segunda-feira, 23 de março de 2026

Sobre lugares, vozes e aquilo que nos habita

 Sentado no vaso sanitário, ainda tentando entender o peso de certas conversas que ouvi no domingo, percebi: tem gente que senta ao nosso lado… mas levanta levando um pouco da nossa esperança embora.



O Homem Sentado no Último Banco da Igreja

Sobre lugares, vozes e aquilo que nos habita

Naquele domingo, ele chegou mais cedo do que de costume.

Não por disciplina…

Mas por cansaço.

Sentou-se, como sempre, no último banco — o lugar onde ninguém pergunta muito, onde os olhares não insistem, onde é possível existir sem precisar explicar.

A igreja ainda estava vazia.

E o silêncio… ah, o silêncio não julgava.

Mas bastaram alguns minutos para que as primeiras pessoas começassem a chegar.

E com elas, vieram também as palavras.

— “Você viu o que aconteceu com fulano?”

— “Menina, aquilo ali já era esperado…”

— “Eu sempre disse que não prestava…”

Ele não olhou para trás.

Mas ouviu tudo.

Cada frase parecia mais afiada do que a anterior. Não eram apenas comentários… eram pequenas sentenças, lançadas com naturalidade, como se falar da vida alheia fosse uma liturgia paralela.

Ele respirou fundo.

E, por um instante, sentiu algo estranho:

não era raiva… era tristeza.

Porque ele reconhecia aquele lugar.

Não o banco…

mas aquele tipo de conversa.

Já esteve ali muitas vezes — não apenas ouvindo, mas participando. Já encontrou alívio momentâneo ao falar de outros, como quem tenta esquecer de si mesmo.

Mas naquele dia… algo havia mudado.

Talvez o cansaço tivesse aberto um espaço novo dentro dele.

Um espaço onde certas palavras já não cabiam mais.

Ele abaixou a cabeça.

E, em silêncio, uma pergunta começou a ecoar dentro dele:

“Quando foi que deixamos de falar de sonhos… para falar de pessoas?”

O culto começou.

Os cânticos preencheram o ambiente, mas ele ainda estava preso àquela inquietação.

Lembrou-se de quando era mais jovem.

Havia brilho nas conversas, planos sendo construídos, ideias que pareciam maiores do que o medo.

As pessoas falavam do que queriam ser…

não do que os outros haviam feito.

Mas, com o tempo, algo se perdeu.

Talvez a frustração tenha substituído a esperança.

Talvez as feridas tenham encontrado na crítica uma forma de se expressar.

Talvez seja mais fácil falar do erro do outro do que encarar o próprio vazio.

Ele levantou os olhos.

Lá na frente, o pregador falava sobre transformação, sobre vida nova… mas o homem no último banco pensava em algo mais simples — e talvez mais difícil:

o tipo de conversa que alimenta a alma.

Porque ele entendeu, ali, quase como uma revelação mansa:

Existem lugares onde você se senta…

e sai menor do que entrou.

E existem lugares onde você se senta…

e algo dentro de você volta a respirar.

Não é sobre o espaço físico.

É sobre as palavras que circulam nele.

Ele então fez uma oração curta, quase tímida:

“Deus… me ensina a escolher melhor onde eu me sento.

E, mais do que isso… me ensina a cuidar do que sai da minha boca quando eu estiver lá.”

O culto terminou.

As pessoas começaram a sair, algumas ainda presas às mesmas conversas de antes.

Ele permaneceu mais um pouco.

Não porque precisava…

mas porque queria.

Queria sair diferente.

Queria, quem sabe, ser o tipo de pessoa que muda o ambiente — não com discursos, mas com presença.

Alguém que, ao sentar, não alimenta a fofoca…

mas acende um sonho.

Levantou-se devagar.

E, ao dar os primeiros passos em direção à porta, percebeu:

Talvez não seja possível escolher todos os lugares onde estaremos…

mas sempre será possível escolher que tipo de voz seremos dentro deles.

E, naquele dia, o homem sentado no último banco da igreja decidiu:

Ele não queria mais ser eco de histórias alheias.

Queria ser abrigo de futuros possíveis.


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