. A perda não deixa de ser dolorosa porque a pessoa encontra forças para prosseguir.


O texto aponta para uma esperança maior: a de que nem mesmo as experiências difíceis precisam ser capazes de destruir definitivamente a possibilidade de reconstrução, amadurecimento e propósito.


Há acontecimentos que jamais escolheríamos viver, mas dos quais podemos extrair novas compreensões. Há feridas que deixam marcas, mas não precisam definir para sempre quem somos. Há perdas que não encontram substituição, mas podem, com o tempo, encontrar um lugar possível dentro da nossa história.


É importante distinguir transformação de justificação. Encontrar um sentido depois da dor não significa que a dor precisava acontecer. Significa que, mesmo diante daquilo que não escolhemos, ainda podemos descobrir maneiras de cuidar de nós, reconstruir vínculos, rever prioridades e continuar vivendo.


A fé pode sustentar esse processo. A psicologia pode ajudar-nos a compreender os mecanismos emocionais envolvidos nele. E ambas, quando vividas com responsabilidade e humildade, podem abrir caminhos para uma existência mais consciente.


Cristo: o caminho para uma nova compreensão da vida


Jesus declarou:


“Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” (João 14:6).


Na experiência cristã, Cristo não é apenas aquele a quem recorremos quando todas as alternativas falham. Ele é também referência para a maneira como compreendemos a existência, a vulnerabilidade, o amor, o perdão e a esperança.


Olhar para Jesus é encontrar alguém que chorou, sentiu angústia, experimentou abandono e não tratou a dor humana com indiferença. No Getsêmani, sua angústia não foi uma demonstração de ausência de fé. Foi a expressão de uma humanidade que enfrentava, com profunda intensidade, aquilo que estava por vir.


Essa imagem nos ensina algo essencial: não precisamos negar nossa humanidade para nos aproximarmos de Deus.


Podemos orar e procurar um psicólogo. Podemos confiar em Cristo e aceitar o apoio de pessoas queridas. Podemos ter esperança e, ao mesmo tempo, reconhecer que estamos cansados. Podemos acreditar na eternidade sem fingir que as perdas desta vida não doem.


A intimidade com Deus não exige que abandonemos nossa humanidade; convida-nos a vivê-la com mais verdade, responsabilidade e amor.


E se o deserto for também um lugar de reencontro?


Talvez você esteja atravessando um período em que as respostas não chegam, as orações parecem silenciosas e o futuro perdeu a nitidez. Talvez esteja enfrentando uma doença, um luto, uma crise familiar, uma decepção ou uma batalha interior que ninguém consegue enxergar.


Não vou lhe dizer que tudo acontece por uma razão, porque nem sempre compreendemos as razões dos acontecimentos. Tampouco lhe direi que basta orar para que a dor desapareça.


Quero lhe propor algo diferente: não permita que o sofrimento lhe convença de que você é apenas aquilo que está sofrendo.


Você é maior do que o seu diagnóstico, mais complexo do que os seus erros e muito mais do que a fase difícil que atravessa. Sua história não se resume ao capítulo que hoje lhe faz chorar.


Se a oração lhe traz conforto, ore. Se precisa chorar, chore. Se necessita de ajuda, peça. Se chegou ao limite das suas forças, não transforme o esgotamento em vergonha. E, se a sua fé estiver sendo atravessada por perguntas, lembre-se de que questionar não significa necessariamente deixar de acreditar.


O deserto pode ser um lugar de solidão, mas também pode tornar-se um espaço de reflexão, desde que não precisemos atravessá-lo sem apoio.


A verdadeira transformação não consiste em aprender a gostar da dor, mas em descobrir que a dor não precisa nos roubar a capacidade de amar, acreditar, reconstruir e viver.


Talvez Deus não lhe revele hoje todas as respostas que você procura. Talvez algumas circunstâncias permaneçam inexplicáveis. Mas, na caminhada com Cristo, você pode encontrar companhia para o percurso, coragem para enfrentar o presente e esperança para continuar caminhando.


Porque a fé não é uma explicação para cada sofrimento. É, muitas vezes, a possibilidade de continuar buscando sentido sem permitir que o sofrimento destrua toda a esperança.


E talvez seja justamente aí que a alma comece a compreender que, mesmo quando não consegue enxergar a saída, ainda pode encontrar um caminho.


Abilio Machado

Psicanalista e psicoterapeuta | Psicoteologia

GETSÊMANI: QUANDO A ALMA SE RENDE, MAS NÃO DEIXA DE SENTIR

 

GETSÊMANI: QUANDO A ALMA SE RENDE, MAS NÃO DEIXA DE SENTIR


Uma reflexão psicoteológica de Abilio Machado sobre a angústia, a entrega e a coragem de permanecer fiel quando a alma deseja fugir da dor.


Há momentos na vida em que o sofrimento não se manifesta no corpo, mas atravessa a alma de tal maneira que até a fé parece silenciar. São instantes em que a razão procura respostas, a emoção implora por alívio e o espírito se coloca diante de Deus sem saber se pede forças para continuar ou permissão para desistir.


Foi assim no Getsêmani.


Na noite que antecedeu sua crucificação, Jesus Cristo entrou em um jardim no Monte das Oliveiras e experimentou uma angústia tão profunda que, segundo o Evangelho de Lucas, seu suor se tornou como gotas de sangue que caíam ao chão.


Mas, para compreender a dimensão psicoteológica desse episódio, precisamos olhar além da cena religiosa. Precisamos enxergar o homem diante de sua própria humanidade, a consciência diante do inevitável e a fé diante daquilo que não pode ser evitado.


Getsêmani significa, tradicionalmente, “prensa de azeite”. E essa imagem nos oferece uma poderosa chave simbólica para refletir sobre a existência humana.


A azeitona precisa ser prensada para liberar o azeite. Mas o ser humano, quando submetido à pressão da vida, não necessariamente revela sua melhor versão. Às vezes, revela suas feridas, seus medos, suas contradições e tudo aquilo que passou anos tentando esconder de si mesmo.


A dor não transforma todos em pessoas melhores. Algumas pessoas amadurecem; outras endurecem. Algumas encontram sentido; outras se perdem tentando compreender o que lhes aconteceu.


O que faz a diferença não é o sofrimento em si, mas a maneira como o elaboramos, os recursos emocionais de que dispomos e o sentido que conseguimos construir a partir dele.


E é justamente aqui que Getsêmani deixa de ser apenas um lugar geográfico para se tornar uma experiência da alma.


### A angústia de Jesus e a humanidade que não podemos ignorar


Jesus não entrou naquele jardim demonstrando indiferença diante da morte. Ele orou, sentiu angústia e expressou o desejo de que aquele cálice fosse afastado, se essa fosse a vontade do Pai.


“Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua.” — Lucas 22:42.


Há uma profundidade psicológica extraordinária nessa oração.


Jesus não nega o que sente. Não disfarça sua angústia com uma aparência de invulnerabilidade. Não transforma a própria dor em espetáculo de força espiritual.


Ele expressa seu desejo de não sofrer e, ao mesmo tempo, entrega sua vontade a algo que considera maior do que si mesmo.


A verdadeira fé não exige que neguemos nossos sentimentos. Ela nos convida a atravessá-los sem permitir que sejam os únicos responsáveis por nossas decisões.


Quantas pessoas adoecem emocionalmente porque aprenderam que sentir medo é sinal de fraqueza? Quantas escondem o sofrimento atrás de discursos religiosos, como se admitir a própria angústia fosse confessar falta de fé?


A experiência do Getsêmani nos permite questionar essa ideia.


Sentir medo não significa necessariamente falta de coragem. Chorar não significa ausência de esperança. Pedir ajuda não significa fracasso espiritual.


A fé não elimina a humanidade. Pode, antes, oferecer um horizonte de sentido para que a humanidade encontre forças para continuar.


### O cálice: quando a consciência conhece o preço da escolha


Na linguagem bíblica, o cálice pode representar sofrimento, julgamento e destino. Na experiência humana, podemos compreendê-lo também como a consciência do preço que determinadas escolhas exigem.


Existem decisões que sabemos serem necessárias, mas que gostaríamos de não precisar tomar.


Encerrar um ciclo. Romper uma relação destrutiva. Reconhecer um erro. Assumir uma responsabilidade. Despedir-se de alguém. Recomeçar quando tudo dentro de nós pede permanência.


Nem toda dor pode ser evitada. Mas nem todo sofrimento precisa ser aceito passivamente.


Essa distinção é fundamental.


Jesus, no Getsêmani, não nos oferece uma justificativa para romantizar o sofrimento humano. Sua entrega pertence à singularidade de sua missão religiosa. Para nós, a reflexão é outra: como discernir entre a dor inevitável e aquela que continuamos alimentando por medo, culpa, dependência ou incapacidade de estabelecer limites?


A psicoteologia encontra aqui uma pergunta essencial:


Estou permanecendo porque reconheço um propósito ou porque tenho medo de abandonar aquilo que já não me faz bem?


Nem toda renúncia é virtude. Nem todo sacrifício é necessário. Nem toda permanência é fidelidade.


A maturidade espiritual também exige discernimento.


### O traidor, a mesa e as feridas da confiança


Judas não representa apenas a traição de um discípulo contra seu Mestre. Sua história também nos confronta com uma das experiências mais dolorosas da existência: descobrir que alguém em quem depositamos confiança pode agir contra nós.


A traição atinge muito mais do que o vínculo. Ela abala a percepção que temos de nós mesmos, nossa capacidade de confiar e, por vezes, nossa compreensão do mundo.


Quando a ferida vem de alguém próximo, a mente tenta reconstruir os acontecimentos. Procuramos sinais que não percebemos, palavras que agora parecem diferentes e respostas que talvez nunca recebamos.


Entretanto, há uma armadilha psicológica nessa busca: transformar a traição de alguém em uma sentença sobre nosso próprio valor.


A escolha do outro não define nossa dignidade.


O Getsêmani nos coloca diante de uma verdade difícil: podemos amar sem controlar, confiar sem possuir garantias e permanecer íntegros mesmo quando o outro escolhe a ruptura.


Perdoar, quando possível, não significa negar a violência sofrida, apagar as consequências ou restabelecer obrigatoriamente a relação. O perdão pode fazer parte de um processo de libertação interior, mas não dispensa limites, proteção e responsabilidade.


A fé que acolhe a misericórdia também precisa compreender a justiça.


### O primeiro Adão e o último Adão: duas maneiras de responder à vontade


Na leitura cristã, a narrativa do Éden e a experiência do Getsêmani podem ser colocadas em diálogo.


No Éden, a humanidade é apresentada diante da possibilidade de escolher entre a orientação divina e a própria vontade. No Getsêmani, Jesus expressa seu desejo, mas submete sua vontade à do Pai.


A comparação não precisa ser entendida como uma condenação da vontade humana. Afinal, desejar alívio diante da dor é parte da condição humana.


O ponto central está no discernimento: quando minha vontade nasce de uma necessidade legítima e quando ela se torna uma fuga daquilo que reconheço como verdadeiro?


A psicologia nos ensina a observar nossos impulsos, compreender nossas motivações e reconhecer os mecanismos pelos quais evitamos a dor. A teologia, por sua vez, convida o cristão a examinar sua relação com Deus, com a responsabilidade e com o propósito de sua existência.


Quando essas perspectivas dialogam com respeito, abre-se um espaço fértil para o autoconhecimento.


Não se trata de eliminar o conflito interior, mas de aprender a escutá-lo.


Porque a pessoa madura não é aquela que nunca hesita. É aquela que consegue reconhecer a própria hesitação sem entregar a ela, automaticamente, o comando de sua vida.


### O Calvário foi a cruz; o Getsêmani foi a decisão


Há uma diferença simbólica importante entre esses dois momentos.


No Calvário, contemplamos o sacrifício consumado. No Getsêmani, contemplamos a angústia de quem ainda está diante do caminho que se aproxima.


O Calvário nos fala das consequências. O Getsêmani nos convida a olhar para o instante anterior à decisão, quando ninguém pode escolher em nosso lugar.


Todos nós temos nossos jardins.


Alguns são silenciosos. Outros são atravessados por lágrimas, diagnósticos, perdas, crises familiares, conflitos de consciência e noites em que o sono não chega porque a mente insiste em procurar uma saída.


Nem sempre teremos respostas imediatas. Nem sempre sentiremos paz. Nem sempre conseguiremos compreender por que determinada experiência nos alcançou.


Mas podemos aprender a não confundir angústia com abandono, silêncio com ausência e fragilidade com incapacidade.


E, quando a dor ultrapassar nossos recursos, buscar ajuda psicológica, médica ou espiritual não será sinal de uma fé menor. Será um gesto de responsabilidade com a vida que recebemos.


### A pergunta que o Getsêmani deixa para nós


Talvez o maior ensinamento desse jardim não esteja apenas no sofrimento de Jesus, mas na honestidade de sua oração.


Ele expressou o que desejava e, ainda assim, permaneceu comprometido com aquilo que reconhecia como sua missão.


Isso nos ensina que a entrega verdadeira não começa quando deixamos de sentir medo. Começa quando somos capazes de olhar para o medo sem mentir para nós mesmos.


Não precisamos fingir força diante de Deus. Não precisamos apresentar uma alma impecável para merecer acolhimento. E não precisamos transformar cada sofrimento em uma explicação definitiva sobre os desígnios divinos.


Às vezes, a oração mais sincera não é aquela que demonstra certeza, mas aquela que consegue dizer: “Pai, eu não queria passar por isso. Estou com medo. Não compreendo tudo. Mas preciso de luz para saber como seguir.”


Getsêmani é o lugar simbólico onde a fé encontra a angústia, a vontade encontra o propósito e a humanidade deixa de fingir que é invulnerável.


Talvez você esteja vivendo o seu agora.


Talvez esteja diante de uma decisão que lhe custa lágrimas. Talvez esteja tentando compreender uma perda, uma mudança ou um sofrimento que não escolheu.


Então, antes de perguntar por que Deus permite determinadas experiências, experimente também perguntar a si mesmo:


O que esta situação está revelando sobre meus medos, minhas escolhas, meus limites e a maneira como tenho vivido minha fé?


Não porque toda dor esconda uma lição. Não porque Deus precise nos ferir para nos ensinar. Mas porque, mesmo quando não escolhemos aquilo que nos acontece, podemos buscar caminhos para não permitir que a dor seja a única autora da nossa história.


E lembre-se: a fé não precisa silenciar a angústia para continuar sendo fé. Às vezes, é justamente dentro da angústia que aprendemos a orar com 

mais verdade.


— Abilio Machado | Psicanalista e Psicoterapeuta


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Edith Piaf - uma voz inesquecível

 


Antes de se tornar uma das vozes mais famosas da França, Édith Piaf passou parte da infância sendo cuidada pelas mulheres que trabalhavam numa casa de prostituição. Décadas depois, quando m*rreu como uma estrela mundial, a Igreja Católica se recusou a realizar seu funeral religioso. Ainda assim, cerca de 40 mil pessoas foram às ruas para se despedir dela.


A infância de Piaf esteve muito distante dos grandes palcos. Ainda pequena, viveu em Bernay, na Normandia, onde sua avó paterna administrava uma casa de prostituição. As mulheres que trabalhavam ali ajudaram a alimentar, cuidar e dar carinho à menina.


Mais tarde, Édith passou a acompanhar o pai, que trabalhava como artista ambulante. Foi nessa época que começou a cantar nas ruas, usando a voz para chamar a atenção das pessoas e ganhar algum dinheiro.


Aquela menina acabaria saindo das ruas de Paris para se tornar um dos maiores nomes da música francesa.


Mas a fama não tornou sua vida mais fácil.


Em 1949, Piaf vivia um relacionamento com Marcel Cerdan, campeão mundial de boxe. Ele era casado e tinha três filhos, mas o romance dos dois era conhecido. Em 28 de outubro daquele ano, Cerdan embarcou em um avião rumo a Nova York para encontrá-la.


Ele nunca chegou.


O avião caiu nos Açores, e Cerdan m*rreu aos 33 anos. Piaf perdeu o homem por quem estava profundamente apaixonada. Uma de suas músicas mais conhecidas, “Hymne à l'amour”, ficou para sempre ligada àquela relação.


Os anos seguintes foram marcados por apresentações, problemas de saúde e tratamentos médicos. Acidentes de carro e dores constantes contribuíram para que ela desenvolvesse dependência de morfina, agravando ainda mais seu estado físico.


Em 1960, quando muita gente já imaginava que sua carreira estivesse chegando ao fim, Piaf voltou ao famoso palco do Olympia, em Paris, com uma música que parecia resumir sua própria vida:


“Non, je ne regrette rien.”


“Não, eu não me arrependo de nada.”


A canção havia sido escrita por Charles Dumont e Michel Vaucaire, mas na voz de Piaf ganhou outro peso. Era cantada por uma mulher que conhecera pobreza, perdera a única filha ainda pequena, enfrentara doenças e havia perdido um dos grandes amores de sua vida.


Três anos depois, em 10 de outubro de 1963, Édith Piaf m*rreu aos 47 anos.


Até sua despedida causou controvérsia.


A Igreja Católica de Paris não realizou um funeral religioso oficial para a cantora, principalmente por causa de sua vida conjugal e de um segundo casamento realizado numa cerimônia ortodoxa. Um padre chegou a rezar junto ao túmulo, mas não houve missa de funeral.


O público, porém, apareceu em massa.


Em 14 de outubro, cerca de 40 mil pessoas se reuniram no cemitério Père-Lachaise para acompanhar seu enterro. Flores tomaram o local, e milhares continuaram chegando mesmo depois que o caixão já havia sido sepultado.


A menina que um dia recebeu cuidados das mulheres de uma casa de prostituição terminou a vida sendo acompanhada por uma multidão.


E uma frase que cantou poucos anos antes acabou se tornando quase inseparável de sua história:


“Não, eu não me arrependo de nada.”

domingo, 11 de outubro de 2026

A HISTÓRIA DA CANÇÃO DO EXPEDICIONÁRIO: POESIA, PÁTRIA E MEMÓRIA DA FEB

 

A HISTÓRIA DA CANÇÃO DO EXPEDICIONÁRIO: POESIA, PÁTRIA E MEMÓRIA DA FEB


“Você sabe de onde eu venho?”


Poucas canções militares brasileiras carregam tanta emoção, identidade e saudade quanto a Canção do Expedicionário, eternizada na memória dos nossos soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que lutaram na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.


Por trás de seus versos está uma história que une literatura, música, patriotismo e o desejo de voltar para casa.


🎼 Os autores e a origem da canção


A versão que se tornou célebre tem:


- Letra: Guilherme de Almeida, poeta, tradutor e membro da Academia Brasileira de Letras.

- Música: Spartaco Rossi, maestro e compositor.


Durante a Segunda Guerra Mundial, outra composição, de Luiz Peixoto e Alda Caminha, também foi oficializada pelo Ministério da Guerra. Entretanto, foi a versão de Guilherme de Almeida e Spartaco Rossi que conquistou o coração dos pracinhas e se consolidou como um dos maiores símbolos musicais da FEB.


🇧🇷 Uma declaração de amor ao Brasil


A Canção do Expedicionário não é apenas um hino militar. É uma verdadeira declaração de amor à terra natal.


Seus versos percorrem a diversidade geográfica e cultural brasileira, evocando o sertão, os pampas, os cafezais, os seringais, os montes e as praias. Cada paisagem representa um pedaço da Pátria que os soldados carregavam na memória enquanto enfrentavam os perigos da guerra.


A saudade de casa, a esperança de sobreviver e o desejo de retornar ao Brasil dão à composição uma dimensão profundamente humana.


O soldado não é apresentado apenas como combatente, mas como filho, cidadão e homem que deseja reencontrar suas raízes.


📚 A inspiração na literatura brasileira


Uma das curiosidades mais marcantes da canção é sua relação com a tradição literária nacional, especialmente com a famosa Canção do Exílio, escrita por Gonçalves Dias em 1843.


Assim como o poeta romântico expressou a saudade da pátria distante, Guilherme de Almeida transformou esse sentimento em versos que acompanhavam os brasileiros enviados à guerra.


A ideia de que nenhum lugar substitui a terra natal atravessa as duas obras. Em ambas, a distância faz com que o Brasil adquira um valor ainda mais profundo: o de lar, pertencimento e identidade.


✌️ O símbolo da vitória


Outro elemento significativo é a presença da letra “V”, associada à vitória.


A referência remete ao conhecido símbolo internacional da vitória, popularizado durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente por Winston Churchill.


Na canção, a vitória não significa apenas derrotar o inimigo. Ela também representa a esperança de sobreviver à guerra e regressar ao convívio daqueles que ficaram esperando.


🎙️ A gravação histórica


A Canção do Expedicionário foi gravada por Francisco Alves, um dos grandes nomes da música popular brasileira, em 8 de setembro de 1944, com acompanhamento da Orquestra Odeon e regência do maestro Fon-Fon.


A gravação contribuiu para difundir a composição e fortalecer sua ligação com a memória dos combatentes brasileiros.


🗺️ Um retrato poético do Brasil


Guilherme de Almeida reuniu referências que ultrapassam a paisagem física e revelam a riqueza cultural do país.


A natureza: pampas, sertões, cafezais, seringais, montanhas e praias.


A cultura popular: expressões do cotidiano, costumes, lendas e referências literárias, incluindo Moema e Iracema.


A religiosidade: manifestações da fé popular, com referências a Nossa Senhora Aparecida e ao Senhor do Bonfim.


Essa diversidade transforma a canção em uma espécie de mapa afetivo do Brasil, construído com palavras, lembranças e sentimentos.


🎖️ Mais que uma canção, um legado


A Canção do Expedicionário permanece como testemunho de uma geração que atravessou o oceano para combater na Itália, enfrentou o rigor do inverno europeu e participou de batalhas que marcaram a história brasileira, como Monte Castello e Montese.


Mas seu legado vai além dos feitos militares.


Ela nos lembra que, por trás de cada uniforme, existe uma história; por trás de cada combatente, uma família; e, por trás de cada missão, a esperança de voltar para casa.


A verdadeira grandeza dessa canção está em nos fazer compreender que amar a Pátria não é apenas defendê-la em combate, mas também preservar a memória daqueles que, em seu nome, enfrentaram a distância, o medo e a saudade.


Honrar os pracinhas é manter viva a história. É reconhecer o sacrifício sem esquecer a humanidade de cada soldado. É compreender que a memória da FEB pertence não apenas aos quartéis, mas à própria história do Brasil.


Que a voz dos expedicionários jamais se cale na memória nacional!


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5 negros ilustres do Brasil

 

A história do Brasil foi construída por inúmeras personalidades negras que deixaram contribuições profundas na política, na literatura, na engenharia, no esporte e na luta pela liberdade. Conhecer essas trajetórias é também compreender melhor a formação do nosso país.

Nilo Peçanha foi presidente do Brasil entre 1909 e 1910 e é frequentemente reconhecido como o primeiro presidente negro do país. Antes de chegar à Presidência, construiu uma longa carreira política e, durante seu governo, esteve ligado a iniciativas importantes na área da educação profissional.

Machado de Assis é um dos maiores nomes da literatura brasileira. Escritor, cronista, poeta e contista, foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Obras como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba continuam sendo estudadas e lidas até hoje.

André Rebouças foi engenheiro, inventor, professor e abolicionista. Participou de importantes projetos de infraestrutura no século XIX e defendia ideias de modernização para o Brasil. Também teve forte atuação no movimento pelo fim da escravidão e na defesa de melhores condições para a população negra após a abolição.

Pelé, nascido Edson Arantes do Nascimento, transformou-se em um dos maiores símbolos do futebol mundial. Foi campeão de três Copas do Mundo com a Seleção Brasileira — em 1958, 1962 e 1970 — e ajudou a projetar o futebol brasileiro internacionalmente. Por sua trajetória extraordinária, é frequentemente citado entre os maiores jogadores de todos os tempos.

Luiz Gama foi jornalista, escritor, advogado e um dos mais importantes abolicionistas brasileiros do século XIX. Mesmo sem formação universitária tradicional em Direito, utilizou seus conhecimentos jurídicos para defender pessoas negras escravizadas e participou ativamente da luta contra a escravidão.

Esses cinco nomes representam apenas uma pequena parte da enorme contribuição da população negra para a história brasileira. Suas trajetórias atravessam diferentes épocas e áreas, mas possuem algo em comum: ajudaram a transformar o Brasil e deixaram legados que continuam presentes na nossa sociedade. 🇧🇷📚✊🏿

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terça-feira, 6 de outubro de 2026

QUANDO A ALMA TIRA A MÚSICA PARA DANÇAR AO SOM DA POESIA

 


QUANDO A ALMA TIRA A MÚSICA PARA DANÇAR AO SOM DA POESIA


Há um instante, raro e quase clandestino, em que a alma se levanta da cadeira onde passou a vida inteira assistindo ao baile. Não pede licença ao corpo, que ainda hesita, nem à razão, que ainda faz suas contas no canto escuro do salão. Atravessa o assoalho, detém-se diante da música, que sempre esteve ali, encostada à parede do mundo como uma dama que ninguém ousou convidar, e lhe estende a mão. A orquestra que então começa a tocar não tem cordas, nem metais, nem tambores. Tem palavras.


Repare na estranheza do gesto. A ordem habitual das coisas manda que a poesia dance ao som da música, que o verso se curve ao compasso, que a letra sirva à melodia como o vestido serve ao corpo. Mas aqui a hierarquia se inverte, e a inversão não é capricho, é revelação. Mallarmé sonhou um dia que a poesia tomasse de volta à música aquilo que lhe pertencia, e talvez não soubesse que esse resgate só se cumpre quando uma terceira presença entra em cena, alguém que não é som nem sentido, mas que conhece a gramática secreta de ambos. Essa presença é a alma. Só ela pode tirar a música para dançar, porque só ela sabe que a música, sozinha, é pura intensidade sem rosto, e que a palavra, sozinha, é rosto sem pulsação.


Schopenhauer dizia que a música não imita as coisas, mas a própria vontade que as move, que ela fala a língua da essência sem precisar passar pelo mundo das representações. Por isso é soberana, e por isso é solitária. Uma rainha que governa tudo e não toca em nada. Quando a alma a conduz ao centro do salão e lhe pede que obedeça, por uma vez, ao passo da poesia, está pedindo que a vontade aceite um nome, que o infinito consinta em ter contorno. E a música, que jamais precisou de ninguém, aceita. Aceita porque também ela, no fundo de sua soberania, estava cansada de dançar sem par.


Platão, no Timeu, ensina que os deuses nos deram a harmonia e o ritmo não para o prazer vão dos ouvidos, mas para que as revoluções desordenadas da alma, desviadas desde o nascimento, voltassem a girar em concordância com a ordem do céu. A dança, portanto, não é fuga do mundo, é retorno a ele. Quando a alma se move ao som da poesia, não está se perdendo, está se reencontrando na cadência que esqueceu. Cada verso é um degrau de volta à forma, cada rima um eco do primeiro acorde que soou antes de haver ouvidos para escutá-lo. O poema não inventa o ritmo, recorda-o, como quem reconhece numa praça estrangeira a voz de alguém que amou na infância.


Agostinho, nas Confissões, ao recitar um salmo de memória, percebeu que o tempo não está nas coisas, mas no espírito que se estende. Antes de começar, o salmo inteiro repousa na expectativa; à medida que avança, uma parte migra para a lembrança, e entre uma e outra a atenção presente atravessa, como um fio, aquilo que ainda será e aquilo que já foi. Essa distensão da alma é exatamente a forma de uma dança. Dançar é estar inteiramente num passo que só faz sentido por causa do passo anterior e em vista do seguinte. É habitar o presente sem jamais possuí-lo. A alma que dança com a música ao som da poesia descobre que o tempo, longe de ser a prisão que a consome, é o próprio salão onde ela gira, e que sem ele não haveria baile algum.


Valéry, com aquela precisão que só os céticos alcançam, observou que a prosa está para a poesia assim como a marcha está para a dança. A marcha tem destino, chega a algum lugar e ali se extingue, satisfeita. A dança não vai a parte alguma, e justamente por isso não termina quando para. Fica no corpo, fica no chão, fica no ar que deslocou. Eis por que a alma, quando dança, não procura utilidade, não reivindica conclusão, não exige que o poema lhe entregue uma tese. Ela sabe que certas verdades não se demonstram, apenas se executam. Há coisas que só se compreendem rodopiando.


E é nesse rodopio que algo extraordinário acontece. A música, conduzida pela alma, começa a ganhar sentido sem perder o mistério. A poesia, servindo de orquestra, começa a ganhar corpo sem perder o espírito. E a alma, mediadora desse casamento improvável, descobre que não é nem senhora nem serva dos dois, mas o espaço vivo onde eles se tocam. Talvez seja isso o que Hölderlin quis dizer ao afirmar que o homem habita poeticamente a terra. Não que o homem escreva poemas sobre a terra, mas que a terra só se torna morada quando é percorrida em ritmo, quando cada gesto cotidiano carrega, oculta, uma medida que o ultrapassa.


Nietzsche confessou que só poderia crer num deus que soubesse dançar, e chamou de perdido o dia em que não se dançou ao menos uma vez. A frase costuma ser lida como provocação, mas é antes uma teologia da leveza. O que pesa, o que se arrasta, o que se recusa ao compasso, não pode ser divino, porque o divino é o que se move sem esforço aparente, como o astro que gira sem saber que gira. A alma que tira a música para dançar ao som da poesia ensaia, por alguns minutos, essa leveza dos deuses. E não importa que seja breve. A eternidade não se mede pela duração, mas pela intensidade com que um instante consegue conter todos os outros.


Depois a orquestra silencia. As palavras repousam nas estantes, a música volta a encostar-se na parede do mundo, e a alma retorna à sua cadeira, um pouco ofegante, um pouco envergonhada da própria ousadia. Os que estavam no salão talvez nem tenham notado. O corpo continua cansado, a razão retoma suas contas, o dia segue com seus compromissos e suas filas. Mas algo mudou, e mudou para sempre. O assoalho guarda a memória dos passos. A música sabe agora que pode ser convidada. A poesia sabe que pode reger. E a alma, sentada outra vez entre os espectadores, já não assiste ao baile da mesma maneira, porque aprendeu que a vida não é a música que nos toca, nem a palavra que nos explica, mas a coragem de atravessar o salão quando ninguém mais se levanta.


Por Oliver Harden

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O genocídio de homossexuais no período nazista

 


Na Alemanha nazi-sta, homens podiam ser presos por se relacionar com outros homens. Milhares foram enviados a campos de concentração e marcados com um triângulo rosa.


O regime nazista usou uma antiga lei alemã, o parágrafo 175, para criminalizar relações entre homens. Em 1935, a lei foi endurecida e passou a permitir punições para uma gama ainda maior de contatos íntimos.


Segundo o Museu do Holocausto dos Estados Unidos, cerca de 100 mil homens foram presos, mais de 53 mil condenados e entre 5 mil e 15 mil enviados para campos de concentração.


Dentro desses campos, os presos recebiam triângulos coloridos costurados no uniforme para indicar por que haviam sido detidos. Homens perseguidos por relações com outros homens eram identificados pelo triângulo rosa.


As condições eram brutais. Uma estimativa do sociólogo Rüdiger Lautmann calculou que até 60% desses prisioneiros podem ter morrido, embora os registros incompletos impeçam saber o número exato.


A fotografia foi feita em Sachsenhausen, perto de Berlim, em dezembro de 1938. 


O homem da frente, identificado apenas pelo número 1507 durante anos, chamava-se Hermann Wolf.


Mas há um detalhe importante: Wolf estava registrado como “asocial”, categoria usada pelos nazistas para pessoas consideradas indesejáveis ou avessas ao trabalho. 


A foto acabou sendo reproduzida durante décadas para representar os perseguidos pelo triângulo rosa, embora não seja possível afirmar que todos os homens daquela fila estivessem presos por esse motivo.


O fato histórico, porém, não depende da fotografia: milhares de homens foram perseguidos, presos e enviados a campos de concentração simplesmente por se relacionarem com outros homens.


Toda curiosidade histórica, por mais simples ou estranha que pareça, tem algo a ensinar e a se perguntar: o genocídio cruel contra a opção identitária do outro  realmente acabou? E por que a vida sexual do outro me incomoda tanto ?


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FONTE: 


Joanna Ostrowska. Oni. Homoseksualiści w czasie II wojny światowej. Wydawnictwo Krytyki Politycznej, 2021; United States Holocaust Memorial Museum. “Gay Men under the Nazi Regime.” Holocaust Encyclopedia, 2021.