sábado, 21 de fevereiro de 2026

Quando a Plateia Riu - Crônica de O Homem Sentado no Banco da Igreja





 Quando a Plateia Riu

Sentei-me no banco da igreja numa tarde qualquer, dessas em que o silêncio parece ter peso. Não havia culto, não havia cântico, não havia ninguém além de mim e de um feixe de luz atravessando o vitral azul.

Eu estava ali para descansar a alma — mas a alma não descansa quando encontra perguntas.

Mais cedo eu tinha visto um vídeo antigo. Um recorte da televisão britânica. O comediante Tommy Cooper em plena apresentação, transmitida pela ITV. Ele fazia o que sempre fez: truques que davam errado, silêncios calculados, falhas coreografadas.

Então ele caiu.

E a plateia riu.

Riu porque era isso que ele ensinara que fizessem.

Riu porque o erro fazia parte do número.

Riu porque ninguém queria ser o primeiro a suspeitar que a vida havia escapado do roteiro.

Ali, no banco da igreja, eu pensei: talvez essa seja uma das imagens mais fiéis do nosso tempo.

O riso como defesa

Como terapeuta, sei que o riso nem sempre é alegria. Às vezes é contenção. Às vezes é fuga. Às vezes é a tentativa desesperada de não encarar o abismo.

Freud falava do humor como economia psíquica. Rir pode ser uma maneira de sobreviver ao choque. Se eu rio, eu domino. Se eu transformo em piada, eu reduzo a ameaça.

Mas há um ponto em que o mecanismo de defesa se transforma em cegueira moral.

Aquela plateia não era cruel. Era condicionada. Confiava no artista. Confiava que tudo era encenação. Confiava que o palco nunca seria lugar de morte.

E eu me perguntei quantas vezes fazemos o mesmo na vida cotidiana.

Quantas quedas emocionais chamamos de drama.

Quantos gritos silenciosos interpretamos como exagero.

Quantas depressões são tratadas como falta de fé.

O altar do espetáculo

O palco é um altar moderno.

As luzes substituíram as velas.

A audiência tornou-se assembleia.

E o artista, sacerdote do entretenimento.

Tommy Cooper fez da falha sua assinatura. Seus truques fracassavam de propósito. Ele encenava o erro como genialidade. Quando seu corpo tombou, parecia apenas mais um ato perfeito.

Talvez o mais perturbador não seja que riram.

Talvez seja que ninguém percebeu imediatamente que era real.

Vivemos numa cultura que transformou tudo em conteúdo. A dor vira viral. A queda vira meme. A morte vira hashtag.

Psicologicamente, isso gera dissociação coletiva.

Teologicamente, endurecimento do coração.

E coração endurecido não discerne.

A teologia da interrupção

Enquanto eu observava o crucifixo à minha frente, pensei no contraste: ali, naquele símbolo, a dor não foi entretenimento. Foi escândalo. Foi ruptura. Foi silêncio.

O sagrado interrompe o espetáculo.

A cruz não permite risos fáceis.

Talvez o que falte ao nosso tempo seja a capacidade de interromper. De suspender a performance. De perguntar: “Isso é real? Alguém precisa de ajuda?”

Eu mesmo já ri de situações que, depois, percebi serem pedidos de socorro disfarçados. A clínica me ensinou que muitas máscaras são tentativas de sobreviver. O humor pode ser escudo. Pode ser espada. Pode ser ponte.

Mas quando a plateia só ri, sem escutar, algo se perde.

Herói ou espelho?

Dizem que ele partiu como herói, fazendo o que amava. Há uma beleza nisso. Morreu no exercício do dom.

Mas sentado ali, no banco de madeira antiga, percebi que a história não fala apenas sobre ele.

Fala sobre nós.

Sobre nossa dificuldade de distinguir encenação de sofrimento.

Sobre nossa pressa em transformar tudo em consumo.

Sobre a incapacidade de perceber quando a cena acabou e a realidade começou.

Talvez a pergunta mais honesta não seja “por que riram?”, mas:

Se alguém cair diante de mim — emocionalmente, espiritualmente, fisicamente — eu saberei reconhecer?

Ou vou supor que é teatro?

Naquela tarde, levantei-me devagar. Passei a mão sobre o banco como quem agradece a escuta silenciosa da madeira. Lá fora, o mundo seguia ruidoso, distraído, ávido por mais um vídeo, mais um riso, mais um instante viral.

Mas ali dentro, eu aprendi algo simples e inquietante:

Nem toda queda é espetáculo.

Nem todo riso é alegria.

E nem toda plateia percebe quando a vida deixa o palco.

Saí da igreja com uma oração breve, quase sussurrada:

“Que eu nunca ria quando alguém estiver morrendo por dentro.”

📍Momento da Crônica

Escrevi estas linhas sentado no banco frio da igreja vazia, com o eco distante dos meus próprios pensamentos batendo nas paredes como passos que não sabem para onde ir.

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