O Imperador Dom Pedro II, acompanhado da Princesa Teresa da Baviera, de sua esposa Dona Teresa Cristina e dos alunos da Escola Militar, visita o quartel do 2º Regimento de Artilharia de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, durante as festividades de seu retorno ao Brasil em agosto de 1888. As fotografias são de Eduardo Bezerra, da Coleção Pedro Corrêa do Lago.
Ironicamente, aquele mesmo 2º Regimento de Artilharia — uma das unidades militares mais poderosas da Corte Imperial — seria protagonista ativo do Golpe Militar de 15 de Novembro de 1889, sob a liderança de Benjamin Constant e Deodoro da Fonseca. Como a Escola Superior de Guerra não possuía regime de internato, os alferes-alunos passaram a morar nos quartéis do 2º Regimento. Em pouco tempo, criaram laços intensos de camaradagem com os oficiais inferiores das unidades do bairro, grande parte deles também formados na Escola Militar. Todos estariam juntos na assinatura dos chamados “pactos de sangue” e no movimento insurrecional. Assim, em 1889, São Cristóvão transformou-se num verdadeiro reduto da “mocidade militar republicana”.
Após a Proclamação da República, escreveu o Visconde de Ouro Preto:
“Não julgava possível a República enquanto vivesse o Imperador, e daí a minha surpresa. Se de mim tivesse dependido a sua permanência como Chefe da Nação, afirmo-lhe que não teria sido deposto. A República teve contra si haver sido feita por um pronunciamento militar, representado pela quinta parte do Exército. A Nação foi estranha a esse acontecimento.”
A observação referia-se ao fato de que a maioria dos militares envolvidos no golpe de 15 de Novembro sequer sabia que o objetivo final era derrubar a Monarquia. Foram participantes involuntários do drama ocorrido no Campo de Santana — muitos deles arrependeram-se pouco depois do papel que desempenharam.
Leôncio Basbaum ressalta, com inteira razão, que a República foi feita por um Exército que não era republicano, acrescentando que “na verdade, o Império não foi derrubado — caiu”. De fato, os três batalhões que compunham a coluna revolucionária que marchou para o Quartel-General naquela manhã eram comandados por dois monarquistas, cujas motivações eram voltadas contra o Ministério Ouro Preto, não contra o Imperador.
Um dos batalhões era comandado pelo Tenente-Coronel Silva Teles, confessadamente monarquista e intimamente contrário à sublevação. Dizia seguir “coagido”, movido pelo “império das circunstâncias”, segundo o Tenente Sebastião Bandeira. Outro batalhão era chefiado pelo Major Lobo Botelho, ainda mais monarquista que Silva Teles. Ele ordenou que seu batalhão marchasse com uma bandeira imperial — mas, segundo Ernesto Sena, o sargento encarregado de carregá-la a jogou pela janela de uma casa, onde provavelmente permaneceu.
Mais tarde, para justificar a ausência de bandeiras entre as tropas sublevadas que chegaram ao Quartel-General, propagou-se a versão de que saíram dos quartéis já decididas a derrubar a Monarquia. Porém, o Major Botelho, embora adversário do Ministério Ouro Preto, opunha-se àquela quartelada. Quando percebeu que o movimento se tornava um golpe contra a Monarquia, simplesmente abandonou o batalhão em frente ao Quartel-General e voltou para casa.
Esses eram os comandantes da tropa que se sublevou. Descendo na hierarquia, encontravam-se outros tantos oficiais sem convicção republicana — muitos ali apenas arrastados pelas circunstâncias, como Silva Teles. Na verdade, a coluna revolucionária só tinha convicção republicana entre alguns poucos tenentes e cadetes, que, num golpe de ousadia, haviam inflamado o movimento, superando a indecisão e a fragilidade moral dos comandantes.
Dias depois do golpe republicano, um grupo de homens do 2º Regimento de Artilharia tentou organizar um novo levante — desta vez contra o Governo Provisório — pois sequer compreendiam que o movimento de 15 de Novembro tinha como objetivo depor a Monarquia.
Fonte: História da Queda do Império, de Heitor Lyra.

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