quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Comida no Portão dos Outros é Refresco

 Comida no Portão dos Outros

Começou como filosofia.

Alguém joga ração no canto da calçada e entra na sua casa com a consciência levemente mais leve, assim age minha vizinha. 

Eu, do lado de cá do portão, tentando entender se aquilo era compaixão ou performance moral.

Hoje fiquei bravo estava gravando na hora em que o alarde dos cachorros começaram... 

No início, pensei psicanaliticamente: ambivalência.

O gesto que cuida, mas não assume.

O afeto que se aproxima, mas não acolhe.

Dar comida como quem diz: “eu me importo… até aqui.”

Depois fui para a psicologia: ajuda de baixo custo.

Empatia situacional.

Redução de dissonância.

O cérebro aprende que aliviar a culpa é mais barato do que assumir responsabilidade.

Tudo muito interessante… enquanto era teoria.

Até que a teoria começou a latir.

Os cães passaram a se concentrar no meu portão.

A defecar na minha calçada.

A alvoroçar os meus, pequenos, que não saem para a rua.

A interromper minhas gravações.

A fragmentar meu sono.

Foi quando percebi: não se trata apenas do tipo de pessoa que alimenta e não adota.

Trata-se do tipo de pessoa que alimenta — e desloca o efeito do gesto para o espaço do outro.

E aqui muda tudo.

Porque compaixão que gera prejuízo não é só compaixão.

É compaixão sem responsabilidade sistêmica.

Existe um perfil psicológico curioso nisso:

a bondade que funciona até o ponto em que exige reorganização da própria vida.

O cuidado que não suporta o peso do vínculo.

A moral fragmentada: “eu fiz minha parte”.

Mas parte para quem?

Se os cães permanecem no meu portão, o custo foi transferido.

O gesto bonito ganhou um endereço — o meu.

Talvez não seja maldade.

Talvez seja baixa consciência de impacto.

Talvez seja uma moral auto-referente, em que o importante é sustentar a identidade de quem ajuda, não resolver o problema.

Ou talvez seja apenas o retrato de um tempo em que as pessoas fazem atos pontuais e acreditam que isso basta.

O que me inquieta não é o prato de ração.

É o “até aqui”.

Esse limite invisível que diz:

“Eu cuido… mas não integro.”

“Eu ajudo… mas não assumo.”

“Eu faço o bem… desde que o custo não seja meu.”

Enquanto isso, eu assumo o barulho.

A sujeira.

O desgaste.

A irritação que cresce e me obriga a pensar sobre caráter, personalidade, traço, hábito.

Talvez o verdadeiro traço não seja alimentar e ir embora.

Talvez seja não perceber — ou não se importar — quando o próprio gesto invade o território do outro.

No fundo, a pergunta que ficou não é psicanalítica nem comportamental.

É ética.

Se o seu ato de bondade cria um problema para alguém, ele continua sendo bondade?

Ou virou apenas um modo elegante de terceirizar responsabilidade?

E eu aqui, entre latidos e teorias, aprendo que compaixão sem limite vira invasão.

Afinal como é bonitinho dizer para si:_ Dei comidinha e água avekes , olha Deus como sou bondoso, vizinhos olhem como sou caridosa.... Será mesmo?

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