Meu irmãozinho William postou um print que reflete um pensamento que sempre me questionei sobre o porque muitos se prendem no último instante como resposta a tudo que fizeram ou se omitiram.
A Procrastinação Espiritual
Nessa primeira parte vou me referir ao acerto de contas com Ele...
Há uma ideia que, ao longo do tempo, parece ter sido assimilada por muitos cristãos, ainda que nem sempre tenha sido essa a intenção da pregação: "Algum dia eu me arrependo."
Essa frase, aparentemente inocente, revela um dos mecanismos mais perigosos da alma humana. Psicologicamente, ela funciona como um anestésico da consciência. A pessoa reconhece que precisa mudar, mas adia a mudança para um futuro imaginário. É uma forma de negociar consigo mesma: "Continuo vivendo como desejo e, mais tarde, acerto minhas contas com Deus."
Chamo esse fenômeno de procrastinação espiritual.
O mais curioso é que essa mentalidade frequentemente encontra justificativa no episódio do Bom Ladrão crucificado ao lado de Cristo. Muitos enxergam naquele acontecimento uma prova de que sempre haverá tempo para o arrependimento. No entanto, essa interpretação inverte completamente o sentido do texto bíblico.
O ladrão não planejou arrepender-se na última hora. Ele não viveu apostando na misericórdia futura. Seu arrependimento foi espontâneo, profundo e sincero, nascido diante da verdade de Cristo e da própria finitude. O Evangelho descreve um acontecimento extraordinário; não estabelece uma estratégia de vida.
Quando esse relato é transformado em um modelo de comportamento, a graça deixa de ser um convite à transformação e passa a ser tratada como uma espécie de seguro espiritual: vive-se como se deseja hoje, acreditando que bastará um pedido de perdão amanhã.
É justamente aí que mora o perigo psicoteológico.
A procrastinação espiritual produz a ilusão de que controlamos o tempo, como se soubéssemos quando será nossa última oportunidade de escolher Deus. Entretanto, ninguém possui essa garantia. O amanhã pertence apenas aos nossos planos; jamais às nossas certezas.
A graça nunca foi um incentivo ao adiamento. Ela sempre foi um chamado ao presente.
O episódio da cruz nos ensina que nunca é tarde para um arrependimento verdadeiro. Mas jamais ensina que devemos deixar para nos arrepender no último instante.
Talvez a maior tragédia espiritual não seja o pecado em si, mas a falsa segurança de acreditar que sempre haverá tempo para abandoná-lo.
Porque quem vive dizendo "algum dia eu me arrependo" corre o risco de descobrir, tarde demais, que o único tempo sobre o qual realmente tinha domínio chamava-se hoje.
Abilio Machado
Psicoarteterapeuta


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