Os desigrejados: quando a fé sai pela porta da igreja
Por Abilio Machado
Há pessoas que deixaram a igreja, mas não deixaram Deus.
E talvez essa seja a primeira coisa que precisamos compreender quando falamos dos chamados “desigrejados”.
O termo costuma ser usado para identificar pessoas que não frequentam regularmente uma instituição religiosa, embora algumas continuem acreditando em Deus, cultivando a espiritualidade, lendo as Escrituras, orando e buscando uma relação com o sagrado.
Mas há uma pergunta escondida por trás dessa palavra:
o que fez alguém sair?
Nem sempre foi falta de fé.
Às vezes foi excesso de dor.
Há quem tenha saído porque encontrou hipocrisia onde esperava acolhimento. Há quem tenha sido ferido por líderes religiosos. Outros cansaram de viver uma fé baseada no medo, na culpa e na vigilância constante. Alguns foram embora depois de perceber que a instituição parecia mais preocupada em preservar suas estruturas do que em cuidar de suas pessoas.
E há aqueles que simplesmente descobriram que já não conseguiam acreditar da mesma maneira.
Também existem os que nunca abandonaram Deus. Apenas abandonaram uma determinada maneira de procurá-Lo.
Talvez seja por isso que o fenômeno dos desigrejados não possa ser explicado simplesmente com frases como:
“Perdeu a fé.”
“Está afastado de Deus.”
“Quer viver do seu jeito.”
Essas explicações podem ser confortáveis, mas são pequenas demais para explicar uma realidade tão humana.
O lado psicológico
Existe uma dimensão psicológica importante nessa ruptura.
Toda instituição cria pertencimento, identidade, vínculos e também expectativas.
Quando alguém passa anos acreditando que determinado espaço é sua família espiritual e, de repente, experimenta rejeição, julgamento ou violência simbólica, a saída pode ser também uma forma de autopreservação.
Às vezes, sair não significa abandonar a fé.
Significa tentar sobreviver emocionalmente a uma experiência religiosa que se tornou insuportável.
Mas aqui aparece o primeiro porém.
Sair de uma igreja não resolve automaticamente todas as feridas produzidas dentro dela.
Podemos abandonar o templo e continuar carregando seus bancos dentro da cabeça.
Podemos deixar o púlpito e continuar ouvindo a voz do pregador dentro da consciência.
Podemos parar de frequentar cultos e continuar vivendo sob a culpa, o medo e a necessidade de aprovação que aprendemos ali.
É possível sair da instituição sem sair do conflito interior.
Por isso, algumas pessoas precisam não apenas de distância religiosa, mas de elaboração psicológica.
E o lado teológico?
Aqui precisamos ter cuidado.
A Bíblia apresenta tanto a dimensão comunitária quanto a dimensão pessoal da fé.
Jesus encontrou pessoas em casas, estradas, montanhas, sinagogas e junto ao mar. A experiência espiritual nunca esteve limitada a quatro paredes.
Mas o cristianismo também não nasceu como uma religião absolutamente individualista.
Existe comunidade.
Existe partilha.
Existe serviço.
Existe cuidado.
Existe o outro.
Por isso, transformar o “desigrejado” em uma espécie de novo modelo de espiritualidade perfeita também seria um erro.
Porque uma pessoa pode sair de uma instituição opressora e encontrar liberdade.
Mas também pode sair de toda comunidade porque não deseja mais ser confrontada, contrariada ou responsabilizada.
E esse é um dos grandes poréns.
Às vezes, o problema não está apenas na igreja.
Às vezes, está também na nossa dificuldade de conviver com aquilo que nos incomoda.
Uma comunidade saudável não existe para concordar conosco o tempo inteiro.
Ela também nos confronta.
Ela nos tira do centro.
Ela nos ensina que fé não é apenas sentir Deus, mas aprender a amar pessoas que pensam, sentem e vivem de maneira diferente de nós.
Quando a liberdade vira isolamento
Existe uma diferença entre liberdade espiritual e isolamento espiritual.
A primeira pode significar amadurecimento.
A segunda pode transformar-se em uma espécie de bolha onde somente aquilo que confirma nossas convicções é aceito.
“Eu e Deus” pode ser uma experiência profundamente verdadeira.
Mas “eu, Deus e ninguém mais” pode esconder também uma dificuldade de relacionamento.
Porque religião pode adoecer.
Mas a ausência absoluta de vínculos também pode adoecer.
A comunidade pode ferir.
Mas o isolamento também pode ferir.
A instituição pode produzir dependência.
Mas a autonomia exagerada pode produzir narcisismo espiritual.
E talvez seja justamente aí que precisamos abandonar as respostas prontas.
Os desigrejados não são todos iguais
Há desigrejados que estão procurando Deus.
Há desigrejados que estão fugindo da religião.
Há desigrejados que estão feridos.
Há desigrejados que estão decepcionados.
Há desigrejados que simplesmente não acreditam mais.
Há aqueles que encontraram uma espiritualidade mais madura fora da instituição.
E há aqueles que apenas trocaram uma igreja física por uma igreja virtual onde escolhem somente aquilo que desejam ouvir.
Por isso, antes de perguntar:
“Por que ele saiu da igreja?”
Talvez devêssemos perguntar:
“O que aconteceu com ele dentro da igreja?”
E depois perguntar:
“O que está acontecendo com ele agora?”
Porque nem todo afastamento é rebeldia.
Assim como nem toda permanência é fidelidade.
Há pessoas dentro das igrejas que estão profundamente distantes de Deus.
E há pessoas fora delas que continuam procurando-O sinceramente.
Talvez a pergunta mais importante
Talvez Deus não esteja tão preocupado com o lugar onde nos sentamos no domingo quanto com aquilo que fazemos com o amor que recebemos.
Porque é possível ocupar um banco de igreja e permanecer indiferente à dor do outro.
É possível conhecer dezenas de versículos e não saber acolher uma pessoa ferida.
É possível defender a doutrina correta e desenvolver um coração completamente errado.
Mas também é possível sair da igreja e transformar a própria dor em arrogância.
É possível usar os erros de uma instituição como justificativa para não pertencer a lugar algum.
É possível transformar a própria liberdade em uma nova religião.
E talvez seja esse o grande desafio dos desigrejados:
não trocar uma prisão por outra.
Se a igreja que deixamos nos ensinou a ter medo de Deus, precisamos descobrir um Deus que não seja construído pelo medo.
Se ela nos ensinou a odiar quem pensa diferente, precisamos reaprender o amor.
Se nos ensinou a depender cegamente de líderes, precisamos recuperar a consciência.
Mas, se ela nos feriu, precisamos também cuidar das feridas para que a nossa dor não se transforme em identidade.
Porque sair da igreja pode ser necessário.
Mas sair da igreja não significa necessariamente encontrar a liberdade.
A liberdade começa quando conseguimos olhar para nossa história sem precisar negar aquilo que vivemos.
Talvez alguns desigrejados estejam apenas procurando uma casa espiritual onde possam respirar.
Talvez alguns estejam procurando Deus.
Talvez alguns estejam procurando a si mesmos.
E talvez alguns estejam tentando descobrir se ainda conseguem acreditar depois de terem sido decepcionados justamente por aqueles que diziam representar a fé.
No fim, talvez a pergunta não seja:
“Você está na igreja?”
Talvez seja:
“O que a sua fé está fazendo de você?”
Porque se ela não produz amor, compaixão, responsabilidade, humildade e capacidade de cuidar do outro, talvez devêssemos ter coragem de olhar para dentro.
E isso vale para quem está dentro da igreja e para quem está fora dela.
Afinal, Deus não cabe em nossos templos.
Mas também não cabe no nosso ego.
E talvez a verdadeira maturidade espiritual comece justamente quando descobrimos que pertencer a Deus não é simplesmente encontrar um lugar para sentar, mas encontrar uma maneira de viver.
— Abilio Machado
Psicoteologia, para além das paredes e para dentro da alma.

Nenhum comentário:
Postar um comentário