“A Idade da Aliança”
Há quem pense que a circuncisão pertence à infância.
Aos oito dias, nos textos antigos, ela era sinal de pertença, de tradição, de aliança.
Na infância, ninguém escolhe.
O rito antecede a consciência.
Mas a vida é curiosa:
às vezes a circuncisão reaparece em outras idades — não como tradição, mas como necessidade.
Na juventude, pode ser desconforto.
Na maturidade, pode ser saúde.
Na velhice, pode ser prevenção.
O gesto é o mesmo.
O significado muda.
Quando acontece cedo, é identidade herdada.
Quando acontece tarde, é decisão assumida.
E talvez seja aí que a reflexão comece.
A masculinidade jovem costuma estar cercada de símbolos: tamanho, potência, afirmação, comparação.
Há um imaginário silencioso que atravessa gerações — como se o valor do homem estivesse concentrado em centímetros invisíveis de expectativa.
Mas o tempo ensina outra coisa.
Ensina que o corpo não é palco de prova,
é território de cuidado.
Circuncidar-se aos oito dias é rito cultural.
Aos trinta, pode ser escolha.
Aos sessenta, é maturidade.
Porque há uma diferença essencial entre provar algo e preservar algo.
Na infância, o corpo é promessa.
Na juventude, é afirmação.
Na maturidade, é responsabilidade.
E talvez a verdadeira aliança não esteja no corte,
mas na consciência.
Há homens que atravessam o procedimento com medo de perder símbolo.
Outros, com vergonha de expor fragilidade.
Alguns, com humor — esse aliado discreto da saúde psíquica.
No fundo, a circuncisão em qualquer idade fala de limite.
E limite não diminui o homem;
o humaniza.
Talvez o maior sinal de maturidade masculina não seja potência,
mas integração.
Não seja tamanho,
mas equilíbrio.
Não seja desempenho,
mas cuidado.
E assim, entre tradição e bisturi, entre rito e clínica, a vida vai ensinando:
A verdadeira aliança não está no corpo idealizado.
Está no corpo assumido.
Aos oito dias, dizem os textos antigos, o menino era circuncidado.
Era rito. Era tradição. Era pertença.
Aos sessenta, não é rito.
É consulta.
Dois urologistas, exames, aquela conversa técnica que começa neutra e termina inevitável:
“Será melhor fazer.”
Não houve anjo.
Não houve cântico.
Houve ciência, bisturi e termo de consentimento.
E eu assinei.
Confesso: por alguns segundos, atravessou-me o velho imaginário masculino.
Aquela fantasia silenciosa que acompanha gerações — potência, tamanho, desempenho, símbolo.
Brinquei com os médicos:
“Já que vão mexer, aproveitem e aumentem.”
Eles riram. Eu também.
E não aumentaram.
Ali, percebi algo curioso:
o humor é a forma mais elegante de atravessar a vulnerabilidade.
Porque há uma verdade que ninguém ensina aos meninos:
a masculinidade não está no que se exibe,
mas no que se integra.
Integrar o envelhecimento.
Integrar os limites.
Integrar o corpo real — não o imaginado.
Aos sessenta, a circuncisão deixa de ser sinal tribal e vira sinal de cuidado.
Não é marca de pertença religiosa,
é marca de responsabilidade consigo.
E talvez haja nisso uma espiritualidade silenciosa.
O corpo, esse velho companheiro de estrada,
não pede heroísmo —
pede atenção.
E aceitar a indicação médica, sem drama, sem crise identitária, sem teatralidade,
foi uma espécie de pequena aliança renovada:
— eu ainda quero viver bem.
— eu ainda me cuido.
— eu ainda me assumo inteiro.
Se houve algum rito naquele centro cirúrgico,
foi este:
o rito da maturidade.
A masculinidade jovem prova.
A madura cuida.
E se não aumentou o tamanho,
aumentou a consciência.
O que, no fim das contas,
é o que realmente sustenta um homem.
Lembrando que neste rito é uma nova percepção de si mesmo: física e espiritual.
Quando a glande passa a ficar descoberta, há uma mudança real — não apenas simbólica, mas sensorial. A pele que antes estava protegida passa a ter contato direto com tecido, temperatura, fricção. O corpo precisa reaprender.
E o corpo aprende no tempo dele.
É interessante como certas mudanças físicas, mesmo feitas por saúde, nos confrontam com algo muito profundo: a sensação de “estar diferente”. Não é só visual. É tátil. É cotidiano. Cada passo, cada roupa, cada movimento lembra que algo mudou.
Isso pode provocar:
estranhamento
hipersensibilidade inicial
sensação de exposição
até uma percepção diferente da própria identidade corporal
Mas há algo importante: o sistema nervoso se adapta.
A tendência natural é que a sensibilidade excessiva diminua gradualmente com o tempo, à medida que o tecido queratiniza levemente e o cérebro reorganiza a percepção tátil.
Psicologicamente, há também um processo paralelo:
o corpo novo precisa ser reintegrado ao “mapa interno” que você tem de si.
Isso não é vaidade.
É fenomenologia do corpo vivido.
Você não está apenas “operado”.
Você está em transição sensorial.
E há algo muito humano nisso:
a maturidade não nos poupa de reaprender o próprio corpo.
Se me permite uma leitura mais simbólica —
antes havia proteção constante.
Agora há exposição direta.
E exposição nem sempre é desconforto; às vezes é apenas novidade.
O tempo ajuda. Tecidos mais macios ajudam. Ajuste de roupa íntima ajuda. Mas principalmente: paciência consigo.
corpo e psique caminham juntos.
1️⃣ O incômodo físico
A hipersensibilidade é real.
A glande, ao ficar descoberta, passa por:
fricção constante
mudança de umidade
variação térmica
estímulo contínuo que antes não existia
O cérebro ainda está recalibrando o mapa sensorial.
É literalmente neuroadaptação.
Com o tempo:
a sensibilidade tende a diminuir
o tecido se adapta
o desconforto deixa de ser protagonista
Mas enquanto isso não acontece, o corpo envia sinais frequentes — e cada sinal reforça a percepção de “algo mudou”.
E mudou mesmo.
2️⃣ O estranhamento existencial
Aqui está a parte mais interessante.
O pênis, para o homem, não é apenas órgão.
É símbolo.
Mesmo quando não estamos pensando nisso conscientemente, ele ocupa um lugar no imaginário de identidade, potência, história pessoal.
Quando algo muda ali, o impacto não é só anatômico — é narrativo.
Você não perdeu algo.
Mas a imagem corporal foi alterada.
E o cérebro demora um pouco para atualizar o “eu sou assim agora”.
Isso pode gerar:
sensação de exposição
leve vulnerabilidade
percepção de envelhecimento
consciência maior do próprio corpo
Nada disso significa fragilidade.
Significa integração em andamento.
🌿 Há algo bonito (ainda que desconfortável) nesse momento
Você está vivendo um rito tardio de consciência corporal.
Na juventude, o corpo é naturalizado.
Na maturidade, ele é percebido.
Você está percebendo.
Isso pode ser desconfortável, mas também é um convite:
Reconhecer que o corpo não é estático.
Reconhecer que identidade não é fixa.
Reconhecer que masculinidade não depende de imutabilidade.
Se eu pudesse traduzir poeticamente:
Antes havia cobertura.
Agora há contato.
E contato, no início, arde um pouco.
Mas contato também é presença.
Você não está “desadaptado”.
Você está em processo.
E processos, especialmente aos 60, não são regressões — são expansões de consciência.

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