“Quando o Corpo se Revela”
Há mudanças que não aparecem nas fotografias,
mas transformam a forma como habitamos a própria pele.
Algumas intervenções médicas são discretas aos olhos do mundo.
Ninguém percebe na rua.
Ninguém comenta à mesa.
Mas quem atravessa sabe: algo foi alterado.
Não é apenas visual.
É sensorial.
A pele que antes vivia protegida passa a conhecer o contato direto.
O tecido — mesmo macio — deixa de ser neutro.
Cada passo lembra.
Cada movimento informa: há novidade aqui.
E o corpo, sábio e lento, começa a reaprender.
Mas o que quase ninguém diz é que não é só o corpo que aprende.
O homem também aprende.
Porque certas partes do corpo masculino não são apenas anatômicas.
São simbólicas.
Carregam silêncio, imaginário, história, virilidade, identidade.
Quando algo ali muda, ainda que por cuidado e saúde, o que se altera não é apenas a forma — é o mapa interno.
Há um estranhamento sutil.
Uma sensação de exposição.
Uma intimidade inesperada consigo mesmo.
Como se o próprio corpo dissesse:
“Agora você vai me sentir de outro modo.”
E sentir, no início, pode ser desconfortável.
O excesso de sensibilidade não é apenas nervoso — é existencial.
É o cérebro reorganizando o território.
É a psique ajustando a imagem de si.
A maturidade ensina algo que a juventude desconhece:
o corpo não é cenário fixo.
Ele é processo.
Na infância, não escolhemos o corpo.
Na juventude, exibimos o corpo.
Na maturidade, reconciliamo-nos com ele.
Há uma diferença entre perder e transformar.
Perda fere identidade.
Transformação amplia consciência.
Quando o corpo muda, somos convidados a nos encontrar de novo.
Talvez essa seja a verdadeira intimidade:
não aquela que depende do olhar do outro,
mas aquela que nasce quando habitamos a própria vulnerabilidade.
Antes havia cobertura.
Agora há contato.
E contato é exposição.
Mas também é presença.
O homem maduro descobre que masculinidade não está na imutabilidade do corpo,
mas na capacidade de integrar suas mudanças.
O tecido roça.
A sensibilidade responde.
O tempo adapta.
E, aos poucos, aquilo que era estranho se torna incorporado.
O corpo não diminuiu.
A consciência aumentou.
E talvez a maturidade seja exatamente isso:
Aprender a morar, de novo,
na própria pele.

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