terça-feira, 5 de maio de 2026

Bodes e a Expiação

 



VELHO TESTAMENTO COMENTADO


Bodes e a Expiação

O Dia da Expiação, ou Yom Kippur, era o único dia no ano em que o sumo sacerdote israelita tinha permissão para entrar no Santo dos Santos — o espaço mais sagrado dentro do Tabernáculo e, posteriormente, dos templos antigos. Como parte do ritual estabelecido para essa data, o sumo sacerdote deveria levar dois bodes ao Tabernáculo (ou Templo) e lançar sortes sobre cada um deles.

Um animal era designado como o "bode do Senhor" e o outro como o "bode emissário" (ou Azazel). Uma fita vermelha era amarrada nos chifres do bode emissário para distingui-lo do outro. O bode do Senhor era sacrificado, e seu sangue, aspergido sobre a Arca da Aliança, no Santo dos Santos. Já o bode emissário era apresentado diante do sumo sacerdote, que impunha as mãos sobre a cabeça do animal, transferindo simbolicamente para ele todos os pecados de Israel. Em seguida, o animal era conduzido ao deserto e solto (ver Levítico 16:7-10).

O bode oferecido em sacrifício simboliza claramente Cristo, que realizou a Expiação por nós. O bode emissário, ao ser levado para o deserto, simboliza o pecado sendo removido do meio do povo. No Novo Testamento, encontramos um paralelo interessante:

“Ora, por ocasião da festa, costumava o governador soltar um preso, escolhendo o povo aquele que quisesse. E tinham então um preso bem conhecido, chamado Barrabás. Portanto, reunindo-se eles, disse-lhes Pilatos: Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?” (Mateus 27:15-17).

Cedendo ao clamor da multidão, Pilatos soltou Barrabás, enquanto Jesus foi levado para ser crucificado. Barrabás, que personificava a rebelião e a violência, acabou cumprindo o papel do bode emissário: ele foi solto, mas ainda carregava seus pecados consigo. Jesus, por sua vez, cumpriu o papel do "bode do Senhor", entregando Sua vida para expiar os pecados de toda a humanidade.

No ritual do Dia da Expiação, um animal morre para que o pecado possa ser extirpado. Segundo a tradição do Segundo Templo, o bode emissário era levado a um penhasco específico no deserto e empurrado para a morte, garantindo que o animal (e, simbolicamente, o pecado) jamais retornasse.¹ Ao ser afastado do templo de Deus e morto, o bode emissário tipificava a consequência mais grave do pecado: a morte espiritual.

O sangue do bode sacrificado era aspergido sete vezes sobre a arca da aliança (Levítico 16:14-15). Nas Escrituras, o número sete geralmente simboliza perfeição, completude e totalidade.² Isso reforça que Cristo realizou uma Expiação perfeita e completa por cada um de nós.

Notas:

1. Mishná Yoma 6:2-6

2. Corbin Volluz; “A Study in Seven: Hebrew Numerology in the Book of Mormon”, BYU Studies Quarterly: Vol. 53 : Iss. 2 , Article 7. Disponível em: scholarsarchive.byu.edu/byusq/vol53/iss2/7

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