Eis uma crônica e uma carta imaginária de como meu bisavô se despediu de Montecchio Maggiore — escritas primeiro na língua que hoje me habita, e depois no dialeto que um dia habitou a alma dele.
(Montecchio Maggiore – Vicenza – Veneto – Itália)
O Homem que Saiu de Montecchio Maggiore
Meu bisavô saiu de Montecchio Maggiore.
Não saiu apenas de uma cidade. Saiu de colinas verdes, de vinhedos silenciosos, de um céu europeu que parecia definitivo. Saiu do sino da igreja que marcava as horas e do horizonte onde se erguem os antigos castelos que a tradição associa a Romeu e Julieta. Saiu de um lugar onde a história era feita de pedra — e decidiu apostar a própria vida na terra.
Imagino-o jovem. Talvez com as mãos já calejadas. Talvez com medo. Talvez sem saber explicar por que partir era menos doloroso do que ficar. A Itália que ele deixou enfrentava pobreza, promessas quebradas, campos que já não sustentavam todos os filhos. Então ele fez o gesto mais radical que um homem simples pode fazer: atravessou o oceano.
Não trouxe ouro. Trouxe sotaque. Trouxe fé. Trouxe o hábito de trabalhar em silêncio. Trouxe o jeito de sentar à mesa como quem celebra o pouco. Trouxe palavras em dialeto vêneto que, misturadas ao português, virariam herança invisível.
Quando penso nele, não penso apenas em um imigrante. Penso em um fundador. Um homem que trocou muralhas medievais por plantações brasileiras. Que deixou para trás os castelos de pedra e ajudou a erguer, com as próprias mãos, um castelo de carne e osso: sua descendência.
Eu sou parte dessa travessia.
Meu nome carrega o eco de um navio.
Minha história carrega o sal do Atlântico.
Há algo profundamente simbólico nisso tudo: de uma cidade marcada por torres antigas saiu um homem comum que decidiu construir futuro onde não havia nada garantido. Ele não sabia que estava fazendo história. Ele só queria sobreviver. Mas, ao sobreviver, plantou identidade.
Esta homenagem não é apenas memória. É gratidão.
Porque se ele não tivesse partido de Montecchio Maggiore, eu não estaria aqui escrevendo.
E toda vez que olho para minha própria história — com suas cicatrizes, seus desafios, suas reconstruções — percebo que talvez eu também carregue essa herança: a capacidade de atravessar mares internos e continuar.
Meu bisavô saiu de Montecchio Maggiore.
E em mim, ele ainda chega.
Carta antes do embarque
Montecchio Maggiore,
na véspera da partida.
À minha terra,
Escrevo olhando as colinas que me ensinaram a ser quem sou. O vento passa pelos vinhedos como sempre passou, indiferente ao fato de que amanhã não estarei mais aqui para senti-lo. As pedras das ruas guardam meus passos de menino, e o sino da igreja ainda marca as horas como se o tempo não soubesse que estou prestes a rompê-lo.
Não parto por falta de amor.
Parto justamente porque amo.
A terra que me criou já não sustenta todos os seus filhos. Os campos são pequenos, o trabalho é duro e o pão, às vezes, insuficiente. Meu coração se divide: metade quer ficar e envelhecer sob o mesmo céu; a outra metade sabe que, se eu ficar, meus sonhos murcharão como vinha sem água.
Dizem que do outro lado do oceano há um país chamado Brasil. Dizem que lá a terra é vasta e vermelha, que o café cresce forte, que há espaço para plantar futuro. Não sei se é verdade. Mas sei que preciso acreditar.
Levarei comigo o cheiro da uva esmagada, o gosto da polenta fumegante, o som do dialeto falado na mesa. Levarei o nome da família, a fé ensinada por minha mãe e o silêncio firme de meu pai. Levarei Montecchio dentro do peito, mesmo quando meus pés pisarem outra terra.
Não sei o que me espera. Talvez dificuldades, talvez saudade demais. Mas também levo esperança — essa semente invisível que só cresce quando alguém tem coragem de plantá-la longe de casa.
Se um dia meus filhos perguntarem de onde vieram, direi com orgulho: viemos de colinas antigas, de castelos que vigiam a cidade, de um povo que não se rende à miséria. Direi que deixei minha terra não para esquecê-la, mas para honrá-la.
Parto com lágrimas nos olhos e fé no coração.
Que Deus proteja meus passos sobre o mar.
Que esta despedida seja também começo.
Com amor eterno,
um filho de Montecchio.
...
E assim, entre duas línguas e dois continentes, a despedida já não é apenas memória — é herança viva.
O que um dia foi silêncio sob o céu de Montecchio Maggiore, hoje é palavra escrita.
O que era partida tornou-se raiz.
Do Vêneto ao Brasil, o oceano não nos separa — ele nos costura.
E nós somos gente de coração e alma aberta.
Nosso intimismo não é ficar escondido — é partilhar.
Enquanto houver alguém que conte esta história, meu bisavô continuará atravessando o mar…
mas desta vez, rumo a casa.
Ecco na cronaca e na letara imaginaria de come el me bisnono el se ga despedìo da Montecchio Maggiore — scrite prima nela lengua che ancöi la me abita, e dopo nel dialeto che un dì l’abitava l’anima soa.
(Montecchio Maggiore – Vicenza – Veneto – Italia)
L’Òmo che l’è Partìo da Montecchio Magiore
El me bisnono l’è partìo da Montecchio Magiore.
No l’è partìo solo da na cità.
L’è partìo da coline verdi, da vigne silensiose, da un cel che pareva eterno.
L’è partìo dal sonar dele campane che segnava le ore, e da quel orizonte dove se vede i castèi antighi che conta storie d’amor.
Me lo imagino zóvene.
Co le man za dure dal lavor.
Forse co paura.
Forse sensa saver spiegare perché partir el fasse manco mal che restar.
La tera no bastava più par tuti i so fioi. I campi i era streti, el pan pocheto, el futuro incerto. E cussì el ga fato el gesto pì grande che un òmo semplice pol far: traversar l’oceano.
No l’ha portà oro.
L’ha portà el so parlar, la fede, el modo de star a tola, el silensio de chi lavora sensa lamenti.
Parole in dialeto che, mesedà co el portoghese, le xe diventà memoria.
Mi son parte de quella traversada.
El me nome el sa de mar.
La me storia la ga sal.
Da na cità de piera antiga l’è nassù un futuro in tera rossa.
El no saveva de far storia.
El voleva solo viver.
Ma vivendo, el ga fondà na radise.
El me bisnono l’è partìo da Montecchio Magiore.
E dentro de mi, el rivà ancora.
Letara prima de imbarcarse
Montecchio Magiore,
la sera prima de partir.
A la me tera,
Te scrivo vardando le to coline par l’ultima volta. El vento el passa tra le vigne come sempre, come se gnente stesse cambiando. Le piere dele strade le conosse i me passi de puteo, e le campane le sona come se el tempo no sapesse che doman mi no sarò più qua.
No parto par mancanza d’amor.
Parto proprio perché amo.
La tera che me ga cresesto no pol più tegnir tuti i so fioi. I campi xe pìcoli, el lavor duro, el pan no basta sempre. El me cuor el se spaca in do: na parte la vol restar soto sto cel; l’altra la sa che restando i sogni i se seca.
Dixe che oltre el mar ghe xe un paese ciamà Brasile. Dixe che la tera là xe granda e rossa, che ghe xe posto par plantar futuro. No so se xe tuto vero. Ma go bisogno de crederghe.
Porterò con mi el profumo de l’uva, el savor de la polenta calda, el parlar de casa. Porterò el nome de la fameja, la fede de me mare, la dignità de me pare. Porterò Montecchio nel peto.
Forse vegnirà nostalgia. Forse vegnirà fadiga.
Ma vegnirà anca speranza — e la speranza xe na semente che cresse solo se qualchedun ga corajo de seminarla lontan da casa.
Se un dì i me fioi i domandarà da dove che semo, dirò con orgoglio: semo fioi de coline antighe e de zente che no se rassegna.
Parto co lagrime nei oci e fede nel cuor.
Che Dio me acompagni sora el mar.
Che sto addio el sia anca un principio.
Con amor eterno,
un fiol de Montecchio.
....
E cussì, tra do lengue e do continenti, l’addio no l’è più solo memoria — l’è eredità viva.
Quel che un dì l’era silensio soto el cel de Montecchio Maggiore, ancöi l’è parola scrita.
Quel che l’era partenza, l’è diventà radise.
Dal Veneto al Brasile, l’oceano no ne separa — el ne cusisse.
E nu semo zente de cuor e de anima verta.
El nostro intimismo no l’è star sconti — l’è spartir.
Fin che ghe sarà qualchedun che conta sta storia, el me bisnono el continuerà a traversar el mar…
ma stavolta, verso casa.
... Por Abilio Machado 🎅

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