O homem sentado no banco da igreja
"Quando Deus Ligou a Televisão"
Sentado no banco da igreja, o homem ouviu com atenção redobrada.
O tom do discurso mudou quando vieram as crianças na fala da palestrante.
Três.
Pequenas o suficiente para ainda acreditarem que o mundo responde rápido quando se fala com Deus.
Queriam assistir televisão.
A TV não ligava.
Então oraram.
E a televisão ligou.
A igreja reagiu com sorrisos leves, desses que aquecem por fora. Pela simplicidade do pedido talvez
O homem também sorriu — não por concordar plenamente, mas por respeito à inocência.
Ele sabia: a fé das crianças não é cálculo, é confiança.
O incômodo não estava no fato.
Estava na leitura do fato.
Porque entre a oração e a televisão acesa existe um espaço delicado, quase invisível, onde mora o sentido que se ensina.
E foi ali que o homem sentiu o chão escorregar um pouco.
Deus não se revelou eletrotécnico às crianças.
Quem O vestiu com essa função fomos nós, os adultos, apressados em transformar mistério em prova, fé em evidência, coincidência em doutrina.
Para uma criança, tudo é sinal.
Para um adulto, tudo vira argumento.
O homem pensou que o perigo não é a criança acreditar que Deus ouviu sua oração.
O perigo é ela crescer achando que quando as coisas não ligam, Deus falhou.
Ou pior: que a oração serve para consertar objetos,
e não para sustentar pessoas quando nada funciona.
Ele lembrou que Deus não prometeu televisões ligadas,
mas presença quando a vida desliga.
O discurso seguiu, celebrando o episódio como lição.
O homem permaneceu em silêncio.
Porque sabia:
quando ensinamos que Deus responde ligando aparelhos,
corremos o risco de não saber onde Ele está
quando o corpo adoece, o filho parte, a fé oscila
e nenhuma tela acende.
Ao final, o homem levantou-se mais o corpo no banco, teve vontade de sair, mas cria que ouviria mais coisas, resolveu anotar para não deixar escapulir este momento de análise psicoteologica.
Não saiu escandalizado.
Ficou ali, atento.
Convencido de que a fé infantil deve ser acolhida,
mas a fé adulta precisa ser responsável.
Deus ouviu aquelas crianças?
Talvez.
Mas certamente não desceu do céu com uma chave de fenda.
E o homem, ainda no banco da igreja, fez sua própria oração silenciosa:
Que nunca falte às crianças um Deus que escuta.
E aos adultos, a coragem de não ensinar Deus pequeno demais...
Amém!
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