A produção de "O Nome da Rosa" (1986) começou à beira do abismo. O diretor Jean-Jacques Annaud sonhava com um elenco de rostos marcantes e autênticos, mas seu primeiro grande choque foi com o estúdio. Ao escalar Sean Connery, então considerado um astro em queda, a Columbia Pictures abandonou o barco, retirando o financiamento. Annaud, no entanto, teimou. O produtor Bernd Eichinger chegou a vender o próprio prédio de sua empresa em Munique para cobrir os custos astronômicos da produção. Esta batalha financeira foi apenas o prelúdio de uma jornada épica.
A visão de Annaud era clara: um mosteiro habitado por figuras reais, não por modelos de beleza. Ele confessou ter escolhido "os atores mais feios" que encontrou. Por trás desses rostos, histórias de dedicação absoluta. Ron Perlman, que interpretou Salvatore, mergulhou em cópias do livro em seis idiomas para compor a fala macarrônica de seu personagem. Já o jovem Christian Slater, com apenas 17 anos, teve sua primeira grande experiência cinematográfica, deslumbrado em cena com o mestre Connery. O set tornou-se uma sala de aula informal, onde Connery, um profissional experiente, compartilhava sabedoria com os mais novos.
A ambição cobrou seu preço. O maior cenário ao ar livre da Europa desde "Cleópatra" (1963) ergueu-se no alto de uma colina romana, enquanto, na antiga Abadia de Eberbach, na Alemanha, o som incessante de aeronaves obrigou a redublagem completa dos diálogos na pós-produção. Manuscritos foram confeccionados com rigor quase monástico, e até os porcos, anacronicamente rosados, foram tingidos de preto para manter a verossimilhança. Quando uma página do pergaminho artesanal foi roubada — mesmo sob a vigilância da polícia alemã —, a equipe a refez em tempo recorde.
O caminho estava longe de ser harmonioso. F. Murray Abraham, recém-sagrado com um Oscar, era descrito como um "egomaníaco" difícil de lidar. Em contrapartida, Connery, que faria história no ano seguinte com seu Oscar por "Os Intocáveis", era o profissional exemplar. A ironia final veio com a recepção: um fracasso retumbante nos EUA, mas um triunfo avassalador na Europa, que gerou mais de 77 milhões de dólares mundialmente e revitalizou a carreira de seu astro principal. O autor do romance, Umberto Eco, inicialmente cético por ver o filme como "um sanduíche de onde se tirou tudo, exceto a alface", reconheceu-o anos depois como um bom filme.
A história por trás das câmeras é, ela própria, um conto sobre perseverança. Do risco de não ser feito ao status de clássico cult, "O Nome da Rosa" é um testemunho do poder da visão artística contra a lógica comercial. Cada detalhe, da escolha dos atores à reconstrução fiel de um mundo perdido, foi uma batalha travada com paixão. O filme não apenas superou todas as expectativas de fracasso como garantiu que seu nome, assim como o da rosa primordial do verso medieval, permanecesse para sempre na memória do cinema.
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