sábado, 21 de fevereiro de 2026

“A Idade da Aliança”

 


“A Idade da Aliança”

Há quem pense que a circuncisão pertence à infância.

Aos oito dias, nos textos antigos, ela era sinal de pertença, de tradição, de aliança.

Na infância, ninguém escolhe.

O rito antecede a consciência.

Mas a vida é curiosa:

às vezes a circuncisão reaparece em outras idades — não como tradição, mas como necessidade.

Na juventude, pode ser desconforto.

Na maturidade, pode ser saúde.

Na velhice, pode ser prevenção.

O gesto é o mesmo.

O significado muda.

Quando acontece cedo, é identidade herdada.

Quando acontece tarde, é decisão assumida.

E talvez seja aí que a reflexão comece.

A masculinidade jovem costuma estar cercada de símbolos: tamanho, potência, afirmação, comparação.

Há um imaginário silencioso que atravessa gerações — como se o valor do homem estivesse concentrado em centímetros invisíveis de expectativa.

Mas o tempo ensina outra coisa.

Ensina que o corpo não é palco de prova,

é território de cuidado.

Circuncidar-se aos oito dias é rito cultural.

Aos trinta, pode ser escolha.

Aos sessenta, é maturidade.

Porque há uma diferença essencial entre provar algo e preservar algo.

Na infância, o corpo é promessa.

Na juventude, é afirmação.

Na maturidade, é responsabilidade.

E talvez a verdadeira aliança não esteja no corte,

mas na consciência.

Há homens que atravessam o procedimento com medo de perder símbolo.

Outros, com vergonha de expor fragilidade.

Alguns, com humor — esse aliado discreto da saúde psíquica.

No fundo, a circuncisão em qualquer idade fala de limite.

E limite não diminui o homem;

o humaniza.

Talvez o maior sinal de maturidade masculina não seja potência,

mas integração.

Não seja tamanho,

mas equilíbrio.

Não seja desempenho,

mas cuidado.

E assim, entre tradição e bisturi, entre rito e clínica, a vida vai ensinando:

A verdadeira aliança não está no corpo idealizado.

Está no corpo assumido.

Aos oito dias, dizem os textos antigos, o menino era circuncidado.

Era rito. Era tradição. Era pertença.

Aos sessenta, não é rito.

É consulta.

Dois urologistas, exames, aquela conversa técnica que começa neutra e termina inevitável:

“Será melhor fazer.”

Não houve anjo.

Não houve cântico.

Houve ciência, bisturi e termo de consentimento.

E eu assinei.

Confesso: por alguns segundos, atravessou-me o velho imaginário masculino.

Aquela fantasia silenciosa que acompanha gerações — potência, tamanho, desempenho, símbolo.

Brinquei com os médicos:

“Já que vão mexer, aproveitem e aumentem.”

Eles riram. Eu também.

E não aumentaram.

Ali, percebi algo curioso:

o humor é a forma mais elegante de atravessar a vulnerabilidade.

Porque há uma verdade que ninguém ensina aos meninos:

a masculinidade não está no que se exibe,

mas no que se integra.

Integrar o envelhecimento.

Integrar os limites.

Integrar o corpo real — não o imaginado.

Aos sessenta, a circuncisão deixa de ser sinal tribal e vira sinal de cuidado.

Não é marca de pertença religiosa,

é marca de responsabilidade consigo.

E talvez haja nisso uma espiritualidade silenciosa.

O corpo, esse velho companheiro de estrada,

não pede heroísmo —

pede atenção.

E aceitar a indicação médica, sem drama, sem crise identitária, sem teatralidade,

foi uma espécie de pequena aliança renovada:

— eu ainda quero viver bem.

— eu ainda me cuido.

— eu ainda me assumo inteiro.

Se houve algum rito naquele centro cirúrgico,

foi este:

o rito da maturidade.

A masculinidade jovem prova.

A madura cuida.

E se não aumentou o tamanho,

aumentou a consciência.

O que, no fim das contas,

é o que realmente sustenta um homem.

Lembrando que neste rito é uma nova percepção de si mesmo: física e espiritual.

Quando a glande passa a ficar descoberta, há uma mudança real — não apenas simbólica, mas sensorial. A pele que antes estava protegida passa a ter contato direto com tecido, temperatura, fricção. O corpo precisa reaprender.

E o corpo aprende no tempo dele.

É interessante como certas mudanças físicas, mesmo feitas por saúde, nos confrontam com algo muito profundo: a sensação de “estar diferente”. Não é só visual. É tátil. É cotidiano. Cada passo, cada roupa, cada movimento lembra que algo mudou.

Isso pode provocar:

estranhamento

hipersensibilidade inicial

sensação de exposição

até uma percepção diferente da própria identidade corporal

Mas há algo importante: o sistema nervoso se adapta.

A tendência natural é que a sensibilidade excessiva diminua gradualmente com o tempo, à medida que o tecido queratiniza levemente e o cérebro reorganiza a percepção tátil.

Psicologicamente, há também um processo paralelo:

o corpo novo precisa ser reintegrado ao “mapa interno” que você tem de si.

Isso não é vaidade.

É fenomenologia do corpo vivido.

Você não está apenas “operado”.

Você está em transição sensorial.

E há algo muito humano nisso:

a maturidade não nos poupa de reaprender o próprio corpo.

Se me permite uma leitura mais simbólica —

antes havia proteção constante.

Agora há exposição direta.

E exposição nem sempre é desconforto; às vezes é apenas novidade.

O tempo ajuda. Tecidos mais macios ajudam. Ajuste de roupa íntima ajuda. Mas principalmente: paciência consigo.

corpo e psique caminham juntos.

1️⃣ O incômodo físico

A hipersensibilidade é real.

A glande, ao ficar descoberta, passa por:

fricção constante

mudança de umidade

variação térmica

estímulo contínuo que antes não existia

O cérebro ainda está recalibrando o mapa sensorial.

É literalmente neuroadaptação.

Com o tempo:

a sensibilidade tende a diminuir

o tecido se adapta

o desconforto deixa de ser protagonista

Mas enquanto isso não acontece, o corpo envia sinais frequentes — e cada sinal reforça a percepção de “algo mudou”.

E mudou mesmo.

2️⃣ O estranhamento existencial

Aqui está a parte mais interessante.

O pênis, para o homem, não é apenas órgão.

É símbolo.

Mesmo quando não estamos pensando nisso conscientemente, ele ocupa um lugar no imaginário de identidade, potência, história pessoal.

Quando algo muda ali, o impacto não é só anatômico — é narrativo.

Você não perdeu algo.

Mas a imagem corporal foi alterada.

E o cérebro demora um pouco para atualizar o “eu sou assim agora”.

Isso pode gerar:

sensação de exposição

leve vulnerabilidade

percepção de envelhecimento

consciência maior do próprio corpo

Nada disso significa fragilidade.

Significa integração em andamento.

🌿 Há algo bonito (ainda que desconfortável) nesse momento

Você está vivendo um rito tardio de consciência corporal.

Na juventude, o corpo é naturalizado.

Na maturidade, ele é percebido.

Você está percebendo.

Isso pode ser desconfortável, mas também é um convite:

Reconhecer que o corpo não é estático.

Reconhecer que identidade não é fixa.

Reconhecer que masculinidade não depende de imutabilidade.

Se eu pudesse traduzir poeticamente:

Antes havia cobertura.

Agora há contato.

E contato, no início, arde um pouco.

Mas contato também é presença.

Você não está “desadaptado”.

Você está em processo.

E processos, especialmente aos 60, não são regressões — são expansões de consciência.

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