"BIBLIA VERSUS CARTILHA SOCIOCOMUNISTA"
QUAIS DIVERGENCIAS FAZEM QUE UM CRISTÃO USE A CARTILHA SOCIOCOMUNISTA.
Por Abilio Machado - Especialista na Docência em Filosofia e Teologia.
Introdução
Ao tolerar-ou até abraçar uma cartilha sociocomunista, um cristão se depara com tensões profundas em sua visão de mundo, em sua teologia e em sua ética. Há motivações nobres — justiça social, cuidado com os pobres, igualdade — que podem atravessar tanto o cristianismo quanto reivindicações de “justiça social” provenientes de ideologias de esquerda. Mas quando se examinam os alicerces de cada perspectiva — fé, antropologia, finalidade última, autoridade moral — as diferenças se mostram substanciais. Talvez você goste das ações de determinados partidos achando que o "bem" ou "ação social" seja benefício, mas é muito bom procurar saber mais, ir mais a fundo no que você acha que crê. Pois Bíblia e Cartilha Sociocomunista são como água e óleo: não se misturam.
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1. Deus, transcendência e fundamento último
Um dos tratos centrais do cristianismo é a crença em Jesus Cristo / Deus como Criador, sustentador e redentor da existência humana. A doutrina cristã ensina que a origem, o valor e o destino da humanidade estão enraizados em Deus, e que há uma moral objetiva que não depende somente de decisões humanas.
Em contraste, a ideologia comunista, especialmente em sua versão marxista-leninista, baseia-se no materialismo histórico: a tutela das forças econômicas e sociais como motor da história, a negação do transcendente em termos de autoridade última e frequentemente o ateísmo político como premissa.
Portanto:
O cristianismo afirma: Deus antecede o mundo; o homem tem dignidade por ser imagem de Deus; há propósito além do visível.
O comunismo afirma: a estrutura social, econômica (classes, produção, propriedade) molda a realidade humana; não há lugar, ou há lugar reduzido, para a transcendência ou para uma moral independente do processo histórico-econômico.
Quando um cristão adere a uma cartilha sociocomunista que pressupõe a negação ou diminuição do papel de Deus, sacrifica-se um alicerce teológico essencial.
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2. Liberdade, indivíduo e coletividade
No cristianismo foi exclamado que “vocês foram chamados para a liberdade” (por exemplo em Gálatas 5:13) — liberdade não para a autossatisfação, mas para servir em amor. A pessoa humana não é simplesmente uma engrenagem do sistema, mas alguém com valor irrepetível.
No comunismo clássico predomina a ênfase na coletividade, no papel do Estado ou do partido como vetor de transformação, e muitas vezes a subordinação da individualidade ao todo (“o coletivo”). Por exemplo, argumenta-se que a história é movida por lutas de classes e que a emancipação se dará por meio de uma ação revolucionária coletiva.
Assim:
O cristão cultiva a liberdade em relação ao pecado, à servidão, ao ego, mas também reconhece responsabilidade diante de Deus.
A cartilha sociocomunista, na medida em que transforma o sistema social em centro de significação, corre o risco de tratar o indivíduo como meio para um fim, e não como fim em si mesmo.
Para alguém que creu no valor da “alma”, de “salvação”, de “redeemção”, a adesão a uma cartilha que minimiza esses conceitos ou os algum modo os substitui por “força social” ou “classe” gera conflito.
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3. Moral, autoridade e meios
O cristianismo sustenta que há verdades morais objetivas — por exemplo: “Não matarás”, “Amarás o próximo como a ti mesmo”, “Serás honesto” — não meramente convenções cambiais. A moral cristã não admite que “o fim justifica os meios” quando se trata de abandono de princípios fundamentais.
Por outro lado, um dos pontos de crítica recorrentes é que, em regimes ou movimentos comunistas, meios que ferem a liberdade, a vida, a propriedade ou a consciência individual foram legitimados em nome da “revolução” ou “justiça social”. Por exemplo: “força, violência, mentira” para alcançar o fim.
Dessa forma, o cristão que se compromete com uma cartilha sociocomunista deve estar atento a:
Será que os meios utilizados no programa são coerentes com os valores evangélicos?
Será que há hierarquia moral inegociável (por exemplo, a vida humana, a liberdade de consciência) ou esses valores são relativizados à busca de “igualdade” ou “bem comum”?
Se a cartilha aceita que qualquer meio — inclusive opressão ou coerção — seja permitido para alcançar o “bem social”, isso entra em choque com a ética cristã que protege o fraco, o marginalizado, mas não mediante instrumentalização ou desrespeito à pessoa.
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4. Propriedade privada, trabalho e distribuição
Em alguns textos cristãos e em comunidades no início da igreja primitiva, há relatos de bens em comum, de venda de propriedades para distribuir aos necessitados (por exemplo em Atos dos Apóstolos 2-4) — e isso às vezes é citado como “comunismo cristão”.
Mas há distinções chave:
O cristianismo não necessariamente adota um sistema estatal de propriedade comum como norma universal e imposta. A partilha na igreja primitiva foi um ato comunitário voluntário, inspirado em fé, não um decreto político-econômico global.
A cartilha sociocomunista costuma prescrever a abolição da propriedade privada, ou forte intervenção estatal na economia, como parte de sua construção de tipo de sociedade. Isso não é mandado explícito no ensino de Jesus como programa político estatal.
Para o cristão: a convicção de que o trabalho humano tem dignidade, que a propriedade – embora sujeita à mordomia – pode existir, e que generosidade é expressão de gratidão a Deus, mais do que simples redistribuição compulsória, são fatores que geram tensão com o modelo sociocomunista.
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5. A finalidade última e a esperança
O cristianismo vive em tensão entre “já” e “ainda não” — o Reino de Deus está presente em Cristo, mas será manifestado plenamente no futuro. Há esperança pessoal, universal e escatológica.
O comunismo, em muitas formulações, promete a “sociedade igualitária” ou o “homem novo” aqui na terra, como objetivo imanente. A ênfase é na transformação histórica e material da sociedade como fim último.
Um cristão que adote uma cartilha sociocomunista deve perguntar:
Estou adotando a visão de mundo que centra a esperança em transformação humana/material ou em redenção espiritual sobrenatural?
A fé cristã não perde sentido se a luta histórica se torna o escopo total da vida, sem espaço para a transcendência de Deus?
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6. Por que, então, um cristão não pode simplesmente aceitar uma cartilha sociocomunista?
Na luz dos pontos anteriores, podemos resumir os motivos pelos quais muitos cristãos consideram incompatível aderir sem filtros a uma cartilha sociocomunista:
1. Diferença de fundamento teológico – deus, criação, pecado, redenção e moral cristã não se encaixam bem com o materialismo dialético e a negação de uma moral objetiva e transcendente.
2. Risco de instrumentalização da pessoa – quando o indivíduo deixa de ser portador de imagem divina e passa a ser meio para um fim histórico-econômico, o valor pessoal sofre.
3. Meios questionáveis – práticas coercitivas, supressão de liberdade de consciência, centralização estatal, que tantas vezes se associam ao comunismo histórico, conflitam com princípios evangélicos de liberdade, consciência e dignidade humana.
4. Finalidade distinta – o cristianismo aponta para um Reino de Deus que transcende a sociedade humana corrupta; o comunismo tende a apostar numa transformação integral da sociedade humana como solução última.
5. Economia e propriedade – ainda que o cristianismo valorize a generosidade e o cuidado com os pobres, não necessariamente endossa um sistema estatal de propriedade coletiva imposto; há lugar para propriedade privada, trabalho livre, administração responsável.
6. Liberdade de consciência e fé – a história mostra que regimes comunistas impuseram restrições à religião, denominando-a “ópio do povo”. Isso coloca em risco a liberdade religiosa que o cristianismo defende.
Por essas razões, um cristão que se espere fiel aos fundamentos de sua fé precisa examinar cuidadosamente qualquer cartilha sociocomunista antes de adotá-la — especialmente se ela exigir lealdade irrestrita a partido ou sistema, ou se minimizar ou negar Deus, a alma, a liberdade individual ou a moral objetiva.
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7. Como tratar a justiça social e o cuidado com os pobres à luz cristã
Importante: rejeitar a cartilha sociocomunista não significa rejeitar a justiça social ou o cuidado com os oprimidos — ao contrário. O cristianismo tem forte tradição de caridade, solidariedade, defesa do oprimido e reforma social baseada no amor de Cristo.
Algumas motivações cristãs que preservam a integridade teológica:
Ação voluntária e motivada pela fé: amar o próximo porque Deus o amou primeiro.
Reconhecimento da dignidade de cada pessoa, independentemente de classe, utilidade ou posição social.
Uso responsável dos recursos (trabalho, mercados, comunidade) como meio para servir, não apenas para lucrar ou para impor sistema.
Reforma que considera não só o exterior (estruturas sociais), mas o interior (coração, pecado, redimido por Cristo).
Esperança escatológica que amplia o foco — não apenas “melhorar” o mundo agora, mas viver como povo do Reino e agir como sal e luz, ainda que imperfeitos.
Dessa maneira, o cristão pode ser engajado socialmente sem assumir integralmente uma cartilha que conflita com sua fé.
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Conclusão
Em resumo: embora existam zonas de encontro (preocupação com pobres, crítica às estruturas opressoras, generosidade), as bases do cristianismo e da cartilha sociocomunista são estruturalmente diferentes. Um cristão que leva a sério sua fé não pode simplesmente adotar sem critério uma cartilha sociocomunista que negligencie Deus, a pessoa humana, a liberdade de consciência ou a moral objetiva.
O convite, então, é à reflexão: “Qual é meu fundamento? Qual é minha esperança? Quais são os meios que aceito? Quais valores não posso abdicar?” Se a cartilha que se pretende seguir exige abdicar desses valores, o cristão tem motivo de sobressalto.
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