domingo, 30 de agosto de 2026

"Eu não sou Deus. Mas sou filho Dele."

 



"Eu não sou Deus. Mas sou filho Dele."

Por Abilio Machado 


Há frases que chegam até nós vestidas de verdade.


Algumas parecem tão bonitas que quase não perguntamos de onde vieram.


“Assuma sua identidade como Deus e nunca mais sofrerá.”


É uma frase poderosa.


Mas, quando a colocamos diante do Evangelho restaurado, precisamos fazer uma pequena mudança. Talvez uma mudança de apenas algumas palavras, mas que transforma tudo.


Eu não sou Deus.

Eu sou filho de Deus.


E talvez essa seja uma das maiores descobertas que uma pessoa pode fazer sobre si mesma.


Porque há uma diferença enorme entre acreditar que somos o próprio Deus caminhando pela Terra e compreender que carregamos em nossa existência uma origem divina e um potencial eterno.


Não somos o Pai Celestial.

Não somos Jesus Cristo.


Mas somos filhos do Pai Celestial e podemos escolher seguir Jesus Cristo.

E é justamente aí que começa uma psicoteologia profundamente transformadora.

Imagine alguém que passou a vida inteira acreditando que é aquilo que lhe aconteceu.


“Sou o abandono que sofri.”

“Sou o casamento que fracassou.”

“Sou o filho que perdi.”

“Sou a doença que apareceu.”

“Sou o erro que cometi.”

“Sou o pecado do qual me arrependo.”

“Sou aquilo que disseram sobre mim.”


Talvez essa pessoa tenha passado tanto tempo olhando para suas feridas que acabou confundindo suas cicatrizes com sua identidade.


Mas então o Evangelho chega e pergunta:

Quem disse que aquilo que aconteceu com você é aquilo que você é?

Você é mais do que sua história.

Mais do que seus fracassos.

Mais do que seus medos.

Mais do que suas quedas.

Mais do que a opinião daqueles que não conseguiram enxergar seu valor.


Você é filho.

E filhos podem crescer.

Filhos podem aprender.

Filhos podem errar e voltar.

Filhos podem cair e levantar.

Filhos podem mudar.

E talvez seja por isso que a doutrina da agência seja tão bonita.


No Livro de Mórmon encontramos uma ideia que parece simples, mas possui uma profundidade psicológica enorme: “é necessário que haja uma oposição em todas as coisas.”

A mortalidade não foi apresentada como um lugar onde nunca sofreríamos.

Foi apresentada como um lugar de escolhas.


De aprendizado.

De oposição.

De crescimento.

De alegria e tristeza.

De perdas e reencontros.

De quedas e arrependimentos.

De escolhas certas e escolhas equivocadas.


A própria Igreja ensina que a oposição pode permitir nosso crescimento em direção àquilo que o Pai Celestial deseja que nos tornemos.


Portanto, a promessa do Evangelho não é:


“Você nunca mais sofrerá.”


A promessa é muito mais profunda:


“Você nunca precisará atravessar seu sofrimento sozinho.”


Cristo não prometeu uma existência sem lágrimas.

Ele próprio chorou.

Ele próprio sofreu.

Ele próprio conheceu a solidão.

Ele próprio experimentou a dor.


Por isso, quando o cristão sofre, não precisa concluir imediatamente:


“Deus me abandonou.”


Talvez possa perguntar:


“O que posso aprender enquanto atravesso isso?”

Não porque toda dor seja enviada por Deus.

Mas porque, com Deus, até aquilo que não escolhemos viver pode ser transformado em aprendizado, compaixão, maturidade e crescimento.

Essa é uma diferença fundamental.

Não precisamos romantizar o sofrimento.

Precisamos encontrar significado nele.

A psicologia nos ensina que a maneira como interpretamos nossa própria história interfere profundamente na maneira como a vivemos.


A fé acrescenta uma pergunta:


“E se minha história não terminar onde minha dor começou?”


É aqui que a identidade espiritual se encontra com a saúde da alma.


Eu posso dizer:


“Eu errei.”


Sem precisar dizer:


“Eu sou um erro.”


Posso dizer:


“Eu pequei.”


Sem precisar dizer:


“Eu sou o meu pecado.”


Posso dizer:


“Eu fui abandonado.”


Sem precisar concluir:


“Eu não sou digno de ser amado.”


Posso dizer:


“Estou sofrendo.”


Sem transformar:


“Estou sofrendo” em “eu sou sofrimento.”


Porque uma coisa é aquilo que acontece conosco.

Outra coisa é aquilo que fazemos disso dentro de nós.

E existe ainda uma terceira coisa:

aquilo que Deus pode fazer conosco quando colocamos nossa vida nas mãos de Cristo.

Talvez seja por isso que a ideia de “Eu Sou” precise ser tratada com reverência.

Eu não sou Deus.


Mas posso dizer:


Eu sou filho de Deus.

Eu não sou Cristo.

Mas posso dizer:

Quero desenvolver os atributos de Cristo.

Eu não sou a própria Consciência Universal.


Mas posso dizer:


Quero tornar minha consciência mais sensível ao Espírito de Deus.

Eu não controlo a realidade simplesmente pensando nela.

Mas posso escolher como responderei à realidade que me foi dada.


E isso é agência.


Posso não escolher tudo o que acontece comigo.

Mas posso escolher o que farei com aquilo que aconteceu.

Posso escolher perdoar.

Posso escolher arrepender-me.

Posso escolher pedir ajuda.

Posso escolher levantar.

Posso escolher servir.

Posso escolher continuar acreditando.

Posso escolher Cristo.


E talvez essa seja uma das maiores revoluções psicológicas do Evangelho:

não precisamos negar nossa humanidade para reconhecer nossa divindade potencial.


Somos mortais.

Mas temos uma origem eterna.

Somos imperfeitos.

Mas podemos progredir.

Somos frágeis.

Mas não somos sem valor.

Somos pecadores.


Mas podemos nos arrepender.


Somos feridos.

Mas podemos ser curados.

Somos filhos.

E filhos ainda estão aprendendo.


Por isso, quando alguém disser:


“Assuma sua identidade como Deus e nunca mais sofrerá”,


talvez possamos responder com algo ainda mais bonito:


“Eu não preciso ser Deus para ter valor.

Preciso lembrar que sou filho Dele.”


E então a frase muda.

Não é mais:


“Eu sou Deus na forma humana.”


É:


“Sou um filho de Deus vivendo uma experiência mortal, aprendendo a escolher, crescer, amar, arrepender-me e tornar-me semelhante a Cristo.”


E talvez seja justamente aí que começa uma verdadeira transformação.


Porque quando uma pessoa descobre que sua identidade não está presa ao passado, ela começa a olhar para o futuro.

Quando descobre que uma queda não é sua identidade, pode levantar.

Quando entende que uma doença não define sua alma, pode continuar lutando.

Quando percebe que um pecado não precisa ser seu nome para sempre, pode arrepender-se.

Quando compreende que uma perda não apaga sua capacidade de amar, pode voltar a amar.

E quando finalmente entende que é filho de Deus...

talvez não deixe de chorar.

Mas passa a chorar de outra maneira.

Não como quem acredita que foi esquecido.

Mas como quem, mesmo entre lágrimas, ainda consegue dizer:


“Pai, eu não entendo tudo o que estou vivendo.

Mas sei de quem sou filho.

E, por isso, ainda posso continuar.”


Talvez essa seja a verdadeira Boa-Nova.

Não a promessa de uma vida sem sofrimento.

Mas a certeza de que o sofrimento não terá a última palavra.

Porque a identidade de um filho de Deus é maior do que qualquer capítulo da sua história.

E a história ainda não terminou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário