terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Sem lugar para repousar - O Homem Sentado no Banco da Igreja


Sem lugar para repousar - O sem lugar!

Eu tenho ido à igreja para pensar e comungar, ultimamente, no início tentei fazer mais, porém me parecia ser boicotado de alguma forma.

 Então repito isso para mim mesmo,

: vou para comungar e pensar, como quem precisa lembrar o motivo de ainda estar ali.

Não vou para obedecer sem perguntas.

Não vou para me esconder no coro das certezas.

Vou porque ainda acredito que a fé possa ser um espaço onde a consciência não precise ser amputada.

Mas, sentado no banco da igreja, comecei a perceber algo incômodo:

eu já não tenho lugar ali?!

Eu estava ali fisicamente, mas minha palavra precisava sempre pedir permissão para existir, precisa de certa licença.

Se faz uma oração - olha nos fazemos oração assim. - mesmo que a oração seja postada.

O que eu escutava passava por mim com filtros.

O que eu pensava não encontra espaço para pousar. São detalhes, pequenos sinais, são incoerências fisgadas.

E, quando ouso nomear o incômodo, vem o silêncio — ou algo pior: a contenção disfarçada de cuidado.

Último domingo do ano, e ouvi histórias simples sendo transformadas em doutrina apressada.

Crianças que oraram para uma televisão ligar — e ligou. Imaginei Deus de chave de fenda, ferro de solda e teste de energia em mãos.

Sorri com a palestrante e estranhei o sorriso da assistência, dei no momento crédito porque a fé infantil é confiança pura.

Mas me calei quando percebi que o mistério estava sendo reduzido a mecanismo.

Deus não virou eletrotécnico naquele dia.

Nós é que O tornamos pequeno demais para caber numa explicação rápida.

Agora penso riram pela ideia do revezamento nas orações para ver que Deus atenderia.

Depois ouvi que, às vezes, um pequeno engano pode servir para levar alguém à igreja. Não um engano casual, um premeditado, pensado e avaliado como sendo fonte de inspiração do espírito...

Que ao dizer a uma colega que a acompanhasse em buscar um utensílio, quando na verdade a levaria a uma Noite Familiar, isso em seu pensamento  goi aceitável — afinal, a intenção fôra boa.

Ali algo em mim se retraiu... AO ver algumas faces em aprovação, como a dizerem a si mesmos: por quê não pensei nisso antes ? Uhm, posso fazer algo assim.

Desde quando a Verdade precisa ser apresentada por armadilha? Me pergunto.

Desde quando Deus se satisfaz com atalhos que violam a liberdade do outro?

Não falei. Porém tive vontade de levantar a mão e dar um "perai amiga'.

Aprendi que, em certos ambientes, pensar demais é visto como obstáculo à obra, então engoli em seco sem saliva.

Então veio o discurso sobre o homem falho.

Falho na igreja.

Falho no mundo.

Falho diante de Deus.

Concordei.

Sou falho.

Mas percebi que a falha estava sendo usada como anestesia moral.

Como se reconhecer o erro bastasse para continuar tudo igual.

Como se fosse possível ser um homem no templo e outro completamente diferente quando se sai dele.

Foi aí que me dei conta:

não é o homem falho que me inquieta.

É o homem dividido.

E eu não quero ser dois.

Essa sensação não ficou restrita à igreja.

Ela me acompanha em casa, à mesa, no espaço que deveria ser abrigo.

Estava com minha ex-esposa, meu filho trans e minhas filhas.

Em um momento de conversa, tentei pensar em voz alta.

Falei, talvez de forma imperfeita, sobre identidade, sobre orientação, sobre algo que eu ainda tento compreender por inteiro.

Antes que a conversa pudesse existir, fui interrompido.

Minha ex, acariciando meu filho, disse:

“Não explique, ele não entenderia.”

Ali, não fui apenas corrigido.

Fui retirado da cena.

Toda a minha formação, minha escuta, meu cuidado, meu esforço sincero de compreender foram reduzidos a um papel estreito:

o pai que não alcança.

O homem que não entende.

O ex. O expatriado.

O que precisa ser silenciado para proteger o outro.

Conheço bem esse gesto.

Já o vi muitas vezes.

Sempre que minha palavra se torna complexa demais, o ambiente se organiza para contê-la.

Na família.

Na igreja.

Na faculdade com professoras militantes, bem como no técnico em arte dramática.

Nos grupos de whatsapp que dependendo da postagem ou resposta você pertence a um lado da polarização política.

E na vida social.

E, repetidas vezes, fiz o mesmo movimento:

afastei-me.

Não por orgulho.

Não por frieza.

Mas porque ficar exigia que eu me diminuísse.

A gente se afasta quando falar dói mais do que calar.

Quando estar presente significa desaparecer por dentro.

Quando não há lugar para repousar sem abrir mão de si.

Foi assim que comecei a me reconhecer como o sem lugar.

Não expulso.

Não rejeitado abertamente.

Mas também não acolhido por inteiro.

O que pensa demais.

O que escuta demais.

O que percebe o tom de voz, o gesto, a postura corporal, o que não foi dito.

O que não consegue desligar o olhar clínico, humano, espiritual.

Perguntei a mim mesmo muitas vezes:

será este o meu problema?

Hoje entendo que não.

Meu problema não é ver demais.

É viver em lugares que suportam pouco.

E isso cansa.

Cansa ter que escolher entre falar e pertencer.

Entre ser inteiro e ser aceito.

Entre pensar e descansar.

Tenho me perguntado, com honestidade:

terei eu um lugar para repousar?

Não um lugar onde todos concordem comigo.

Mas um lugar onde minha palavra não precise pedir licença.

Onde a dúvida não seja ameaça.

Onde a fé não exija silêncio da consciência.

Talvez eu ainda não tenha chegado a esse lugar.

Mas sei onde ele não está.

Ele não está onde pensar é visto como perigo.

Onde amar exige amputação.

Onde a verdade precisa ser disfarçada para entrar.

Onde a falha vira desculpa para não mudar.

Por enquanto, sigo assim:

indo à igreja para pensar e comungar.

Amando minha filhas, mesmo quando não posso explicar que meu olhar do mundo é daquele que já viveu o regime militar, nasci lá no seu princípio e os sinais de hoje são os mesmos, só que pior, muito pior.

Vou continuar habitando o mundo com atenção, ainda que deslocado.

Talvez o “sem lugar” não seja meu destino.

Talvez seja apenas o nome desta travessia.

E enquanto o repouso não chega por inteiro,

escrever, pensar e falar com honestidade

já são, para mim, uma forma de descanso.

Não desejo ser uma redução em rede social,

ou me dividir para caber. 

Minha vida pede continuidade.

Continuidade de mim mesmo para me manter em sobrevivência.

Até achar um lugar onde minha Alma cansada possa descansar...


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