Irmãos, “Os do Mundo” e a Necessidade Humana de Pertencer
Por Abilio Machado
Uma análise psicoteológica sobre identidade, fé e pertencimento
Existe algo profundamente simbólico quando alguém entra em uma igreja e escuta: “Bom dia, irmão.”
À primeira vista, parece apenas uma forma carinhosa de tratamento. Contudo, sob uma análise psicoteológica, essa pequena palavra carrega dimensões emocionais, espirituais e sociais muito maiores do que imaginamos.
O termo “irmão” não nasceu apenas como linguagem religiosa. Ele representa uma tentativa humana de responder a uma das maiores necessidades da existência: o desejo de pertencimento.
Teologicamente, a ideia surge da compreensão de que todos possuem uma origem comum diante de Deus. Se Deus é Pai, então os membros da comunidade tornam-se irmãos entre si. No cristianismo primitivo, essa fraternidade aparecia como expressão de cuidado mútuo, acolhimento e responsabilidade coletiva.
Mas a psicologia social amplia ainda mais essa compreensão.
O ser humano necessita sentir-se parte de algo. A palavra “irmão” reduz distâncias emocionais. O estranho deixa de ser ameaça e passa a integrar o “nós”. Isso fortalece vínculos, gera cooperação e cria sensação de proteção simbólica.
Em muitos casos, especialmente dentro das igrejas, essa linguagem possui função terapêutica silenciosa. Pessoas marcadas por rejeições familiares, abandono afetivo, perdas ou solidão encontram na comunidade religiosa uma espécie de reconstrução emocional da família.
O “irmão” torna-se aquele que compartilha dores, esperanças, medos e fé.
Contudo, existe também uma dimensão delicada nessa construção.
Toda identidade coletiva cria pertencimento, mas também estabelece fronteiras.
Quando chamamos alguém de “irmão”, implicitamente definimos quem não pertence ao grupo. E é exatamente nesse ponto que surge outra expressão muito comum nos ambientes religiosos: “Fulano é do mundo.”
Psicoteologicamente, essa frase funciona como um marcador de separação entre “os de dentro” e “os de fora”.
Originalmente, o conceito bíblico de “mundo” possuía significado mais profundo. Não se referia simplesmente às pessoas externas à religião, mas a sistemas de valores marcados por egoísmo, injustiça, corrupção moral, vaidade excessiva e afastamento do sagrado.
Entretanto, ao longo da história, essa ideia frequentemente foi reduzida a uma classificação identitária.
Na prática cotidiana, “ser do mundo” passou muitas vezes a significar:
quem não pertence ao grupo;
quem pensa diferente;
quem possui outros costumes;
quem ameaça a identidade moral da comunidade.
E aqui entramos em um fenômeno psicológico muito importante: o mecanismo de pureza grupal.
Todo grupo fortemente identitário tende a desenvolver:
linguagem própria;
códigos morais internos;
símbolos de pertencimento;
fronteiras emocionais;
diferenciação entre “nós” e “eles”.
Isso fortalece a coesão interna, mas também pode gerar elitização espiritual, medo do diferente e até desumanização do outro.
Quando alguém afirma: “Ele é do mundo”, muitas vezes não está apenas descrevendo diferenças religiosas. Está também comunicando: “ele não pertence ao nosso universo moral.”
Esse tipo de linguagem reorganiza afetos, aproxima os semelhantes e cria distância emocional dos diferentes.
Em ambientes religiosos mais rígidos, isso pode gerar:
isolamento social;
medo de contatos externos;
culpa por vínculos fora da comunidade;
dependência emocional do grupo;
dificuldade de pensamento crítico;
sensação de superioridade espiritual.
O paradoxo é que a própria espiritualidade pode tornar-se “mundana” quando perde humanidade.
Arrogância religiosa, vaidade espiritual, manipulação emocional, desejo de poder e ausência de compaixão também são expressões profundamente adoecidas da alma — ainda que estejam vestidas de religiosidade.
Curiosamente, os evangelhos mostram que Jesus Cristo confrontava muito mais a rigidez religiosa desumanizada do que aqueles considerados pecadores ou marginalizados pela sociedade.
Isso nos conduz a uma reflexão importante: talvez o verdadeiro oposto do sagrado não seja o “mundo”, mas a perda da empatia.
Uma espiritualidade madura não destrói a identidade, mas também não transforma pertencimento em mecanismo de exclusão.
Há comunidades que repetem a palavra “irmão” o tempo inteiro, mas vivem relações frias, competitivas e agressivas. Outras quase não utilizam o termo, mas demonstram fraternidade genuína através do cuidado, da escuta e da presença.
No fundo, a questão central talvez não seja: “Quem é do mundo?”
Mas: “Estamos nos tornando mais humanos através da fé?”
Porque uma fé que produz arrogância talvez tenha compreendido doutrinas, mas ainda não compreendeu amor.
Ensinamentos do Papai Noel
Porque às vezes o verdadeiro milagre não está em encontrar irmãos dentro da igreja…
mas em aprender a enxergar humanidade também fora dela.
Abilio Machado
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Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.

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