segunda-feira, 13 de julho de 2026

Antes do nome existe uma Alma

 


Antes do nome, existe uma alma

Por Abilio Machado 

Há uma violência que raramente deixa hematomas. Ela não grita, não empunha armas, não derrama sangue diante dos nossos olhos. Ainda assim, é capaz de destruir pertencimentos, sufocar identidades e transformar irmãos em estranhos. Essa violência chama-se rótulo.


O rótulo tem uma estranha capacidade de reduzir uma história inteira a uma única palavra. Já não vemos uma pessoa; vemos "o estrangeiro", "o negro", "o branco", "o rico", "o pobre", "o doutor", "o analfabeto", "o conservador", "o progressista", "o heterossexual", "o homossexual". A complexidade da alma desaparece, substituída pela simplicidade confortável da classificação.


Talvez seja exatamente isso que torne o preconceito tão sedutor. Pensar exige tempo. Amar exige encontro. Mas rotular exige apenas um olhar apressado.


A psicanálise nos ensina que projetamos no outro aquilo que muitas vezes não suportamos reconhecer em nós mesmos. Assim, o diferente passa a carregar o peso das nossas inseguranças, dos nossos medos e das nossas sombras. O preconceito raramente fala do outro; quase sempre revela quem nós somos.


As redes sociais amplificaram esse fenômeno. Em poucos segundos decidimos quem merece nossa admiração, nosso desprezo ou nosso silêncio. O algoritmo recompensa a polarização, enquanto a empatia parece caminhar em passos lentos, quase invisíveis.


É justamente nesse cenário que o evangelho de Jesus Cristo se torna profundamente contracultural.


Quando Cristo encontrava alguém, quase nunca começava pela identidade social daquela pessoa. Antes do publicano, via um homem. Antes da samaritana, via uma filha de Deus. Antes do leproso, via alguém digno de ser tocado. Antes do pecador, via uma alma com futuro.


Talvez seja essa a maior diferença entre o olhar divino e o olhar humano: nós catalogamos; Deus contempla.


O Presidente Russell M. Nelson recordou que nossa identidade mais importante não está nas categorias criadas pela sociedade, mas em nossa condição eterna de filhos e filhas de Deus. Essa afirmação não elimina nossas histórias, culturas ou experiências. Ela apenas nos lembra que nenhuma delas é maior do que nossa origem divina.


Quando esquecemos isso, começamos a disputar quem vale mais. Quando nos lembramos, passamos a perguntar como podemos amar melhor.


Imagino que o adversário não precise criar novos pecados quando consegue apenas convencer pessoas boas de que determinados grupos merecem menos respeito, menos escuta ou menos misericórdia. Dividir sempre foi mais eficiente do que destruir.


Talvez a cura comece em gestos quase imperceptíveis: ouvir antes de julgar, perguntar antes de concluir, conhecer antes de condenar. Descobrir que, por trás de cada rótulo, existe uma biografia. E, por trás de cada biografia, existe uma alma infinitamente preciosa.


No fim, quando Deus pronunciar nosso nome, é difícil imaginar que Ele o faça acompanhado de qualquer etiqueta que inventamos uns para os outros. Talvez Ele simplesmente nos chame de filhos.


E, quem sabe, essa sempre tenha sido a única identidade capaz de unir toda a humanidade.

Assista a este vídeo:



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