O homem no banco da igreja (enquanto ouvia demais)
Sentado no banco de madeira, o homem não fechou os olhos. Chegou um pouco atrasado, ainda pegou a sacramental, seus movimentos não são como antes, o peso, as dores, o cansaço...
Quando vai a reunião, vai para ouvir, pensar, comungar...
Preferiu manter os olhos abertos, não por distração, mas por vigilância interior.
Aprendeu cedo que, às vezes, é preciso olhar para ouvir melhor, também para ver se os movimentos coincidem com as palavras, se as pessoas soubessem o quanto se entregam ao ferir a própria verdade, o corpo entrega, ele fala e diz : uhmmm?!
O discurso avançava pelos bancos como quem anda certo demais do caminho.
Então ouviu:
“Deus é como um eletrotécnico…” com outras palavras, mas seu interior entendeu assim..
E algo dentro dele fez curto-circuito.
Não por desprezo à linguagem simples — ele sabia que a fé também nasce na infância —,
mas porque ali não havia simplicidade, havia redução.
Deus transformado em técnico de manutenção, a oração virando botão,
o milagre tratado como serviço sob demanda.
O homem pensou:
quando Deus vira função, a fé vira ferramenta.
Depois veio algo ainda mais inquietante:
a ideia de que um pequeno engano pode servir para espalhar a Palavra.
Ele endireitou as costas no banco.
Desde quando a Verdade precisa de truques?
Desde quando a mentira se torna santa só porque está bem-intencionada?
O homem conhecia esse raciocínio — ele mora em muitos lugares, não só na igreja.
É sempre o mesmo sussurro: “é errado, mas é para o bem”.
E ele sabia:
quando o meio adoece, o fim já nasceu contaminado.
O discurso seguia, agora falando do homem falho.
Falho na igreja. Falho na vida. Falho diante de Deus.
Até aí, nenhuma novidade.
A novidade estava no uso da falha como amortecedor moral.
Como se dizer “sou humano” fosse um salvo-conduto para não mudar nada.
O homem no banco da igreja pensou no perigo disso.
Pensou no homem que canta louvores no domingo
e negocia princípios na segunda.
No homem que ora com fervor
e justifica dureza, manipulação e engano dizendo:
“Deus conhece meu coração”.
E então a pergunta que ninguém fez ecoou dentro dele:
Há como sermos um homem dentro da igreja
e outro completamente diferente fora dela?
Ele sabia a resposta, embora doesse.
Isso não é fé — é fragmentação.
E viver partido por dentro cobra um preço alto demais.
Quando os discursos terminaram, houve silêncio. Para ambos.
Mas não dentro dele.
O homem permaneceu sentado, como quem entende que nem toda palavra dita do púlpito desce pronta para a alma.
Anotou os pontos que mexeu com ele no seu espaço no whatsapp.
Algumas precisam ser examinadas, outras devolvidas,
e algumas… simplesmente deixadas ali, no banco de madeira.
Ele levantou devagar.
Não perdeu a fé naquele dia, domingo dia 28.
Perdeu apenas a necessidade de engolir tudo sem mastigar.
E saiu sabendo que questionar, às vezes,
é a forma mais honesta de oração.
Obs.: Não vou a igreja por ir, vou para comungar e pensar.
Faço valer muito a música : O Último Banco
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