sábado, 21 de fevereiro de 2026

“O Corpo Fica Descoberto”

 


A circuncisão, no texto de Lucas 2,21, é sinal de pertença, identidade, aliança. No caso de Jesus, era inserção na tradição do seu povo. No s

meu caso, foi uma decisão carregada de significado — físico, emocional e espiritual.

E há algo profundamente simbólico nisso:

a circuncisão na maturidade fala de coragem para atravessar mudanças mesmo depois de uma vida inteira vivida de outro modo.

Já até mencionei que "sou um novo judeu."

Muitos homens carregam medo, vergonha ou resistência em relação ao próprio corpo. Fazer esse procedimento aos 60 ou qualquer outra idade não é apenas cirúrgico — é também psíquico.

 Envolve:

exposição

vulnerabilidade

cuidado

reintegração da própria história corporal

E há algo bonito nisso:

aos 8 dias, a circuncisão é tradição.

Aos 60, ela é escolha consciente. A Palavra é escolha.

No Dia 07 vimos que Jesus é inserido na tradição por um rito corporal.

No meu caso, atravessei um procedimento por cuidado e preservação da vida.

O corpo não é inimigo da espiritualidade.

Ele é o território onde a vida continua sendo cuidada.

E há algo muito digno nisso, posso dizer:

“Quando o Corpo Fica Descoberto”

Há mudanças que não fazem barulho.

Não vêm com anúncios, nem com celebrações.

Vêm com consulta médica, assinatura em formulário e um retorno para casa um pouco diferente.

Alguns homens passam por isso na infância, sem memória.

Outros, na maturidade — com plena consciência.

O curioso é que o corte não termina na cirurgia.

Ele continua na sensação.

A pele que antes era protegida passa a conhecer o mundo sem intermediações.

O tecido da roupa, mesmo macio, torna-se presença constante.

O frio é mais frio.

O toque é mais toque.

A consciência é mais consciência.

O corpo, que antes era silêncio, começa a falar.

E o homem percebe que não se trata apenas de uma mudança visual.

Há algo mais sutil acontecendo: uma relação íntima consigo mesmo está sendo redesenhada.

Não é dor intensa.

Não é drama.

É estranhamento.

Como se o mapa interno dissesse:

“Eu ainda não me reconheço completamente.”

Há também o símbolo.

Porque o corpo masculino, mesmo quando ninguém admite, carrega narrativas invisíveis — potência, tamanho, virilidade, identidade.

E qualquer alteração ali parece tocar algo que foi construído em silêncio por décadas.

Mas o tempo ensina.

Ensina que masculinidade não está na forma intacta.

Está na capacidade de integrar a mudança.

O jovem prova.

O maduro assume.

E assumir o próprio corpo em transição é um gesto de maturidade raramente celebrado.

A hipersensibilidade diminui com os dias.

O sistema nervoso aprende.

O tecido se adapta.

Mas o aprendizado mais profundo não é físico.

É relacional.

Porque, quando algo tão íntimo muda, o homem se encontra consigo de um modo diferente.

Mais atento.

Mais consciente.

Mais exposto.

E exposição, no início, incomoda.

Mas depois ensina presença.

Talvez o verdadeiro rito não seja o procedimento.

Seja o processo posterior — esse período silencioso em que o corpo pede paciência e a identidade pede atualização.

Aos vinte, o corpo é afirmação.

Aos quarenta, é desempenho.

Aos sessenta, é responsabilidade.

E há uma dignidade profunda nisso.

Quando o corpo fica descoberto,

a vida convida o homem a também se descobrir —

não como símbolo,

mas como ser humano integrado.

E no fim, o que parecia apenas uma intervenção médica

torna-se uma pequena iniciação tardia:

um homem reaprendendo a habitar o próprio corpo.

_E quando falamos deste órgão tão dentro do imaginário masculino, o assunto rende muito, veja as outras crônicas também.


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