sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Não olhes para trás

 VELHO TESTAMENTO COMENTADO



Não olhes para trás

 

Ló e sua família receberam a ordem de sair de Sodoma, pois a cidade seria destruída devido à iniquidade de seus habitantes. A instrução do mensageiro do Senhor foi clara: “Escapa por tua vida; não olhes para trás de ti, e não pares em toda esta campina; escapa lá para o monte, para que não pereças” (Gênesis 19:17). Enquanto fugiam, porém, “a mulher de Ló olhou para trás dele, e ficou convertida numa estátua de sal” (Gênesis 19:26).


Geralmente, os leitores imaginam que ela virou literalmente uma estátua de sal no instante em que virou o rosto. No entanto, o mesmo capítulo relata que Abraão “foi para aquele lugar onde estivera diante da face do Senhor; E olhou para Sodoma e Gomorra, e para toda a terra da campina; e viu, e eis que a fumaça da terra subia, como a fumaça de uma fornalha” (Gênesis 19:27-28). Note que o patriarca contemplou a destruição e não se tornou uma estátua de sal.

 

Nas Escrituras, “olhar para trás” é frequentemente uma expressão idiomática que descreve a dificuldade de renunciar a algo que deveria ter sido deixado. Os israelitas, por exemplo, desejaram voltar para o Egito, onde haviam sido escravos (Números 14:1-4). Da mesma forma, quando Leí e sua família deixaram Jerusalém antes de sua destruição, Lamã e Lemuel manifestaram o desejo de retornar (1 Néfi 7:6-7). O próprio Salvador advertiu: “Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus” (Lucas 9:62).


A palavra hebraica que descreve o ato da esposa de Ló é nabat, que sugere mais do que um vislumbre rápido; indica uma observação atenta ou um olhar de desejo.¹ O Élder Jeffrey R. Holland explicou: “Aparentemente, o erro da mulher de Ló não foi apenas o de olhar para trás. Em seu coração, ela queria voltar (...). É possível que ela tenha olhado para trás com ressentimento contra o Senhor pelo que Ele estava pedindo que abandonasse”.²

 

O comentarista Coffman reforça que a ordem de Deus não era apenas uma proibição visual, mas referia-se a um "retorno" proposital à cidade condenada.³ A mulher de Ló deve ter tentado retornar ou, ao menos, hesitou em sua fuga ao contemplar a cidade. Ao agir assim, ela pode ter sido atingida por uma chuva de sedimentos e cinzas sufocantes — a mesma fumaça vista por Abraão. Ao ser soterrada e preservada por uma crosta de minerais, ela tornou-se, na prática, um monumento de detritos. É um processo semelhante ao que ocorreu com as vítimas de Pompeia, preservadas sob as cinzas vulcânicas.

 Nestes últimos dias, o Salvador advertiu: “Saí dentre as nações, sim, de Babilônia, do meio da iniquidade (...). E o que for não olhe para trás, para que não lhe sobrevenha uma destruição repentina” (D&C 133:14-15). Que cada um de nós tenha o mesmo foco do apóstolo Paulo: “Esquecendo-me das coisas que para trás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, ao prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3:13-14).


Notas:


1. Jeffrey R. Holland, “O melhor está por vir”, A Liahona, janeiro de 2010, p. 17.


2. Strong’s Exhaustive Concordance.


3. James Burton Coffman, "Commentary on Genesis 19:26". Coffman's Commentaries on the Bible, Abilene Christian University Press, Abilene, Texas, EUA. 1983-1999. Acessado em studylight.org/commentary/genesis/19-26.html.

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