VELHO TESTAMENTO COMENTADO
O que aconteceu na tenda de Noé?
Após o fim do dilúvio, lemos o seguinte relato: "E começou Noé a ser lavrador da terra, e plantou uma vinha; e bebeu do vinho, e embebedou-se; e descobriu-se no meio de sua tenda. E viu Cão, o pai de Canaã, a nudez do seu pai, e fê-lo saber, fora, a ambos seus irmãos. Então tomaram Sem e Jafé uma capa, e puseram-na sobre ambos os seus ombros, e indo virados para trás, cobriram a nudez do seu pai, e os seus rostos estavam virados, de maneira que não viram a nudez do seu pai. E despertou Noé do seu vinho e soube o que seu filho menor lhe fizera. E disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos" (Gênesis 9:20-25). O acontecimento registrado nesses versículos tem intrigado estudiosos da Bíblia. Embora o relato em Gênesis não seja muito claro, considerar o ocorrido à luz do simbolismo do templo revela perspectivas surpreendentes.
A "tenda de Noé", citada em Gênesis 9:21, talvez não fosse apenas um abrigo comum, mas um local de profundo simbolismo sagrado, comparável ao Tabernáculo e a outros templos do antigo Israel. Segundo Bradshaw, algumas tradições judaicas, como o 𝘡𝘰𝘩𝘢𝘳, consideram que tal tenda seria a "Tenda da Shekhinah" — a presença divina de Jeová. É possível traçar um paralelo entre a tenda de Noé, localizada ao pé do monte onde a arca repousou, e a "tenda da congregação" ao pé do Monte Sinai, na época de Moisés.¹
O relato da embriaguez de Noé pode ser compreendido sob a premissa de que profetas não são infalíveis. Contudo, de acordo com uma declaração atribuída a Joseph Smith, Noé “não estava bêbado, mas em uma visão”.² Nesse contexto, Noé prefigura o sumo sacerdote da dispensação mosaica, sendo aquele que pode colocar-se diante da presença do Senhor; a tenda sobre o cume do monte serviria, então, como um "Santo dos Santos". O vinho pode ser visto num contexto ritual ou sacramental, similar ao que Melquisedeque faria mais tarde com Abraão (ver Gênesis 14:18-19). A tradição judaica diz que uma jarra de vinho permanecia ao lado dos doze pães sobre a Mesa da Proposição do tabernáculo.³
Mas se uma teofania estava ocorrendo dentro da tenda, o que explicaria o fato de Noé estar “descoberto”? Bradshaw sugere que o profeta pode ter retirado suas vestes externas para estar na presença divina. Algo parecido é visto em João 21:7 ao afirmar que Pedro “estava nu” enquanto pescava. Ele provavelmente usava apenas uma roupa interior.⁴ Hugh Nibley argumentou que o termo hebraico 𝘦𝘳𝘸𝘢𝘵, traduzido como “nudez” em Gênesis 9:22, seria melhor compreendido como “peles”.⁵ O 𝘔𝘪𝘥𝘳𝘢𝘴𝘩 𝘙𝘢𝘣𝘣𝘢𝘩 afirma que a túnica de pele de animal que Adão recebeu do Senhor após a Queda foi transmitida a Noé, que a utilizava ao oferecer sacrifícios.⁶
Sob esta ótica, o erro de Cão foi ultrapassar sem autorização o "véu" (as cortinas da tenda) para observar Noé enquanto este estava num estado de revelação na presença de Deus. O resultado da atitude de Cão serve como lembrete sobre a importância da preparação para ser admitido na presença do Senhor.
Texto por Gustavo M. Rodrigues
Notas:
1. Jeffrey M. Bradshaw (2021) "The Ark and the Tent: Temple Symbolism in the Story of Noah," Interpreter: A Journal of Latter-day Saint Faith and Scholarship: Vol. 44, Article 5. Acessado em scholarsarchive.byu.edu/interpreter/vol44/iss1/5.
2. Joseph Smith, Jr., conforme relatado por William Allen to Charles Lowell Walker (C. L. Walker, Diário, 12 de maio de 1881, 2:554).
3. Daniel Smith, “The Tabernacle and the Messiah”, 2018, acessado em redeemerofisrael.org/2018/04/the-tabernacle-and-messiah.html.
4. Harold W. Attridge e outros editores, The HarperCollins Study Bible: New Revised Standard Version, Including the Apocryphal/Deuterocanonical Books, 2006, p. 1853, nota para João 21:7.
5. Hugh W. Nibley, “A Twilight World”, em Lehi in the Desert, The World of the Jaredites, There Were Jaredites, editado por John W. Welch, Darrell L. Matthews e Stephen R. Callister. The Collected Works of Hugh Nibley 5, p. 169-170. Salt Lake City, UT: Deseret Book, 1988.
6. H. Freedman et al., Midrash, 4:8 (Numbers 3:45), p. 101-102.

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