Samuel ouve Deus no silêncio da noite.
Ele está deitado. O templo está quieto. A lâmpada ainda não se apagou.
E Deus o chama pelo nome.
Assim também o homem nu diante do computador — cansado de barulhos externos, de distrações inúteis, de pornografia sem alma, de redes sociais que simulam conexão — anseia, no fundo, ouvir algo mais.
Algo que o chame pelo nome, e não pelo algoritmo.
Algo que o reconheça em sua essência, e não pelo que consome, segue ou posta.
Algo que o veja nu e, ainda assim, o chame com ternura.
Samuel não entende de primeira.
Corre para o sacerdote.
Pensa que é outra coisa.
Mas aprende a ouvir. Aprende a responder:
📖 "Fala, Senhor, teu servo ouve."
Assim também o homem nu diante da tela pode ser aquele que, no silêncio e na vergonha, finalmente escuta o que não é dado por pixels, mas por presença.
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Entre o Silêncio e o Chamado: quando Deus nos encontra nus
Por Abilio Machado
Ele, aquele homem, está nu.
Não por desejo. Nem por ousadia.
Está nu porque não tem mais vontade de vestir-se para o mundo.
A cadeira range sob o peso do corpo cansado.
A tela do computador ainda brilha. Mas seus olhos já não suportam mais tanta luz artificial.
Navegou por páginas que não lembrará, buscou em imagens um consolo rápido que não consola. Tentou se perder em redes para esquecer de si mesmo.
Mas algo ficou.
Algo pulsa ali, no silêncio entre uma aba e outra.
É madrugada.
E ele, nu, diante da tela, ouve... alguma coisa.
Não é notificação.
Não é alerta.
É um sussurro sem som que cutuca a alma:
"Você está aí?"
Ele se assusta.
Verifica se é alucinação.
Mas não é.
Sente, pela primeira vez em muito tempo, que alguém o vê – não pelo histórico de navegação, nem pelas câmeras ocultas, mas pela alma exposta.
E então, sem saber como, lembra da história de um menino: Samuel.
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A voz no escuro
Samuel era jovem.
Vivendo num templo gasto, dormia ao lado da arca da aliança.
E ali, no escuro da noite, ouviu seu nome ser chamado.
Ele pensou ser o velho sacerdote.
Levantou-se, confuso, três vezes.
Até que entendeu: não era homem quem o chamava.
Era Deus.
Era o Sagrado, atravessando o silêncio para tocar sua intimidade.
"Fala, Senhor, teu servo ouve."
A resposta de Samuel ecoa agora no homem nu diante do computador.
Não há templo. Não há sacerdote.
Mas há alma.
E há um cansaço profundo de correr atrás de ruídos, de tentar ser visto por likes, de buscar amor em toques sem calor.
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Quando tudo se cala
O homem nu não se cobre.
Não por rebeldia, mas por aceitação.
Está como veio ao mundo.
Como Adão antes do erro.
Como Samuel antes do chamado.
E pensa:
"Se Deus ainda fala, será que pode falar comigo, aqui, assim, do jeito que estou?"
Não há trovões.
Não há revelações mirabolantes.
Apenas o peso de um nome sussurrado dentro dele mesmo:
“Samuel...”
Ou talvez:
“Você...”
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Talvez a nudez mais necessária não seja a do corpo, mas a da alma.
Talvez o silêncio que mais amedronta seja também o único capaz de revelar a voz que realmente importa.
E talvez, apenas talvez,
a resposta mais corajosa seja simplesmente:
“Fala, Senhor. Teu servo está ouvindo.”

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