segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O homem no banco da igreja enquanto ouvia demais...

 O homem no banco da igreja (enquanto ouvia demais)

Sentado no banco de madeira, o homem não fechou os olhos. Chegou um pouco atrasado, ainda pegou a sacramental, seus movimentos não são como antes, o peso, as dores, o cansaço...

Quando vai a reunião, vai para ouvir, pensar, comungar...

Preferiu manter os olhos abertos, não por distração, mas por vigilância interior.

Aprendeu cedo que, às vezes, é preciso olhar para ouvir melhor, também para ver se os movimentos coincidem com as palavras, se as pessoas soubessem o quanto se entregam ao ferir a própria verdade, o corpo entrega, ele fala e diz : uhmmm?!

O discurso avançava pelos bancos como quem anda certo demais do caminho.

Então ouviu:

“Deus é como um eletrotécnico…” com outras palavras, mas seu interior entendeu assim..

E algo dentro dele fez curto-circuito.

Não por desprezo à linguagem simples — ele sabia que a fé também nasce na infância —,

mas porque ali não havia simplicidade, havia redução.

Deus transformado em técnico de manutenção, a oração virando botão,

o milagre tratado como serviço sob demanda.

O homem pensou:

quando Deus vira função, a fé vira ferramenta.

Depois veio algo ainda mais inquietante:

a ideia de que um pequeno engano pode servir para espalhar a Palavra.

Ele endireitou as costas no banco.

Desde quando a Verdade precisa de truques?

Desde quando a mentira se torna santa só porque está bem-intencionada?

O homem conhecia esse raciocínio — ele mora em muitos lugares, não só na igreja.

É sempre o mesmo sussurro: “é errado, mas é para o bem”.

E ele sabia:

quando o meio adoece, o fim já nasceu contaminado.

O discurso seguia, agora falando do homem falho.

Falho na igreja. Falho na vida. Falho diante de Deus.

Até aí, nenhuma novidade.

A novidade estava no uso da falha como amortecedor moral.

Como se dizer “sou humano” fosse um salvo-conduto para não mudar nada.

O homem no banco da igreja pensou no perigo disso.

Pensou no homem que canta louvores no domingo

e negocia princípios na segunda.

No homem que ora com fervor

e justifica dureza, manipulação e engano dizendo:

“Deus conhece meu coração”.

E então a pergunta que ninguém fez ecoou dentro dele:

Há como sermos um homem dentro da igreja

e outro completamente diferente fora dela?

Ele sabia a resposta, embora doesse.

Isso não é fé — é fragmentação.

E viver partido por dentro cobra um preço alto demais.

Quando os discursos terminaram, houve silêncio. Para ambos.

Mas não dentro dele.

O homem permaneceu sentado, como quem entende que nem toda palavra dita do púlpito desce pronta para a alma.

Anotou os pontos que mexeu com ele no seu espaço no whatsapp.

Algumas precisam ser examinadas, outras devolvidas,

e algumas… simplesmente deixadas ali, no banco de madeira.

Ele levantou devagar.

Não perdeu a fé naquele dia, domingo dia 28.

Perdeu apenas a necessidade de engolir tudo sem mastigar.

E saiu sabendo que questionar, às vezes,

é a forma mais honesta de oração.

Obs.: Não vou a igreja por ir, vou para comungar e pensar.

Faço valer muito a música : O Último Banco 




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