terça-feira, 24 de março de 2026

O Batistério - crônica de O Homem Sentado no Último Banco da Igreja.


Sentado no banco da igreja, olhando fixamente para o nada — ou talvez para tudo —, o homem percebe que algumas águas não ficam apenas nos templos… elas começam a brotar dentro da gente.



O Homem Sentado no Último Banco da Igreja

 — O Batistério

Havia algo diferente naquele dia.

O homem não estava apenas sentado no banco da igreja — embora ali estivesse, como sempre, no mesmo lugar, no mesmo canto onde o corpo repousa, mas a alma vagueia. Havia um peso leve, desses que não esmagam, mas também não deixam em paz.

Era dia de templo.

E só quem já sentiu esse chamado silencioso sabe: não é um compromisso, é quase uma convocação íntima — como se algo antigo dentro de você fosse despertado, sussurrando nomes que você nunca pronunciou.

Ele pensava no batistério.

Não como um espaço físico, não como uma estrutura dentro do templo de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mas como um lugar onde o tempo parece desistir de ser linha e se curva em círculo.

Ali, dizem, os vivos entram na água pelos mortos.

Mas naquele dia, sentado no banco, ele se perguntou:

— Será que são só eles que precisam atravessar essa água… ou sou eu também?

Ele nunca conheceu a maioria daqueles nomes.

Alguns eram apenas registros, datas, fragmentos de existência.

Gente que viveu, chorou, amou — e desapareceu antes que alguém pudesse lembrar direito.

E ainda assim…

Havia uma estranha sensação de responsabilidade.

Não de obrigação fria, mas de vínculo.

Como se, de alguma forma, ele fosse continuação de histórias interrompidas.

O homem fechou os olhos.

E, por um instante, o banco da igreja deixou de ser madeira e se tornou memória.

Lembrou-se das próprias ausências.

Dos seus mortos.

Das palavras não ditas.

Dos perdões que nunca encontrou coragem para oferecer.

E então compreendeu algo que nunca tinha dito em voz alta:

O batistério não é apenas sobre eles… é também sobre tudo em mim que ainda não foi reconciliado.

A água, afinal, não é só símbolo de limpeza.

É travessia.

É útero e túmulo ao mesmo tempo.

É morte e recomeço.

Entrar no batistério talvez seja, psicologicamente, um dos atos mais profundos que alguém pode viver sem perceber completamente o que está fazendo.

Porque ali, ao dizer um nome que não é o seu, você também toca partes de si que ficaram esquecidas.

Partes que pedem:

sentido

pertencimento

redenção

Ele pensou nos bois que sustentam a fonte.

Nunca tinha dado muita atenção àquilo.

Mas naquele dia… fez sentido.

Doze.

Como se algo dissesse silenciosamente:

Há uma estrutura invisível sustentando tudo isso — uma história maior que você, uma fé que te antecede, uma esperança que não começou em você e não termina em você.

O homem respirou fundo.

E, pela primeira vez, não sentiu o batistério como um lugar distante dentro de um templo.

Sentiu como um espaço interno.

Um lugar dentro dele onde ainda havia nomes não reconciliados.

Rostos não compreendidos.

E, talvez, até versões de si mesmo que precisavam ser “batizadas” — não no sentido ritual, mas no sentido de serem acolhidas, compreendidas, reintegradas.

Levantou-se devagar.

Não havia pressa.

Nunca houve.

Porque certas águas não se atravessam com o corpo apressado —

mas com a alma disponível.

E enquanto caminhava, uma última pergunta o acompanhava, não como dúvida, mas como convite:

Quem, em mim, ainda espera por esse mergulho?


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