Eu Não Quero Que Meu Filho Apenas Acredite. Quero Que Ele Saiba Por Que Acredita.
Por Abilio Machado
Foi numa noite de sábado, depois de uma reunião do quórum de élderes, que ouvi uma história que não saiu mais da minha cabeça.
Um irmão da Igreja contou sobre um jovem que havia crescido no evangelho. Frequentou a Primária, participou do Seminário, serviu em chamados, conhecia escrituras de cor e sempre parecia ter um testemunho firme.
Então veio a faculdade.
Vieram as perguntas.
Vieram os professores, os colegas, os vídeos na internet, os influenciadores ateus e os discursos que pareciam intelectualmente sofisticados.
Pouco tempo depois, aquele rapaz já não sabia mais no que acreditava.
Naquela noite, ao chegar em casa, encontrei meu filho Caio sentado à mesa, estudando sua lição do Seminário.
Observei-o por alguns minutos.
Ele conhecia histórias.
Conhecia personagens.
Conhecia acontecimentos.
Mas uma pergunta me inquietou:
"Será que ele sabe por que acredita?"
Sentei-me ao seu lado.
— Caio, por que você acredita que Jesus Cristo vive?
Ele respondeu rapidamente:
— Porque a Bíblia ensina isso.
— E como sabemos que a Bíblia é confiável?
Ele pensou.
Ficou em silêncio.
Então perguntei:
— E por que você acredita que o Livro de Mórmon é verdadeiro?
A resposta veio ainda mais tímida:
— Porque o profeta disse...
Novamente o silêncio.
Naquele instante percebi algo importante.
Meu filho conhecia muitas respostas.
Mas não conhecia as razões por trás delas.
E talvez a culpa não fosse dele.
Talvez fosse minha.
Talvez eu tivesse ensinado o "o quê", mas não o "porquê".
Durante anos enfatizamos a memorização de histórias sagradas.
Mas nem sempre ensinamos nossos filhos a refletir sobre as evidências, a lógica, a história e os testemunhos que sustentam essas verdades.
Comecei então a estudar com mais profundidade.
Voltei aos Evangelhos.
Voltei às epístolas.
Voltei ao Livro de Mórmon.
E descobri algo extraordinário.
A fé restaurada não pede que abandonemos a razão.
Ela convida a razão a caminhar junto com a revelação.
Quando lemos os Evangelhos, encontramos testemunhas oculares de Cristo.
Quando estudamos o Livro de Mórmon, encontramos outro testemunho de Jesus Cristo.
A Bíblia declara:
"Na boca de duas ou três testemunhas toda palavra será estabelecida."
E o Livro de Mórmon cumpre exatamente esse princípio.
Ele não substitui a Bíblia.
Ele a fortalece.
Ele confirma que Jesus nasceu, viveu, morreu e ressuscitou.
Ele testifica que Cristo fala a todos os povos.
Ele reafirma doutrinas fundamentais da Expiação, do arrependimento, da graça e da salvação.
Alguns perguntam:
"Como sabemos que o Livro de Mórmon não foi alterado ao longo do tempo?"
A mesma pergunta é feita sobre a Bíblia.
E a resposta é semelhante.
Nenhum livro sagrado é aceito apenas porque alguém o declarou verdadeiro.
Ele é examinado.
Estudado.
Comparado.
Testado.
Mas, acima de tudo, existe um convite único feito pelo próprio Livro de Mórmon:
Ler.
Refletir.
E perguntar sinceramente a Deus.
Milhões de pessoas ao redor do mundo afirmam ter recebido essa confirmação espiritual.
Eu sou uma delas.
Meu filho precisa conhecer isso.
Não apenas repetir isso.
Precisa compreender por que acredita.
Precisa entender por que a Expiação era necessária.
Por que a Ressurreição muda tudo.
Por que Cristo não é apenas um mestre moral.
Por que a Restauração faz sentido.
Por que profetas modernos são importantes.
Por que a revelação continua.
E também precisa conhecer os questionamentos que encontrará.
Karl Marx criticou a religião como instrumento social.
Friedrich Engels questionou instituições tradicionais.
Vladimir Lenin promoveu o materialismo ateu.
Alexandra Kollontai defendia transformações radicais na estrutura familiar.
Antonio Gramsci analisou a influência cultural das instituições religiosas.
Esses autores fazem parte da história do pensamento humano.
Devem ser estudados.
Mas não temidos.
A fé verdadeira não teme perguntas.
A fé verdadeira cresce quando é examinada.
Meu receio nunca foi que Caio encontrasse ideias diferentes.
Meu receio era que ele as encontrasse sem estar preparado para pensar.
Porque o problema não é uma pergunta difícil.
O problema é nunca ter aprendido a raciocinar sobre a própria fé.
Foi então que mudamos nossa rotina.
Começamos a estudar os Evangelhos juntos.
Não apenas ler.
Estudar.
Questionar.
Pesquisar.
Refletir.
Passamos a dar mais atenção ao Seminário.
Não como uma obrigação.
Mas como uma oportunidade.
Ali, os jovens têm contato diário com as escrituras, com a história sagrada e com princípios que os ajudarão quando chegarem à universidade, ao mercado de trabalho e aos desafios da vida adulta.
Hoje nossas conversas são diferentes.
Caio faz perguntas.
Muitas perguntas.
E isso me alegra.
Porque perguntas sinceras são sinais de crescimento.
Prefiro um filho que questione para compreender do que um filho que apenas repita sem entender.
O testemunho não é construído apenas pela emoção.
Nem apenas pelo intelecto.
É construído quando mente, coração e Espírito caminham juntos.
Meu desejo não é que Caio vença debates.
Meu desejo é que ele conheça Jesus Cristo.
Mas para permanecer firme em um mundo cheio de vozes conflitantes, ele precisará de mais do que frases prontas.
Precisará conhecer as escrituras.
Precisará estudar os Evangelhos.
Precisará compreender o Livro de Mórmon.
Precisará desenvolver um testemunho próprio.
Porque um dia eu não estarei ao seu lado para responder às perguntas.
Mas espero que, quando esse dia chegar, ele saiba não apenas no que acredita.
Espero que saiba por que acredita.
E que sua fé esteja edificada sobre a rocha que é Jesus Cristo, e não sobre a areia das opiniões passageiras deste mundo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário