segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O microfone está aberto ao testemunho, estamos realmente ouvindo?!



O microfone está aberto ao testemunho, estamos realmente ouvindo?!

Por Abilio Machado 

Para quem não conhece minha igreja ela funciona por testemunho, discursos e aulas/temas dirigidos e como atividade anual temos o Vem E Segue-Me.

Vou falar sobre o testemunho que acontece sempre na primeira sacramental do mês.

Respeite a fala do outro.

O púlpito é, sim, lugar de história. E a história também presta testemunho do evangelho — porque revela caminhos, lutas, escolhas, dúvidas, fé e transformação.

Em outros tempos, o testemunho do irmão não era medido pelo relógio, mas pela verdade que atravessava o peito.

Hoje, muitas vezes, o microfone está aberto, o púlpito organizado, o tempo cronometrado — mas a escuta tem hora marcada.

Nem todos os irmãos e irmãs têm eloquência, boa oratória ou palavras bonitas. Ainda assim, testemunham como sabem, com o que têm, com sinceridade. E isso basta.

Fé não se mede pela retórica.

Não precisamos — e não queremos — robôs repetindo falas engessadas, limitadas e quase sem alma.

Testemunho não é fórmula.

Não é texto decorado.

Não é performance.

Testemunho é experiência viva.

Como a própria liderança afirma: “o púlpito está livre para prestar testemunhos”.

Livre para falar com verdade, com consciência, com humanidade.

Mas um púlpito verdadeiramente livre não se define apenas por quem pode falar — e sim por quem está disposto a ouvir.

Respeitar o testemunho do outro é respeitar a diversidade de vivências dentro da fé. É compreender que Deus também fala por meio das histórias — inclusive aquelas que não cabem em respostas prontas, nem se encaixam em discursos perfeitamente ajustados ao tempo.

Quem viveu a igreja nos anos 80, por exemplo, lembra bem: os testemunhos eram simples, singelos, vivos.

Como dizem os evangélicos, era “fogo do céu puro”.

Relatos que nos enchiam de alívio, força e poder.

Os mais simples — por assim dizer — narravam lutas incríveis do dia a dia dos santos.

Sem técnica.

Sem roteiro.

Sem medo.

E isso era assombroso e maravilhoso.

Com o passar dos anos, surgiram treinamentos de liderança que enfatizaram a importância de focar o testemunho diretamente em nosso Salvador Jesus Cristo. Aprendemos que experiências pessoais e histórias deveriam ser contadas em discursos, conversas individuais ou em outros contextos; e que, no púlpito, deveríamos nos ater ao que cremos acerca do Salvador.

Entendo esse cuidado.

Mas preciso dizer: o testemunho vivido fortalece.

Fortalece quem não é da igreja.

Fortalece o irmão que está firme.

E fortalece, sobretudo, aquele que está “capengando” por dentro.

Quando a fé é apresentada apenas como certeza perfeita, corre-se o risco de transformar o púlpito em vitrine — e não em espaço de encontro.

Parece que só se pode mostrar que está tudo bem.

Que o “lado B” da fé deve ser escondido, silenciado, esquecido.

E isso empobrece a experiência espiritual.

Claro, sempre haverá quem diga que ouvir o testemunho de vida do outro é perda de tempo. Geralmente são os que não aprenderam a ouvir — apenas a responder.

São aqueles que mal você começa a falar e já o interrompem com um conceito pronto, baseado no que ouviram, leram ou decidiram tomar como verdade absoluta.

Eles escutam para corrigir, não para compreender.

E é justamente aqui que o Livro de Mórmon nos ensina algo essencial:

o testemunho verdadeiro não nasce da eloquência, mas do Espírito.

É Ele quem faz a palavra simples atravessar corações atentos.

Há testemunhos que não impressionam pela forma, mas queimam por dentro.

Porque não vêm para convencer — vêm para tocar.

Quando um irmão compartilha sua história com sinceridade, ainda que com voz trêmula, ainda que sem técnica, algo sagrado acontece:

o Espírito confirma a verdade não apenas do que é dito, mas do que foi vivido.

Testemunhar é declarar fé em Jesus Cristo, sim —

mas também é revelar como Ele tem caminhado conosco no meio das quedas, das dúvidas, das lutas e das reconstruções.

O próprio Livro de Mórmon nos lembra que o Senhor opera “segundo a linguagem do povo, para que possa compreender”.

E isso inclui histórias simples, experiências imperfeitas e palavras que não cabem em moldes rígidos.

Quando reduzimos o testemunho a uma fórmula, corremos o risco de silenciar aquilo que o Espírito deseja confirmar.

Porque Deus não fala apenas pelo conteúdo correto —

Ele fala pelo coração quebrantado.

Respeitar o testemunho do próximo é reconhecer que o Espírito Santo continua a agir entre nós,

inclusive quando a fala não é bonita,

quando a história é difícil,

quando a fé ainda está em processo.

Talvez o verdadeiro desafio do nosso tempo não seja aprender a falar melhor no púlpito,

mas voltar a escutar com o coração.

Sustentar o silêncio.

Dar tempo ao que não cabe no cronômetro.

Lembrar que, antes de sermos organizados, fomos tocados.

E que, muitas vezes, Deus fala exatamente ali:

na história simples,

na voz trêmula,

no testemunho imperfeito —

mas verdadeiro.

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