terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Sem lugar para repousar - O Homem Sentado no Banco da Igreja


Sem lugar para repousar - O sem lugar!

Eu tenho ido à igreja para pensar e comungar, ultimamente, no início tentei fazer mais, porém me parecia ser boicotado de alguma forma.

 Então repito isso para mim mesmo,

: vou para comungar e pensar, como quem precisa lembrar o motivo de ainda estar ali.

Não vou para obedecer sem perguntas.

Não vou para me esconder no coro das certezas.

Vou porque ainda acredito que a fé possa ser um espaço onde a consciência não precise ser amputada.

Mas, sentado no banco da igreja, comecei a perceber algo incômodo:

eu já não tenho lugar ali?!

Eu estava ali fisicamente, mas minha palavra precisava sempre pedir permissão para existir, precisa de certa licença.

Se faz uma oração - olha nos fazemos oração assim. - mesmo que a oração seja postada.

O que eu escutava passava por mim com filtros.

O que eu pensava não encontra espaço para pousar. São detalhes, pequenos sinais, são incoerências fisgadas.

E, quando ouso nomear o incômodo, vem o silêncio — ou algo pior: a contenção disfarçada de cuidado.

Último domingo do ano, e ouvi histórias simples sendo transformadas em doutrina apressada.

Crianças que oraram para uma televisão ligar — e ligou. Imaginei Deus de chave de fenda, ferro de solda e teste de energia em mãos.

Sorri com a palestrante e estranhei o sorriso da assistência, dei no momento crédito porque a fé infantil é confiança pura.

Mas me calei quando percebi que o mistério estava sendo reduzido a mecanismo.

Deus não virou eletrotécnico naquele dia.

Nós é que O tornamos pequeno demais para caber numa explicação rápida.

Agora penso riram pela ideia do revezamento nas orações para ver que Deus atenderia.

Depois ouvi que, às vezes, um pequeno engano pode servir para levar alguém à igreja. Não um engano casual, um premeditado, pensado e avaliado como sendo fonte de inspiração do espírito...

Que ao dizer a uma colega que a acompanhasse em buscar um utensílio, quando na verdade a levaria a uma Noite Familiar, isso em seu pensamento  goi aceitável — afinal, a intenção fôra boa.

Ali algo em mim se retraiu... AO ver algumas faces em aprovação, como a dizerem a si mesmos: por quê não pensei nisso antes ? Uhm, posso fazer algo assim.

Desde quando a Verdade precisa ser apresentada por armadilha? Me pergunto.

Desde quando Deus se satisfaz com atalhos que violam a liberdade do outro?

Não falei. Porém tive vontade de levantar a mão e dar um "perai amiga'.

Aprendi que, em certos ambientes, pensar demais é visto como obstáculo à obra, então engoli em seco sem saliva.

Então veio o discurso sobre o homem falho.

Falho na igreja.

Falho no mundo.

Falho diante de Deus.

Concordei.

Sou falho.

Mas percebi que a falha estava sendo usada como anestesia moral.

Como se reconhecer o erro bastasse para continuar tudo igual.

Como se fosse possível ser um homem no templo e outro completamente diferente quando se sai dele.

Foi aí que me dei conta:

não é o homem falho que me inquieta.

É o homem dividido.

E eu não quero ser dois.

Essa sensação não ficou restrita à igreja.

Ela me acompanha em casa, à mesa, no espaço que deveria ser abrigo.

Estava com minha ex-esposa, meu filho trans e minhas filhas.

Em um momento de conversa, tentei pensar em voz alta.

Falei, talvez de forma imperfeita, sobre identidade, sobre orientação, sobre algo que eu ainda tento compreender por inteiro.

Antes que a conversa pudesse existir, fui interrompido.

Minha ex, acariciando meu filho, disse:

“Não explique, ele não entenderia.”

Ali, não fui apenas corrigido.

Fui retirado da cena.

Toda a minha formação, minha escuta, meu cuidado, meu esforço sincero de compreender foram reduzidos a um papel estreito:

o pai que não alcança.

O homem que não entende.

O ex. O expatriado.

O que precisa ser silenciado para proteger o outro.

Conheço bem esse gesto.

Já o vi muitas vezes.

Sempre que minha palavra se torna complexa demais, o ambiente se organiza para contê-la.

Na família.

Na igreja.

Na faculdade com professoras militantes, bem como no técnico em arte dramática.

Nos grupos de whatsapp que dependendo da postagem ou resposta você pertence a um lado da polarização política.

E na vida social.

E, repetidas vezes, fiz o mesmo movimento:

afastei-me.

Não por orgulho.

Não por frieza.

Mas porque ficar exigia que eu me diminuísse.

A gente se afasta quando falar dói mais do que calar.

Quando estar presente significa desaparecer por dentro.

Quando não há lugar para repousar sem abrir mão de si.

Foi assim que comecei a me reconhecer como o sem lugar.

Não expulso.

Não rejeitado abertamente.

Mas também não acolhido por inteiro.

O que pensa demais.

O que escuta demais.

O que percebe o tom de voz, o gesto, a postura corporal, o que não foi dito.

O que não consegue desligar o olhar clínico, humano, espiritual.

Perguntei a mim mesmo muitas vezes:

será este o meu problema?

Hoje entendo que não.

Meu problema não é ver demais.

É viver em lugares que suportam pouco.

E isso cansa.

Cansa ter que escolher entre falar e pertencer.

Entre ser inteiro e ser aceito.

Entre pensar e descansar.

Tenho me perguntado, com honestidade:

terei eu um lugar para repousar?

Não um lugar onde todos concordem comigo.

Mas um lugar onde minha palavra não precise pedir licença.

Onde a dúvida não seja ameaça.

Onde a fé não exija silêncio da consciência.

Talvez eu ainda não tenha chegado a esse lugar.

Mas sei onde ele não está.

Ele não está onde pensar é visto como perigo.

Onde amar exige amputação.

Onde a verdade precisa ser disfarçada para entrar.

Onde a falha vira desculpa para não mudar.

Por enquanto, sigo assim:

indo à igreja para pensar e comungar.

Amando minha filhas, mesmo quando não posso explicar que meu olhar do mundo é daquele que já viveu o regime militar, nasci lá no seu princípio e os sinais de hoje são os mesmos, só que pior, muito pior.

Vou continuar habitando o mundo com atenção, ainda que deslocado.

Talvez o “sem lugar” não seja meu destino.

Talvez seja apenas o nome desta travessia.

E enquanto o repouso não chega por inteiro,

escrever, pensar e falar com honestidade

já são, para mim, uma forma de descanso.

Não desejo ser uma redução em rede social,

ou me dividir para caber. 

Minha vida pede continuidade.

Continuidade de mim mesmo para me manter em sobrevivência.

Até achar um lugar onde minha Alma cansada possa descansar...


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Quanto a verdade foi apresentada pelo engano! - O Homem Sentado no Banco da Igreja

 O homem sentado no banco da igreja 

Quando a verdade foi apresentada pelo engano!

Sentado no banco da igreja, o homem ouviu a história com atenção cuidadosa, era a segunda parte que começou com o Deus eletrotécnico.

Não era um grande escândalo, nem um pecado vistoso.

Era algo pequeno. Justamente por isso, perigoso.

A moça contou, com certa leveza, que enganou uma conhecida sua certa feita.

Disse que iriam buscar um utensílio qualquer, balde ou algo parecido.

Mas o destino era outro:

uma Noite Familiar, um rito da igreja, uma tentativa de aproximação com a fé. Uma maneira de apresentar a igreja e sua fé para sua conhecida de escola.

A igreja reagiu com compreensões silenciosas.

Alguns sorrisos cúmplices.

Afinal, a intenção era boa.

Será ?!

O homem no banco da igreja não julgou a moça.

Conhecia esse impulso.

A ânsia de cumprir uma promessa maior, de apresentar a Igreja de Jesus ao outro, de “fazer o bem” mesmo que por atalhos.

De poder se fazer valer na comunidade dogmática.

O incômodo não estava na vontade de evangelizar.

Estava no meio escolhido.

Ele pensou:

se a Verdade precisa ser disfarçada para ser aceita,

o que estamos realmente oferecendo ao outro?

Do ponto de vista psicológico, o gesto era compreensível.

O medo da recusa.

A dificuldade de lidar com o “não”.

Alho bem pessoal, talvez algo que ainda carregue, não gosta de ouvir não, gosta de ser o centro mesmo fazendo o jogo de : vou discursar reger orar no fim bater a foto final e distribuir nas redes sociais e bem provável fazer o primeiro comentário ou dar o primeiro coração de curtida.

A fantasia de que, se a pessoa estiver lá, o Espírito Santo fará o resto, na minha pequenez acredito que nem o Espírito Santo chegou a entrar...

A fé construída sem consentimento começa frágil.

Porque antes de ser espiritual, ela precisa ser relacional.

Me entenda, relação, participação, troca de energia, tenho de estar bem com o conjunto da obra. 

Do ponto de vista teológico, a questão se aprofundava.

Deus se contenta com o engano quando o objetivo é sagrado?

A promessa de apresentar Sua igreja ao povo autoriza a suspensão da verdade?

O homem lembrou-se de algo simples:

Jesus nunca chamou ninguém por armadilhas.

Chamou por convite.

“Vem e vê.”

Nunca: “vem sem saber”.

A Palavra que liberta não sequestra.

Ela espera.

Ela respeita o tempo do outro, mesmo quando isso frustra nossas expectativas missionárias. De apresentar números, de ser mencionado como quem mais batizou porém fica a pergunta destes quantos permanecem ?

O engano pode até levar alguém até a porta da igreja,

mas dificilmente leva até o coração da fé.

E havia no diarcurso ainda outro risco, mais silencioso.

Quando normalizamos pequenas mentiras “em nome de Deus”,

ensinamos algo sem perceber:

que a verdade é negociável quando o objetivo parece nobre.

O homem pensou no efeito disso dentro da alma.

Uma fé que começa torta pode até andar,

mas sempre mancando.

Quando a história terminou, ele permaneceu sentado.

Não para condenar a moça.

Mas para guardar a pergunta que ninguém fez em voz alta:

Se Deus é Verdade,

Ele realmente precisa que a escondamos para apresentá-Lo?

O culto seguiu.

O banco permaneceu o mesmo.

E o homem ficou, ali, para o próximo orador, com a sensação incômoda — e necessária —

de que nem todo “bom propósito” santifica o gesto que o carrega.

E para você: 

_O fim justifica os meios ?

_Sua fé é negociável ? 


Minha música: Farol da promessas...



#OHomemNoBancoDaIgreja #VerdadeECaminho #Psicoteologia #DiscernimentoEspiritual #FéComConsentimento #CrônicaEspiritual #ÉticaDaFé

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O HOMEM QUE SE PARTE AO SAIR - O Homem Sentado no Banco da Igreja

 O homem no banco da igreja



 O homem que se parte ao sair...

Sentado no banco da igreja, o homem ouviu falar do ser humano falho, do homem falho.

Nada de novo.

Ele mesmo carregava suas falhas no bolso da alma, algumas antigas, outras recém-adquiridas.

O discurso dizia que o homem erra porque é humano.

Que falha porque ainda está em processo.

Até ali, ele concordava.

Mas algo começou a incomodá-lo quando a falha passou a soar como licença,

e não como convite à transformação.

Foi então que ele percebeu a divisão — não dita, mas ensinada, ali no púlpito.

Havia o homem da igreja

e havia o homem do lado de fora.

Dias vidas - duas caras.

O primeiro falava baixo, usava palavras corretas, pedia perdão com facilidade.

O segundo negociava valores, relativizava gestos, justificava durezas.

E ambos usavam o mesmo corpo.

O homem no banco da igreja pensou no cansaço que isso provoca, na dor das escolhas das máscaras a vestir.

Viver fragmentado exige esforço constante.

É preciso lembrar quem se é em cada lugar, ajustar o tom, mudar o vocabulário, recalcular a moral conforme o ambiente.

Na igreja sou assim, e fora sou o ambiente, acende-se a luz de alerta.

E ele se perguntou, em silêncio:

quando foi que a fé passou a permitir essa duplicidade?

Porque uma coisa é reconhecer a falha.

Outra, bem diferente, é organizar a vida em compartimentos, como se Deus habitasse apenas alguns deles.

O homem falho não o assustava.

O homem dividido, sim.

Do ponto de vista psicológico, ele sabia:

o sujeito que se separa em versões acaba adoecendo.

A alma não gosta de personagens.

Ela pede coerência, ainda que imperfeita.

Pensamentos - palavras - ações 

Os 3 componentes essenciais para dar coerência ao comportamento, a conduta social, moral e política, sem esquecer talvez a mais importante ao manifesto da fé: a espiritual.

Do ponto de vista espiritual, a divisão era ainda mais grave.

Se Deus é presença, onde Ele fica quando o homem sai da igreja?

Do lado de dentro, aguardando o próximo culto?

Ou acompanha o homem também nas escolhas difíceis, nas zonas cinzentas, nos lugares onde não há louvor?

Onde o palavreado é chulo.

O discurso terminou exaltando a misericórdia.

O homem agradeceu por isso.

Mas sentiu falta da responsabilidade.

Misericórdia não é anestesia moral.

É sustentação para mudar sem desespero.

Ao levantar-se do banco, ele percebeu que a pergunta não era sobre errar ou não errar.

Era outra, mais profunda:

Sou o mesmo homem quando oro

e quando decido?

Quando canto

e quando escolho?

Ele saiu da igreja sabendo que não precisava ser perfeito.

Mas também sabendo que não queria ser dois.

Preferia ser um só homem — falho, sim — mas inteiro.

Deus está nele em todos os ambientes, e é por isso que não pode ser dois, três ou mais. Tem de ser um só para demonstrar que ao cair nas águas todos os pactos, condutas, vícios, tudo...foram lavados e levados, o fazendo um novo homem!

Como diz na música : águas que transformam..." Eu fui lavado, eu fui restaurado  nome de Jesus - fui perdoado !


#OHomemNoBancoDaIgreja #HomemInteiro #FéESubjetividade #EspiritualidadeMadura #CrônicaEspiritual #Discernimento #PsicologiaEFé



Quando Deus Ligou a Televisão - O Homem Sentado no Banco da Igreja

 O homem sentado no banco da igreja

 "Quando Deus Ligou a Televisão"

Sentado no banco da igreja, o homem ouviu com atenção redobrada.

O tom do discurso mudou quando vieram as crianças na fala da palestrante.

Três.

Pequenas o suficiente para ainda acreditarem que o mundo responde rápido quando se fala com Deus.

Queriam assistir televisão.

A TV não ligava.

Então oraram.

E a televisão ligou.

A igreja reagiu com sorrisos leves, desses que aquecem por fora. Pela simplicidade do pedido talvez 

O homem também sorriu — não por concordar plenamente, mas por respeito à inocência.

Ele sabia: a fé das crianças não é cálculo, é confiança.

O incômodo não estava no fato.

Estava na leitura do fato.

Porque entre a oração e a televisão acesa existe um espaço delicado, quase invisível, onde mora o sentido que se ensina.

E foi ali que o homem sentiu o chão escorregar um pouco.

Deus não se revelou eletrotécnico às crianças.

Quem O vestiu com essa função fomos nós, os adultos, apressados em transformar mistério em prova, fé em evidência, coincidência em doutrina.

Para uma criança, tudo é sinal.

Para um adulto, tudo vira argumento.

O homem pensou que o perigo não é a criança acreditar que Deus ouviu sua oração.

O perigo é ela crescer achando que quando as coisas não ligam, Deus falhou.

Ou pior: que a oração serve para consertar objetos,

e não para sustentar pessoas quando nada funciona.

Ele lembrou que Deus não prometeu televisões ligadas,

mas presença quando a vida desliga.

O discurso seguiu, celebrando o episódio como lição.

O homem permaneceu em silêncio.

Porque sabia:

quando ensinamos que Deus responde ligando aparelhos,

corremos o risco de não saber onde Ele está

quando o corpo adoece, o filho parte, a fé oscila

e nenhuma tela acende.

Ao final, o homem levantou-se mais o corpo no banco, teve vontade de sair, mas cria que ouviria mais coisas, resolveu anotar para não deixar escapulir este momento de análise psicoteologica.

Não saiu escandalizado.

Ficou ali, atento.

Convencido de que a fé infantil deve ser acolhida,

mas a fé adulta precisa ser responsável.

Deus ouviu aquelas crianças?

Talvez.

Mas certamente não desceu do céu com uma chave de fenda.

E o homem, ainda no banco da igreja, fez sua própria oração silenciosa:

Que nunca falte às crianças um Deus que escuta.

E aos adultos, a coragem de não ensinar Deus pequeno demais...

Amém!

#OHomemNoBancoDaIgreja #FéInfantil #EspiritualidadeMadura #DeusNãoÉMecanismo #Discernimento #CrônicaEspiritual #SilêncioQueEnsina

O homem no banco da igreja enquanto ouvia demais...

 O homem no banco da igreja (enquanto ouvia demais)

Sentado no banco de madeira, o homem não fechou os olhos. Chegou um pouco atrasado, ainda pegou a sacramental, seus movimentos não são como antes, o peso, as dores, o cansaço...

Quando vai a reunião, vai para ouvir, pensar, comungar...

Preferiu manter os olhos abertos, não por distração, mas por vigilância interior.

Aprendeu cedo que, às vezes, é preciso olhar para ouvir melhor, também para ver se os movimentos coincidem com as palavras, se as pessoas soubessem o quanto se entregam ao ferir a própria verdade, o corpo entrega, ele fala e diz : uhmmm?!

O discurso avançava pelos bancos como quem anda certo demais do caminho.

Então ouviu:

“Deus é como um eletrotécnico…” com outras palavras, mas seu interior entendeu assim..

E algo dentro dele fez curto-circuito.

Não por desprezo à linguagem simples — ele sabia que a fé também nasce na infância —,

mas porque ali não havia simplicidade, havia redução.

Deus transformado em técnico de manutenção, a oração virando botão,

o milagre tratado como serviço sob demanda.

O homem pensou:

quando Deus vira função, a fé vira ferramenta.

Depois veio algo ainda mais inquietante:

a ideia de que um pequeno engano pode servir para espalhar a Palavra.

Ele endireitou as costas no banco.

Desde quando a Verdade precisa de truques?

Desde quando a mentira se torna santa só porque está bem-intencionada?

O homem conhecia esse raciocínio — ele mora em muitos lugares, não só na igreja.

É sempre o mesmo sussurro: “é errado, mas é para o bem”.

E ele sabia:

quando o meio adoece, o fim já nasceu contaminado.

O discurso seguia, agora falando do homem falho.

Falho na igreja. Falho na vida. Falho diante de Deus.

Até aí, nenhuma novidade.

A novidade estava no uso da falha como amortecedor moral.

Como se dizer “sou humano” fosse um salvo-conduto para não mudar nada.

O homem no banco da igreja pensou no perigo disso.

Pensou no homem que canta louvores no domingo

e negocia princípios na segunda.

No homem que ora com fervor

e justifica dureza, manipulação e engano dizendo:

“Deus conhece meu coração”.

E então a pergunta que ninguém fez ecoou dentro dele:

Há como sermos um homem dentro da igreja

e outro completamente diferente fora dela?

Ele sabia a resposta, embora doesse.

Isso não é fé — é fragmentação.

E viver partido por dentro cobra um preço alto demais.

Quando os discursos terminaram, houve silêncio. Para ambos.

Mas não dentro dele.

O homem permaneceu sentado, como quem entende que nem toda palavra dita do púlpito desce pronta para a alma.

Anotou os pontos que mexeu com ele no seu espaço no whatsapp.

Algumas precisam ser examinadas, outras devolvidas,

e algumas… simplesmente deixadas ali, no banco de madeira.

Ele levantou devagar.

Não perdeu a fé naquele dia, domingo dia 28.

Perdeu apenas a necessidade de engolir tudo sem mastigar.

E saiu sabendo que questionar, às vezes,

é a forma mais honesta de oração.

Obs.: Não vou a igreja por ir, vou para comungar e pensar.

Faço valer muito a música : O Último Banco 




#OHomemNoBancoDaIgreja #FéEPensamento #EspiritualidadeConsciente #Reflexão #SilêncioQueFala #CrônicaEspiritual #Discernimento #FéSemEngodo

domingo, 28 de dezembro de 2025

Agosto de 1888 Dom Pedro II


 O Imperador Dom Pedro II, acompanhado da Princesa Teresa da Baviera, de sua esposa Dona Teresa Cristina e dos alunos da Escola Militar, visita o quartel do 2º Regimento de Artilharia de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, durante as festividades de seu retorno ao Brasil em agosto de 1888. As fotografias são de Eduardo Bezerra, da Coleção Pedro Corrêa do Lago.


Ironicamente, aquele mesmo 2º Regimento de Artilharia — uma das unidades militares mais poderosas da Corte Imperial — seria protagonista ativo do Golpe Militar de 15 de Novembro de 1889, sob a liderança de Benjamin Constant e Deodoro da Fonseca. Como a Escola Superior de Guerra não possuía regime de internato, os alferes-alunos passaram a morar nos quartéis do 2º Regimento. Em pouco tempo, criaram laços intensos de camaradagem com os oficiais inferiores das unidades do bairro, grande parte deles também formados na Escola Militar. Todos estariam juntos na assinatura dos chamados “pactos de sangue” e no movimento insurrecional. Assim, em 1889, São Cristóvão transformou-se num verdadeiro reduto da “mocidade militar republicana”.


Após a Proclamação da República, escreveu o Visconde de Ouro Preto:

“Não julgava possível a República enquanto vivesse o Imperador, e daí a minha surpresa. Se de mim tivesse dependido a sua permanência como Chefe da Nação, afirmo-lhe que não teria sido deposto. A República teve contra si haver sido feita por um pronunciamento militar, representado pela quinta parte do Exército. A Nação foi estranha a esse acontecimento.”


A observação referia-se ao fato de que a maioria dos militares envolvidos no golpe de 15 de Novembro sequer sabia que o objetivo final era derrubar a Monarquia. Foram participantes involuntários do drama ocorrido no Campo de Santana — muitos deles arrependeram-se pouco depois do papel que desempenharam.


Leôncio Basbaum ressalta, com inteira razão, que a República foi feita por um Exército que não era republicano, acrescentando que “na verdade, o Império não foi derrubado — caiu”. De fato, os três batalhões que compunham a coluna revolucionária que marchou para o Quartel-General naquela manhã eram comandados por dois monarquistas, cujas motivações eram voltadas contra o Ministério Ouro Preto, não contra o Imperador.


Um dos batalhões era comandado pelo Tenente-Coronel Silva Teles, confessadamente monarquista e intimamente contrário à sublevação. Dizia seguir “coagido”, movido pelo “império das circunstâncias”, segundo o Tenente Sebastião Bandeira. Outro batalhão era chefiado pelo Major Lobo Botelho, ainda mais monarquista que Silva Teles. Ele ordenou que seu batalhão marchasse com uma bandeira imperial — mas, segundo Ernesto Sena, o sargento encarregado de carregá-la a jogou pela janela de uma casa, onde provavelmente permaneceu.


Mais tarde, para justificar a ausência de bandeiras entre as tropas sublevadas que chegaram ao Quartel-General, propagou-se a versão de que saíram dos quartéis já decididas a derrubar a Monarquia. Porém, o Major Botelho, embora adversário do Ministério Ouro Preto, opunha-se àquela quartelada. Quando percebeu que o movimento se tornava um golpe contra a Monarquia, simplesmente abandonou o batalhão em frente ao Quartel-General e voltou para casa.


Esses eram os comandantes da tropa que se sublevou. Descendo na hierarquia, encontravam-se outros tantos oficiais sem convicção republicana — muitos ali apenas arrastados pelas circunstâncias, como Silva Teles. Na verdade, a coluna revolucionária só tinha convicção republicana entre alguns poucos tenentes e cadetes, que, num golpe de ousadia, haviam inflamado o movimento, superando a indecisão e a fragilidade moral dos comandantes.


Dias depois do golpe republicano, um grupo de homens do 2º Regimento de Artilharia tentou organizar um novo levante — desta vez contra o Governo Provisório — pois sequer compreendiam que o movimento de 15 de Novembro tinha como objetivo depor a Monarquia.


Fonte: História da Queda do Império, de Heitor Lyra.

A história não contada de Mary!


 Aos dezesseis anos, Mary escondeu a irmã de apenas três meses debaixo do próprio casaco no Trem dos Órfãos com destino ao Kansas, em 15 de julho de 1902.


O orfanato havia sido claro: bebês e adolescentes não eram colocados juntos. As famílias queriam um ou outro. Mary deveria embarcar sozinha; a irmã seria enviada para outro destino. A separação era considerada normal.


Mary se recusou.


Ela tirou o bebê do berçário, envolveu-o com cuidado, escondeu-o sob o casaco e subiu no trem. Se fosse descoberta, as duas seriam devolvidas a Nova York. Mary respirou fundo e rezou.


Durante duas horas, o bebê não chorou. Mary segurava o casaco com força, sentindo o pequeno corpo quente contra o peito. Outras crianças notaram o volume sob o tecido. Entenderam imediatamente. Ninguém disse uma palavra. Órfãos protegiam uns aos outros.


Na primeira parada, famílias se reuniram para escolher crianças. Mary desceu do trem com o coração disparado, o casaco pesado apesar do calor de julho. Um casal de fazendeiros se aproximou. Procuravam uma menina forte para ajudar nos afazeres da casa. Mary concordou rápido demais.


A mulher estreitou os olhos e perguntou por que Mary usava um casaco tão grosso naquele calor. Mary disse que estava com frio. Depois disse que estava doente. Qualquer coisa, menos a verdade.


Um fotógrafo registrou o momento. Mary descendo do trem. O casaco inchado por um segredo. O medo estampado no rosto. Outras crianças observando em silêncio. A imagem congelou a crueldade de um sistema que separava famílias porque era mais conveniente assim.


Então o bebê chorou.


A mulher exigiu que Mary abrisse o casaco. Mary recuou em direção ao trem. Chamaram os responsáveis.


Antes que chegassem até ela, um fazendeiro mais velho deu um passo à frente. Um viúvo chamado Thomas, que observava tudo em silêncio.


— Eu fico com as duas — disse ele. — A menina e o bebê.


Mary caiu em lágrimas, perguntando se ele falava sério. Thomas assentiu. Contou que havia perdido a própria família para uma febre. Ele entendia.


Mary e a irmã viveram com Thomas por oito anos. Ele as tratou como filhas, nunca como mão de obra. Quando Mary completou vinte e quatro anos, ele lhe entregou a fazenda.


— Você é a filha que perdi — disse ele. — Esta é a sua casa.


Mary criou a irmã ali. Mandou-a para a escola. Viveu naquela terra por sessenta e três anos.


Quando Mary morreu, em 1973, aos oitenta e sete anos, a irmã colocou aquela fotografia no funeral e contou a história:


“Mary me escondeu sob o casaco e arriscou tudo para que ficássemos juntas. Thomas nos salvou ao escolher pessoas em vez de regras. Aquela foto mostra o momento em que poderíamos ter perdido tudo. Em vez disso, encontramos um pai, um lar e uma vida. Estou viva e inteira porque minha irmã se recusou a me deixar para trás.”

domingo, 14 de dezembro de 2025

*NÃO HÁ FÉRIAS NA ESCOLA DA VIDA*.

 


*NÃO HÁ FÉRIAS NA ESCOLA DA VIDA*.

Abilio Machado 


Na escola da vida, ninguém pergunta se você quer se matricular. Basta nascer e já está inscrito. O período letivo… ah, esse nunca acaba.

O curioso é que, nessa escola, somos alunos e ao mesmo tempo podemos ensinar também. Mas o grande mestre é o tempo — esse professor exigente, paciente e, às vezes, severo. Ele não dá aviso prévio de prova. Um dia você acorda e lá está: o teste na mesa! E se não estudou, não praticou, vai falhar. Mas quase sempre terá direito a uma nova chance. 

Algumas matérias são leves: amor, amizade, gratidão, alegria. Outras exigem mais esforço: paciência, tolerância, perdão, humildade... Tem também aquelas disciplinas que a gente preferia não cursar: dor, perda, solidão. Mas é com elas que o aprendizado se aprofunda. 

O diretor da escola — que muitos chamam de Deus — tem um jeito todo particular de preparar as lições. Às vezes, ensina pelo afeto; outras, pela dificuldade. 

E assim vamos acumulando notas, sem boletim impresso, mas com um registro implacável no coração.

Nos conflitos, aprendemos a valorizar a paz. Na escassez, descobrimos o que nos é suficiente. Ao ver injustiças de desigualdades, treinamos a solidariedade. E, no convívio diário, aprendemos a arte difícil de amar o próximo — lição que alguns repetem por anos e anos sem conseguir passar.

Não há férias nessa escola. O sinal não toca para encerrar o expediente. Cada dia é uma nova aula. E talvez o diploma final seja a serenidade de olhar para trás e dizer: " Errei, mas aprendi. Viverei aprendendo e melhorando até o último dia de aula.” 


*VIVA COM SABEDORIA E NÃO ESQUEÇA DE AJUDAR SEUS COLEGAS DESSA ESCOLA DA VIDA!*